O inferno do bi-bi-bi: os motoqueiros cariocas só sabem dirigir buzinando sem parar
O que está acontecendo? Que rebuliço é esse? Gol do Neymar? Match point do João Fonseca? Trump suspendeu o tarifaço? É nesse momento que você tem que explicar para os amigos estrangeiros que não, não aconteceu nada de extraordinário. Aqui é assim mesmo: os motoqueiros cariocas só sabem dirigir buzinando sem parar. Quem mora no Rio nem repara mais, se acostumou à algazarra contínua. Aqui ou você fica meio surdo ou se torna completamente indiferente.
O segundo espanto dos turistas é quando você conta que a polícia não faz nada contra esse hábito. Nem tchuns. Também é necessário explicar aos que vêm de fora que, na verdade, nem há mais guardas de trânsito nas ruas. Aqui cada um faz o que dá na telha. Mas como assim? Perguntam, ainda espantados, os turistas: é algum experimento ultraliberal? Um ensaio anarcocapitalista? Uma autoflagelação coletiva?
Um pouco dos três, penso. Ou melhor, está mais para um experimento evolutivo-antropológico, coisa de Darwin. Uma maneira torta de descobrir quem consegue sobreviver ao caos sonoro.
Buzinar uma vez chama a atenção, mas buzinar continuamente só gera indiferença. Dito assim, parece até óbvio, não? Bastaria um pouco de bom senso para compreender este fato da vida. Por algum motivo que desconheço, o bom senso anda em baixa.
Os adeptos da razão diriam que os próprios motoqueiros deveriam coibir a balbúrdia constante, afinal são os mais prejudicados caso os motoristas não prestem mais atenção às suas buzinas. Sossegar o dedo nervoso no botão é para seu próprio bem, explicariam. Passar a cem por hora entre dois veículos em movimento é pra lá de arriscado, mas achar que buzinar sem parar vai servir como um salvo-conduto nesse estreito corredor beira a loucura.
Pensando bem, essa fantasia curiosa de que algo muito repetido é tão eficiente como algo inédito não está restrita às ruas.
Vejam o que acontece com a corrupção no Rio: quando o primeiro governador foi preso, foi um escândalo, a população toda ficou indignada. De tão repetida, a prisão de governadores virou hábito; a maioria já nem liga. Até estranhamos que o último ainda esteja solto.
E aqueles casamentos de décadas, em que as reclamações de um sobre o outro se repetem desde sempre? Quem ouve os protestos já não está nem aí. A gente se acostuma com tudo, seja corrupção, queixas ou um som irritante.
Voltando ao bi-bi-bi contínuo: já que não temos guardas de trânsito para multar e a razão está em falta, podíamos tentar algumas soluções mais disruptivas, digamos.
Quem sabe uma buzina de moto que já venha de fábrica com limite ou cota? Cada motoqueiro teria direito a buzinar cinco minutos por mês. Dez, no máximo. Mais que isso, só pagando. Ou trocar a buzina tradicional, de bi-bi-bi, por algo mais discreto. Um som de assovio, um psiu, quem sabe aquele trim-trim das bicicletas antigas?
E uma que só funcione abaixo de 20km/h? O motoqueiro seria obrigado a diminuir a velocidade para poder buzinar. Essa é boa, hein?
Quanto aos visitantes, o que faço para que não deem meia-volta em direção ao aeroporto é explicar que os motoqueiros cariocas são muito extrovertidos, precisam se comunicar continuamente, então resolveram conversar entre si por código Morse.
Só espero, pelo bem da Humanidade, que os turistas não espalhem a minha teoria por aí.