Relações abertas, ciúme e regras: séries, livros e filmes exploram complexa matemática da não monogamia
Um casl abre as portas de casa (e da relação) porque, afinal, o tempo esfria os corações — ou porque a rotina amorosa anda bem só até a página dois, dois e meio. Cataploft. A empreitada resulta numa sequência de trapalhadas, equívocos e aflições que podem ou não incluir prazer. Repare: do último ano pra cá, as prateleiras do streaming, das livrarias e dos cinemas foram inseminadas com narrativas assim. A temática não constitui, bem, uma novidade. Mas a abordagem está diferente.
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Ao botar a lupa mais perto das contradições da não monogamia e de todas as suas variações, a ficção parece encontrar novas maneiras de explorar velhos conflitos conjugais. Exemplos não faltam — e praticamente todos cultivam apelo entre o público.
Nos filmes “Amores à parte” (2025) e “O convite” (2026) — este último um sucesso improvável bem cotado para o Oscar —, casais testam formas alternativas de saciar o desejo, numa busca que não garante gozo ou felicidade. Em “DTF St. Louis” (2026), minissérie da HBO premiada com o Emmy no último mês, o rearranjo dá tração a incontáveis desdobramentos (e é preciso segurar o queixo diante da escalada de acontecimentos). E mais. Livro de Raphael Montes que ganhará adaptação audiovisual com Paolla Oliveira, Bella Campos e Emílio Dantas no próximo ano, o recém-lançado “A estranha na cama” empurra um casamento em crise para dentro de uma experiência a três sufocante — e aqui qualquer linha a mais pode incluir spoilers. Isso sem falar em “Amor da minha vida”, série com Bruna Marquezine e Sérgio Malheiros cuja segunda temporada estreia na próxima sexta-feira, no Disney+, e que também descascará as feridas de um casal às voltas com a abertura de frestas na relação.
Regras e mais regras
O roteirista Alexandre Machado deixa escapar um riso diante dessas configurações cada vez mais, digamos, moderninhas — e, veja só, pautadas por regras e mais regras. Há alguns anos, ele se deparou com um número crescente de noctícias sobre celebridades que aderiam à não monogamia. Os relatos, como o escritor repassa, eram sempre muito “sinceros e lógicos” e... “engraçados”, como diz. A observação levou à criação da série “Casamento aberto e outras coisas que não existem”, da Netflix, com estreia prevista para junho de 2027. Detalhe: ele não é lá entusiasta dessa tal liberdade.
— Todos nós quebramos promessas diariamente. Bebemos demais eventualmente. Damos nossas vaciladas. E sabemos que isso não tem jeito. Uma pessoa que ama outra pessoa pode deixar ela transar com outras tranquilamente...? Desculpem-me, mas não acho humanamente possível — confidencia. — Gosto de esmiuçar os instintos básicos dos personagens, por mais “civilizados” que pareçam.
O elenco da série 'Casamento aberto e outras coisas que não existem': Heloisa Périssé, Otávio Muller, Camila Pitanga, Sérgio Guizé, Xamã e Samantha Schmutz
Divulgação/Julia Mataruna/Netflix
Enquanto escrevia os dez episódios da obra inédita, protagonizada por Camila Pitanga e Sérgio Guizé, o autor pensou, naturalmente, em “Os normais”. Aliás, o primeiríssimo episódio da série exibida entre 2001 e 2003 (e hoje disponível no Globoplay) — criada em parceria com Fernanda Young (1970-2019), com quem Machado era casado — tratava de swing (ou “troca-troca”, no linguajar de Rui e Vani, interpretados por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres).
‘Há um preço a ser pago’
A bem da verdade, mais de duas décadas depois, as puladas de cerca clandestinas continuam a render história, mesmo em casamentos “swingueiros” ou declaradamente não monogâmicos.
— Ser hipócrita é tendência no mundo. “Os normais” eram de um tempo mais divertido e otimista, em que a “sexualidade feliz” tomava conta de tudo — opina Machado. — Parece-me que, cada vez mais, a traição sexual perderá sua gravidade em relação à traição da confiança. Ou seja, as pessoas vão se preocupar menos com o parceiro transar com outra pessoa e mais com o parceiro mentir. Dramaturgicamente, me interessa mais o segundo caso. Da mentira, vivem as grandes histórias. Da mentira que dá errado, vivem as grandes comédias. E a mistura de mentira com sexo resulta no ciúme, inimigo número um das relações abertas. Então, a tal liberdade não é tão livre assim, porque não existe liberdade sem um preço a ser pago. Ao mesmo tempo, sem traições ou suspeitas, metade das histórias perderia a graça.
As mudanças de lente (e os novos enfoques sobre os afetos) refletem, a rigor, uma transformação mais longa. Psicanalista e autora de 15 livros sobre relacionamento, entre os quais o best-seller “A cama na varanda”, Regina Navarro Lins lembra que o amor é, antes de qualquer clichê, uma “construção social”. Por isso, está aí um sentimento incapaz de constituir experiências “imutáveis” ou perenes.
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O que ela quer dizer é que o amor jamais atravessou os séculos com a mesma roupa. Ao contrário. Ele voa pelos tempos e se acomoda em posições variadas a depender do contexto histórico, como sugere a pesquisadora.
A própria ideia de que duas pessoas apaixonadas devem se bastar numa espécie de unidade é, segundo Regina, relativamente recente. O que ocorre agora, avalia ela, é a virada de mais um capítulo desse folhetim chamado “amor”. E, como toda onda — que vai e vem—, antigos valores resistem enquanto outros começam a ganhar terreno, num processo que avança sem pressa, mas aos solavancos. A ausência de referências sedimentadas sobre a não monogamia, diz ela, gera ruídos e tropeços. É nesse campo que filmes, séries e livros deitam e rolam, conscientes, porém, da incapacidade de totalizar o tema.
— A mudança das mentalidades é lenta e gradual, e os conflitos existem porque se trata de algo novo. As pessoas não têm parâmetros para se apoiar. Mas isso não quer dizer que a não monogamia está “dando errado” — defende Regina. — O tipo de amor supermonogâmico está saindo de cena porque os anseios contemporâneos são pela individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. A grande viagem do ser humano agora é para dentro de si.
Relações de poder
Autor prolífico — com obras bem-sucedidas na literatura e na TV —, Raphael Montes enxerga um manancial narrativo nas bifurcações que as relações podem abrir. Por que não chafurdar a caneta nessa lama? Antes de escrever “A estranha na cama”, o autor percebeu que relações livres, trisais e outros arranjos deixavam de figurar apenas como excentricidade ou assunto de nicho e passavam a circular com mais naturalidade no debate público. Era um daqueles temas que, como diz, pareciam “estar no ar”. Bingo!
Paolla Oliveira e Bella Campos são as protagonistas de "A estranha na cama", de Esmir Filho
Divulgação/Marcos Serra Lima/Netflix
No thriller erótico — quinto livro de ficção mais vendido no país segundo levantamento publicado semanalmente pelo GLOBO —, a não monogamia não é exatamente o assunto principal, mas o estopim de uma engrenagem movida por desejo e relações de poder. O autor não crê em coincidências para o fato de tantas produções se debruçarem, quase ao mesmo tempo, sobre o assunto (“O escritor tem uma espécie de antena para as questões”, diz). Do ponto de vista de quem consome, o apelo já é outro: belisca-se o tal universo, longe de ser perfeitamente cor-de-rosa, e sai-se imune da leitura...
— Mesmo a relação aberta tem regras. E justamente essas regras permitem novas narrativas, porque o ser humano, mesmo dentro de um combinado, não deixa de ter desejo e rompê-lo, fazendo a coisa toda sair do controle — discorre Montes. — Há uma certa curiosidade em sentir, vamos dizer, esse frisson. Tem a ver, sim, com uma certa fantasia de libertação, de exploração do próprio desejo e de se perguntar: “Será que eu faria?” Existe aí uma função de suscitar, excitar, provocar o leitor e fazê-lo pensar, obviamente, em relação à própria vida.
Uma jogada de elite
Um acaso menos romântico se inscreve, contudo, nas entrelinhas de tais histórias. Boa parte dos personagens autorizados a amar e desamar de maneira aberta reside no mesmo andar da pirâmide social. Autor da peça “Dois de nós” — tratado irreverente sobre as contradições do amor e do tempo, com Antonio Fagundes e Christiane Torloni, em cartaz até 1º de novembro no Teatro Axia Casa Grande, no Leblon, no Rio —, o dramaturgo e colunista do GLOBO Gustavo Pinheiro repara que tanto “O convite” quanto “Amores à parte”, além de boa parte dos exemplos citados nesta reportagem, põem a experiência da não monogamia nas mãos de casais ricos. É gente com margem material, cultural e, em alguma medida, social para reconfigurar os próprios códigos afetivos. A liberdade, nesse caso, também tem CEP e, o principal, conta bancária.
— Um casamento não deixa de ser uma espécie de contrato. Parece-me que o pulo do gato é entender que, se há disposição, a gente casa 472 vezes com a mesma pessoa, revê os acordos e continua de pé. Como brinca (Christiane) Torloni: “Amor a gente improvisa, sacanagem tem que organizar” — resume Pinheiro, com bom humor. — O que essas obras mostram é que tem uma elite culpada com dificuldade de organizar a sacanagem.
'O convite': com Olivia Wilde, Seth Rogen, Edward Norton e Penélope Cruz
Divulgação
Fato é que o rearranjo dos contratos conjugais não se circunscreve à entidade “casal” (ou trisal, quadrisal, o que mais?). O que as narrativas sobre o tema têm mostrado é que matrimônios dispostos a abrir relações também precisam reformular o mundo ao redor. Para a ficção, a receita é saborosa, pois envolve uma boa quantidade de personagens.
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A psicóloga e sexóloga Marina Rotty tem conhecimento de causa. Ela e o marido eram frequentadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia quando tomaram coragem, enfim, para conhecer uma casa de swing. Na primeira vez, não transaram com ninguém. Nada, nada. Mas a simples ida ao local esquentou a rotina sexual. Com o tempo, veio, então, a disposição para novos vínculos. E, junto da decisão de abrir o casamento, instaurou-se uma grossa camada de angústia: como contar aos filhos adolescentes, à família, aos conhecidos? Como arrancar aquela parte da vida de um compartimento secreto?
— Quando começamos uma relação, de alguma forma também lidamos com a validação da melhor amiga, do pai, dos irmãos, da avó, dos tios, das pessoas que fazem parte da vida da parceria. Esse mecanismo não é exclusivo da não monogamia. Ele faz parte das relações humanas — pondera Marina. — Sempre vai existir um “olhar de fora”. O que faz toda a diferença é quanto poder a pessoa entrega a esse olhar sobre a própria identidade e sobre as escolhas que faz.
Zonas cinzentas
Nessas zonas cinzentas — que se abrem por dentro da relação e se instalam até as bordas dela —, a ficção recente encontra o melhor material. Em vez de tomar a não monogamia como senha automática de libertação ou, no extremo oposto, como prenúncio de catástrofe, filmes, séries e livros têm preferido esmiuçar o que escapa aos acordos: ciúme que ninguém previu, desejos que mudam, assimetrias, medos, mentiras, o peso de quem observa de fora... E por aí vai.
— Acho interessante quando a ficção abandona personagens que funcionam apenas como porta-vozes de uma tese e começa a mostrar contradições — analisa a psicóloga Deborah Landim, autora de “Relações abertas e não monogâmicas”.— Talvez seja justamente aí que essas histórias se tornem mais interessantes: quando deixam de perguntar “qual modelo de relação está certo?” e começam a perguntar o que fazemos com nossos desejos, nossos limites e nossas escolhas quando outra pessoa também tem desejos, limites e escolhas próprias.
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