Depois de correr os festivais do Brasil, Vera Fischer Era Clubber chega ao segundo álbum
Se a ideia brota, por que não beber dessa seiva e deixar pingar? A máxima foi valiosa para o grupo de Niterói (RJ) Vera Fischer Era Clubber, um dos maiores fenômenos da música underground brasileira, que em poucos meses saiu dos subterrâneos cariocas para grandes festivais do Brasil, como o Coquetel Molotov (Recife) e o Bananada (Goiânia).
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Em não mais de um ano depois de sua estreia em álbum, elas voltam ao streaming, no primeiro minuto desta quinta-feira, com “VERAS II”, um disco que, como sugere o título, traz mais pérolas do eletroclash e pós-punk debochados, bem dark e marcadamente cariocas, do quarteto.
— A narrativa é uma coisa que se constrói tanto a partir da gente quanto no coração e na cabeça das pessoas. A gente joga a experiência e a pessoa complementa com as experiências dela próprias. “VERAS II” é o que estamos fazendo agora — explica a vocalista Crystal Duarte. — E é importante mostrar diferentes lados. A gente, obviamente, tem uma assinatura muito forte que é a do explícito, a do deboche, de dizer o que, teoricamente, é indizível. Tem esse lado divertido, mas também tem o lado mais dark e tem o lado mais profundo. O disco é um encontro das nossas referências, é a gente botando na mesa o que a gente tem no momento.
Capa do álbum “VERAS II”, do grupo Vera Fischer Era Clubber
Reprodução
Com faixas como “Feitiço”, “Amor de anjo” (dos versos “sou uma arma de sexo romântica / um pedaço de carne / nascido cheio de esperança”), “Grito dano e possessão”, “Buceta gay” (“na noite todo mundo tem a mesma idade, que é idade nenhuma”) e “Chic” (“me xinga no contexto certo / nunca pra magoar”), o novo disco das Veras veio sem a pressão que uma banda costuma enfrentar quando faz o seu segundo álbum.
— Nada foi muito programado, foram sonoridades que a gente foi experimentando e gostando delas. Foi tudo bem orgânico — diz Malu Manc, a baixista do grupo.
“VERAS II” é disco com alguns dos feats mais insitados dos últimos tempos: Kiko Dinucci, do Metá Metá (em “Amor de anjo”) e Katy da Voz e as Abusadas (em “Calcinha gozada”, o primeiro single).
— É, não sei (se foram os mais inusitados), porque teve aquele feat da Jennifer Lopez com Roberto Carlos — alerta Crystal. — O Kiko é uma pessoa que curte as Veras, viu nosso show do (festival) Popload, ficou louco na poesia de “Amor de anjo” no final participou e arrasou. A admiração é muito recíproca. E Katy da Voz, ela brotou no nosso show na (festa) Tesãozinho. A gente nem esperava, ela falou que era nossa fã e a gente de novo foi pega de calcinha arriada. Lá mesmo, a gente estava tipo, “meu Deus, a gente tem que fazer um filho, espremer um suco dessa conexão!” E daí tudo aconteceu. De novo, orgânico.
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Os últimos meses, que o grupo passou viajando pelo Brasil, atendendo a chamados para tocar em festivais e pequenas casas, foi bem aproveitado.
— O show é mesmo uma experiência a mais do álbum. Até você conhecer as Veras ali no calor, na presença, você não experienciou completamente — garante Crystal Duarte. — É legal chegar num lugar e achar que não vai ninguém ao show, tipo aconteceu agora em Maringá. Tava chovendo, faltou luz, mas tinha a maior galera cantando as músicas. Uma coisa é você ganhar like no Instagram e ver lá o número no Spotify. Outra coisa é a galera sair de casa para ir te ver e cantar de coração.Para Pek0, a baterista do Vera Fischer Era Clubber, a grande surpresa foi o Nordeste:
— A gente viu lá uma cena que se conecta muito com a gente, essa cena eletrônica, de artistas trabalhando com letras em português. Às vezes a gente se sentia muito distante disso tudo, mas parece que essa identidade clubber perpassa vários estados e regiões. É realmente bonito ver essa galera clubber se reunindo em cidades que, se eu passasse aleatoriamente, não diria que talvez ali tivesse uma cena. Não é só o Sudeste que frita, que é dark.
E o público das Veras, esse não poderia ser mais diverso.
— As crianças pulam, as adolescentes gritam, as gays se beijam, as drogadas se drogam... e as idosas estão no front — resume Crystal.
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Na sua caminhada, algumas conexões com gerações mais experimentadas do pop carioca foram bem festejadas: elas abriram show de Marina Lima e colaboraram com Fausto Fawcett.
—Fausto foi nossa primeira vez em São Paulo, a gente abriu o show dele, e depois ele veio falar com a gente. Quando trouxe o (show) “Animakina” pro Rio, ele me convidou para fazer uma participação, cantando “Kátia Flávia”, rolou essa sintonia — conta Crystal. — Acho que a gente tem a mesma língua do deboche carioca, a gente conhece bem esse personagem que é o Rio de Janeiro.
Falta, agora, conhecer a Vera Fischer.
— Olha, a Vera, a gente fica se perdendo. No Rio Innovation Week, ela estava lá, só que a quando a gente chegou falaram que tinha ela acabado de ir embora. Acho que no dia que a gente se encontrar o mundo vai explodir! — prevê a cantora. — Ela é uma pessoa que a gente acha muito foda, por ter vivido uma vida de experiências, ter se jogado, ter vivido o prazer. Ela é uma mulher que tem uma vida sexual, que tem uma vida de festa. A gente sabe que ela teve problemas e auges, ela é uma pessoa tridimensional. A Vera é a cara da Hollywood brasileira e é muito perfeito ela ser essa pessoa perfeita e imperfeita ao mesmo tempo.
Crystal acredita que, em “VERAS II”, o grupo conseguiu falar da noite “em um sentido mais profundo” do que no primeiro álbum. Uma noite que não mudou tanto desde os tempos em que Vera Fischer era uma de suas presenças mais esfuziantes.
— A noite foi um espaço que acolheu muita gente, que acolheu muitos amores proibidos, que acolheu muita muita gente que precisava gozar... e eu acho que isso se mantém. O que tem de em comum entre agora e a época que a Vera viveu é esse espaço fantástico onde a vida acontece — analisa Crystal. — A noite do Rio sempre esteve aí, e as pessoas queer sempre levantaram muito essa bandeira. A noite acolhe tudo que é marginal. Então, acho que na verdade, a gente não criou nada. A noite é que tem uma herança muito forte aqui no Rio.
A cantora diz adorar a confusão que as pessoas fazem com os gêneros das integrantes do Vera Fischer Era Clubber. É mulher? Homem? Cis? Trans?
— Eu quero que elas fiquem confusas mesmo. Vai tentando decrifar aí, amore! — diz ela (e manda beijinho). — A gente sabe o que a gente é, e é isso. Mas eu gostaria que chamassem a gente no feminino. Somos as Veras. As Veras. Fora isso, foda-se tudo. Ninguém vai responder nada. Vai especulando aí. Igual faziam com a Lady Gaga!