Nova Uruguaiana terá quatro andares e 1.600 boxes, anuncia Prefeitura do Rio
Após sofrer inciêndio, camelódromo do Centro será reformulado para virar um shopping popular No mesmo dia em que a Uruguaiana foi tomada por turistas e fãs da cantora Lady Gaga em busca de acessórios para o megashow do útimo sábado (03) em Copacabana, a Prefeitura do Rio lançou a licitação para uma reforma que promete transformar completamente o camelódromo da região, parcialmente destruído por um incêndio em janeiro deste ano. O projeto prevê a construção de um shopping popular vertical com quatro pavimentos e cerca de 1,6 mil boxes.
De acordo com o município, a proposta é modernizar e reorganizar o espaço, criando áreas comuns mais amplas e acessíveis. Hoje, quem circula pelo camelódromo enfrenta corredores apertados e construções irregulares que, segundo a prefeitura, prejudicam até a visibilidade de imóveis tombados nos arredores.
— A proposta é integrar melhor o camelódromo com o entorno. Hoje, há acréscimos irregulares no entorno que interferem na contemplação de bens tombados. E teremos um sistema de incêndio moderno seguindo a legislação dos bombeiros — afirma o secretário municipal de Infraestrutura, Wanderson Nogueira.
Projeto inclui varandas para a Rua Uruguaiana e Av. Presidente Vargas
Divulgação
O novo espaço também deve incluir uma praça de alimentação. A ideia é transferir para dentro do futuro prédio os ambulantes que hoje vendem alimentos na entrada da estação Uruguaiana do Metrô, onde o fluxo intenso de pedestres é frequentemente dificultado.
O custo estimado da obra é de R$ 84,8 milhões, com prazo de conclusão de 16 meses. A execução será dividida em fases para reduzir o impacto nas vendas.
— Dividimos a obra por fases para minimizar o impacto da intervenção. Uma nova frente de obras seria aberta apenas com a conclusão da etapa anterior — explica Nogueira.
O novo espaço terá corredores mais amplos e quatro andares
Divulgação
Projeto divide opiniões
Apesar da promessa de melhorias, a proposta ainda divide opiniões entre comerciantes da região. No camelódromo, onde nesta sexta-feira o movimento foi intenso por causa do show da diva pop, a notícia da reforma gerou tanto entusiasmo quanto apreensão.
— Tomara que saia do papel, mas o medo é que a gente fique sem trabalhar por meses. O movimento está voltando agora, depois do incêndio. Essa semana, com o show da Lady Gaga, foi um alívio — contou a lojista Marlene Araújo, de 52 anos, que há duas décadas vende bijuterias no local.
Enquanto expositores ajustavam manequins com laces coloridas e chapéus brilhantes, itens entre os mais procurados pelos fãs da cantora, o ambulante Francisco Souza, que vende cachorro-quente próximo à entrada do metrô, criticava a ideia de ser transferido para dentro de um novo prédio.
— Lá dentro a gente vai sumir. Quem come na rua quer coisa rápida, não vai subir escada para lanchar. Além disso, eles querem botar ordem onde há vida — disse ele, enquanto servia um cliente com pressa.
Já a jovem lojista Denise Moura, que improvisou uma vitrine temática com meias da bandeira LGBT e camisas estampadas com o rosto da cantora, via na reestruturação uma oportunidade:
— Seria maravilhoso ter um lugar com estrutura decente, ventilação, segurança. Hoje, se chover forte ou faltar luz, vira um caos aqui dentro.
Início das obras ainda sem data
O projeto arquitetônico prevê varandas voltadas para a Rua Uruguaiana e a Avenida Presidente Vargas, com fachadas mais integradas à paisagem urbana. Ainda não há prazo para o início efetivo das obras, que dependerá da conclusão do processo licitatório.
Entre os visitantes, também há diferentes visões. A professora mineira Luciana Amaral, de 36 anos, que veio ao Rio exclusivamente para o show da Lady Gaga, aproveitou a manhã para comprar acessórios no camelódromo.
— Nunca vi tanta coisa colorida junta. Comprei camisa, leque e uma peruca. É uma loucura, mas é muito divertido. Se ficar mais organizado e seguro, vai ser ótimo para quem vem de fora — afirmou ela.
Já o administrador paulista Henrique Teles, de 42 anos, destacou a importância do projeto para melhorar a imagem do espaço.
— É um lugar popular, importante para o comércio, mas é visível que muita coisa vendida aqui não tem procedência. Com estrutura e controle, dá para manter a diversidade, mas com mais legalidade — disse ele, com uma sacola cheia de acessórios.
Enquanto isso, na calçada, o movimento segue aquecido. Na sexta-feira passaada, teve até lojista fantasiado de Lady Gaga dançando na porta da loja para atrair a multidão animada. Em meio a leques, cangas, camisetas e glitter, os vendedores torcem para que a promessa de um novo camelódromo traga mais oportunidades — sem apagar a alma popular do comércio que virou ponto turístico do Centro.