Solução que verifica sexo do embrião no ovo chega ao Brasil para reduzir descarte de machos em granjas
Equipe Raiar Orgânicos e AAT durante apresentação da Cheggy Época Negócios/Mariana Letizio O que antes ocupava apenas algumas prateleiras nos grandes supermercados agora conta com setores exclusivos: cada vez mais, os produtos orgânicos ganham espaço e, consequentemente, atenção especial das empresas. Diante do crescimento do setor, companhias como a Raiar Orgânicos, produtora especializada em proteína orgânica, têm investido em inovações voltadas à consolidação do mercado e ao bem-estar animal. Em parceria com a Agri Advanced Technologies GmbH, subsidiária do grupo EW e desenvolvedora da técnica “Cheggy” (destinada à sexagem de embriões), a Raiar anunciou a implementação da tecnologia alemã na compra de 100% de suas pintainhas. “Trata-se de um marco para a nossa empresa e para o setor, já que é a primeira vez que essas máquinas são utilizadas no Hemisfério Sul”, afirmou Marcus Menoita, CEO e cofundador da empresa, em coletiva. Baseada em um sistema de imagem hiperespectral, a Cheggy permite distinguir o sexo do embrião in ovo, ou seja, antes da eclosão. Segundo Menoita, a tecnologia apresenta 97% de assertividade e oferece uma nova forma de manejo dos machos, que não são utilizados na produção de ovos. Por não possuírem genética adequada para produção de carne, cerca de 7 bilhões de pintinhos são descartados por ano no mundo, sendo 140 milhões apenas no Brasil. Nesse contexto, a tecnologia também surge como uma forma de reduzir o sofrimento animal. Da chegada da pintainha à eclosão Menoita explica que o processo começa a ser aplicado no 13º dia de incubação. A partir daí, os ovos passam por um tipo de scanner que identifica o sexo em apenas cinco segundos. “Um feixe de luz é acionado e consegue identificar, pela cor, se dali nascerá um pintinho ou uma pintainha”, explica. Jörg Hurlin, diretor-geral da AAT, complementa que a distinção ocorre justamente pela coloração futura da penugem: embriões com coloração mais clara são machos, e os mais escuros, fêmeas. Marcus Menoita e Jörg Hurlin Época Negócios/Mariana Letizio Uma vez identificadas, as futuras pintainhas são separadas e seguem para as granjas da empresa. Já os machos são encaminhados para processamento, podendo ser utilizados como proteína animal, vegetal ou ainda em compostagem. A trituração ainda na fase embrionária evita que o processo ocorra após o nascimento do pintinho. “A Cheggy não é um método invasivo e não interfere internamente no ovo, o que garante que não haja contaminação do embrião. Além disso, é um processo rápido”, destacou Hurlin. Ele também afirma que a tecnologia é segura e colabora com o aumento da produção. Embora não seja um sistema totalmente automatizado, ou seja, ainda exige intervenção humana, a versão manual da máquina tem capacidade para processar 6.000 ovos por hora, enquanto a versão semiautomática alcança 25.000 ovos por hora. Apesar da eficiência, ele ressalva afirmando ser “uma tecnologia aplicável apenas para a linhagem de aves vermelhas”, já que essa é a única cuja penugem permite uma distinção de cor mais nítida, o que torna o processo mais preciso. O cenário e o mercado brasileiro A Raiar aponta que um dos principais motivos para a adoção da tecnologia alemã é a mudança no comportamento do consumidor. Na visão de Menoita, o consumidor atual é mais ativista e busca saber a procedência dos produtos que consome. E os dados confirmam essa tendência. Segundo levantamento realizado no início do ano pela Innovate Animal Ag, Brazilian Consumer Attitudes e Interesting Regarding In-Ovo Sexing, 72% dos consumidores brasileiros concordam que a indústria de ovos deve adotar a sexagem in ovo. Além disso, 47% se mostram interessados em comprar ovos oriundos dessa tecnologia e 76% estariam dispostos a pagar mais por eles, embora a empresa afirme que não repassará os custos do investimento aos consumidores. A tecnologia é pioneira no Brasil, mas já é utilizada em países da Europa e nos Estados Unidos. Em países como Alemanha e França, o uso de tecnologias para sexagem in ovo já é obrigatório, enquanto no Brasil, dois projetos de lei ainda tramitam em São Paulo e Brasília. Os valores investidos não foram revelados pela Raiar, mas Menoita afirma que a novidade pode dobrar a produção de ovos até o fim do ano, alcançando a marca de 6 milhões de unidades produzidas até dezembro. *Sob supervisão de Daniel Pinheiro Mais Lidas