Mercado ilegal no Brasil revela um 'sistema econômico criminoso articulado', dizem especialistas
O avanço do mercado ilegal no Brasil e a crescente atuação de organizações criminosas em diferentes cadeias produtivas foram alguns dos temas de um seminário realizado na semana passada em Brasília e que reuniu autoridades, representantes de associações setoriais, especialistas e acadêmicos.
O presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), Edson Vismona, citou dados da entidade mostrando que os prejuízos provocados passaram de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 473 bilhões no ano passado, revelando um “sistema econômico criminoso articulado”, com capacidade de financiar outras atividades ilegais e afetar empresas que atuam dentro da lei.
— Há 20 anos, tínhamos sacoleiros trazendo produtos do Paraguai. Temos hoje estruturas criminais sofisticadas cada vez mais empenhadas — disse Vismona, que defende o uso adequado dos impostos como estratégia para combater o problema. — Não pagar imposto gera altíssimo lucro. Apresentamos essa demanda na Reforma Tributária, pois sempre que subir imposto aumenta a lucratividade e competitividade do produto ilegal.
O superintendente regional adjunto da Receita Federal na 1ª Região Fiscal, Erivelto Moysés Torrico Alencar, destacou a grande capacidade financeira do crime organizado.
— As pessoas enxergam um trabalhador que vai à fronteira, compra uma mercadoria e vende para sustentar a família. Mas não entendem que, por trás desse trabalhador, muitas vezes há uma organização criminosa — disse Alencar, citando uma apreensão de R$ 20 milhões em perfumes e outra de R$ 1,5 milhão em medicamentos emagrecedores transportados por uma única pessoa em Mato Grosso do Sul.
Coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP), o professor Leandro Piquet afirmou que 25% dos entrevistados de um levantamento da instituição admitiram que poderiam consumir produtos ilegais caso fossem mais baratos, indicados por amigos ou facilmente encontrados.
A expansão do mercado clandestino de medicamentos para emagrecimento, por exemplo, acendeu um alerta na Receita Federal.
— De janeiro a junho de 2025, tivemos a apreensão de R$ 4 milhões em medicamentos emagrecedores. Este ano, no mesmo período, apreendemos mais de R$ 80 milhões — comparou Alencar.
A expansão do mercado clandestino de medicamentos para emagrecimento, por exemplo, acendeu um alerta na Receita Federal
Alexandre Cassiano
Ele lembra que” tanto os remédios quanto os perfumes introduzidos irregularmente no país são exemplos de produtos ilegais que podem provocar riscos diretos à população e à saúde pública”.
No caso de dispositivos eletrônicos para fumar, Vismona questiona a proibição mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na avaliação do presidente do FNCP, a ausência de um mercado regulamentado entregou o abastecimento desses produtos ao comércio clandestino:
— O cigarro eletrônico é proibido, mas há mais de três milhões de usuários consumindo um cigarro aberto, sem a blindagem da Anvisa. A falta de regulamentação criou o monopólio do crime.
Perigo no campo
No agronegócio, o perigo está na entrada de defensivos falsificados, contrabandeados ou proibidos no Brasil. Piquet citou o paraquat, herbicida banido no país por seus riscos à saúde humana e ao meio ambiente.
“Endurecimento penal não resolve sem investigação real” - Leonardo Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP
Além dos efeitos sanitários e ambientais, o pesquisador adverte que resíduos de produtos não autorizados podem provocar prejuízos comerciais.
— A falsificação e a importação ilegal desse defensivo para a soja podem ter impacto econômico grande e fechar mercados internacionais ao Brasil.
As redes ilegais também encontraram no comércio eletrônico uma forma de alcançar diretamente o consumidor. Vismona afirmou que empresas e entidades do setor denunciam mensalmente mais de 17 mil anúncios de cigarros ilegais encontrados em plataformas digitais.
Para ele, os marketplaces devem assumir maior responsabilidade na identificação e na retirada dessas ofertas.
— Os marketplaces têm tecnologia para combater isso por meio de algoritmos e inteligência artificial — defendeu.
Na fiscalização, a Receita Federal aposta no cruzamento de informações para localizar empresas criadas para conferir aparência legal a operações irregulares. Alencar avalia que a integração entre as notas fiscais de serviços e de mercadorias poderá ampliar a rastreabilidade das cadeias produtivas.
A medida ajudaria a identificar as chamadas “empresas noteiras”: firmas abertas principalmente para emitir documentos fiscais falsos e encobrir a origem ou a circulação irregular de mercadorias.
Piquet chama a atenção para produtos de nicotina cuja circulação permanece pouco visível nas estatísticas e nas ações de fiscalização. Entre eles estão os vaporizadores e os sachês de nicotina vendidos irregularmente ou sem regulamentação específica. Segundo o pesquisador, os sachês já teriam 1,5 milhão de usuários no Brasil.
Os vapes, por sua vez, ocupam espaço relevante nas rotas de contrabando entre o Paraguai e o território brasileiro. Inteligência e integração no combate ao crime.
Embora a Receita tenha ampliado o valor das apreensões de R$ 3 bilhões, em 2022, para R$ 4,2 bilhões, em 2025, Alencar afirmou que o órgão ainda enfrenta limitações operacionais e de pessoal.
— Diversos estudos apontam que esse volume de apreensão representa entre 0,5% e 1% do que entra irregularmente no país — disse.
“Apreensões de medicamentos emagrecedores ilegais dispararam” - Erivelto Alencar, da Receita
Para o superintendente, o tamanho da diferença entre o que é interceptado e o que consegue chegar ao mercado mostra a necessidade de aperfeiçoar o uso de informações fiscais e ampliar a integração entre os órgãos públicos.
Vismona acrescenta à discussão o peso da falta de tributação e da regulação sobre a oferta de pirataria. Na avaliação dele, diferenças expressivas de preço podem fortalecer o mercado clandestino, enquanto cortes orçamentários reduzem a capacidade de resposta do Estado:
— Precisamos observar o impacto regulatório e tributário. A segurança pública não pode sofrer contingenciamento de recursos, porque isso impede a ação da polícia e abre as portas para o crime.
Para Piquet, o aumento das penas, isoladamente, não será suficiente para enfraquecer organizações que operam com estruturas empresariais e grande capacidade financeira. O professor defende um modelo de investigação que reúna inteligência policial, tributária e financeira.
Como referência, ele citou a experiência italiana, baseada na atuação combinada das áreas penal, administrativa e financeira.
— O simples endurecimento penal não resolve sem capacidade real de investigação. Precisamos de forte presença da inteligência tributária e financeira alimentando a investigação criminal”, concluiu.
O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O Globo, Valor e Extra e da rádio CBN, com patrocínio de Philip Morris Brasil, Instituto Combustível Legal, Mercado Livre, BAT Brasil e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) e da Aegea.
* Para o Valor