“Vai dar pra ver reels e tiktok ao mesmo tempo!”
Na última quarta-feira, a Apple apresentou o iPhone Duo, aparelho dobrável que permite usar dois aplicativos ao mesmo tempo e virou assunto nas redes sociais. Enquanto parte dos usuários recebeu o recurso como novidade, outros já o utilizam em aparelhos de outras marcas e relatam mudanças tanto na atenção quanto nos hábitos diários desde que passaram a dividir a tela.
Esse é o caso de Jéssica Jacintho, que começou a usar a tela dividida aos 14 anos por causa do seu amor por K-pop. Como não entendia coreano, deixava de um lado da tela do celular as lives das suas bandas preferidas e do outro uma página de tradução ao vivo do X para acompanhar o que acontecia. Hoje, aos 23, tenta usar o recurso só quando realmente facilita algo, como comprar ingressos ou calcular a divisão de uma conta entre amigos. Mesmo assim, sente que o hábito de consumir duas coisas ao mesmo tempo acabou afetando outros momentos, como o entretenimento.
Para Jessica, a diferença de atenção é bem nítida, ainda que pareça que esteja sendo produtiva em certo momento: “Acredito que já perdi muito da minha capacidade de manter a atenção em uma coisa só, sem estar fazendo algo que gere dopamina rápida. Sinto uma diferença de quando era mais nova, que lia vários livros e assistia séries inteiras sem parar. Agora, pra assistir um vídeo de 30 minutos eu demoro bem mais do que isso, porque fico inquieta e abrindo outros aplicativos no celular pra fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.”
Conta que atualmente sua média de tempo de tela está em torno de mais de dez horas por dia, grande parte concentradas em aplicativos com scroll infinito como tiktok e instagram. A solução que encontrou para reduzir a dificuldade de atenção foi passar mais tempo em plataformas como o youtube, com vídeos longos, e streaming para ver filmes e séries.
O iPhone Duo, primeiro aparelho dobrável lançado pela Apple
Bruno Rosa
Diferente de Jessica, Luciane Silva também faz uso do recurso, mas não fica preocupada com a interferência em sua atenção, mesmo que sempre esteja com mais de uma aba aberta. Sua junção mais recorrente no celular é colocar o youtube ou tiktok em uma tela, e o Kindle em outra. Relata que no começo foi confuso, mas que agora consegue consumir dessa forma tranquilamente.
Luciane diz ter boa memória para vídeos e fotos, por isso acredita que essa parte não é tão afetada. No entanto, é comum que releia o mesmo parágrafo várias vezes quando o conteúdo que "briga" com a segunda tela é um texto estático. Ainda assim, ela só enxerga vantagens na função: "Acho que foi a melhor coisa. Posso ler e ouvir músicas, por exemplo, que só têm no YouTube. Posso ver novelas que só encontro no Telegram e, ao mesmo tempo, mandar e-mail enquanto resolvo coisas no WhatsApp. Tudo isso pelo celular, em qualquer lugar que eu esteja."
Cristiano Nabuco, psicólogo e reitor da Artmed School of Psychology (APSY), explica que o ser humano não foi feito para uma exposição tão intensa a um estímulo, e que ter uma tela ocupando tantas horas do dia já representa, por si só, uma sobrecarga. Para ele, a qualidade de vida e o desenvolvimento psicológico humano também têm a ver com a capacidade de permanecer em uma mesma atividade, e o hábito de dividir a tela pode fragmentar essa atenção cada vez mais.
Por mais que pareça que a tela dividida é a mesma coisa que olhar o celular enquanto assiste a tv, Cristiano explica que há uma diferença importante: “Quando você alterna esse fluxo de atenção de um lado para o outro, tem a mudança de uma orientação corporal, você tem que adequar toda a visão a um estímulo que está vindo de mais longe. É importante lembrar que a TV é um estímulo que te propõe uma experiência passiva. A tela não, ela te induz a interagir. Então, quando você tem duas telas, sendo que as duas são uma mídia ativa, eu acho que isso pode criar um padrão adicional a mais de exigência da atenção do espectador.”
Cristiano aponta pequenas coisas que já encaminham as pessoas por esse caminho, mesmo antes das duas telas, como estar em um restaurante e olhar para o celular em vez de prestar atenção à pessoa que compartilha aquele momento. Apesar da preocupação com os efeitos dessa dopamina, o psicólogo garante que o que se perde é a habilidade, não a capacidade de atenção. Dessa forma, é possível reverter o dano e recriar o hábito de sustentar o foco.
Luciane e Jessica fazem parte do grupo que não pretende abrir mão das duas telas. Mas, enquanto Luciane não vê motivo para mudar, Jessica já enxerga um caminho possível, o de reduzir o consumo sem excluí-lo: "Eu manteria, mas tentaria deixar ele de forma mais saudável. Querendo ou não, é uma ferramenta de praticidade do dia a dia. Começou assim, mas foi escalonando. Gostaria de manter o hábito como ferramenta, e não como distração."