Selfie postada no Instagram revelou espécie amazônica inédita para a ciência
Uma fotografia publicada no Instagram levou cientistas à descoberta de uma nova espécie de vitória-régia gigante na Colômbia. Nomeada Victoria colombiana, a planta foi identificada após uma expedição à região de Inírida, no leste do país, e pode já estar criticamente ameaçada de extinção, com uma população estimada entre 30 e 50 exemplares na natureza. O achado foi descrito em um estudo publicado esta semana na revista Phytotaxa. A investigação começou no dia 13 de dezembro de 2021, quando o estadunidense Jeremiah Harris publicou uma foto nadando na Bacia do Orinoco, ao lado de uma vitória-régia gigante. Dono de um viveiro de plantas carnívoras nos Estados Unidos, ele acreditava que se tratava de uma espécie já conhecida, a Victoria amazonica. Essa imagem chamou a atenção de Carlos Magdalena, horticultor e pesquisador botânico dos Jardins Botânicos Reais de Kew, no Reino Unido. Como a Victoria amazonica não é considerada nativa das proximidades do Rio Inírida, ele suspeitou que a planta fotografada pudesse pertencer a uma espécie ainda desconhecida pela ciência. Investigação de quase dois anos Para verificar a suspeita, Magdalena analisou imagens de satélite e identificou plantas do gênero Victoria sp. na região. Depois de confirmar com Harris que os registros correspondiam aos exemplares fotografados, o pesquisador buscou a colaboração de Mauricio Bernal-Rodriguez, de um jardim botânico em Bogotá, além de integrantes de comunidades indígenas locais. A equipe organizou uma expedição de cinco dias para examinar as plantas em seu ambiente natural. A missão, no entanto, quase terminou sem resultados conclusivos. Isso porque, nos primeiros dias, os pesquisadores encontraram apenas duas vitórias-régias, nenhuma delas florida. Initial plugin text A presença de flores era essencial para confirmar a descoberta. Os cientistas precisavam coletar um exemplar fértil de herbário, ou seja, uma amostra com estruturas reprodutivas, como flores, que pudesse ser prensada, seca e preservada para análises e comparações com outras espécies. Na última noite da expedição, quando a equipe já se preparava para voltar, o barqueiro local Gustavo Melo ajudou os pesquisadores a encontrarem outro grupo de plantas aquáticas. Entre elas, havia um exemplar florido, que permitiu avançar na identificação. Além da Victoria colombiana, os cientistas descreveram ao todo sete plantas encontradas em dois lagos. O estudo também propõe uma revisão da classificação de outra planta aquática, a Victoria mattogrossensis, que, segundo os pesquisadores, deve ser reconhecida como uma espécie distinta. Com essa alteração, o gênero Victoria sp. passaria a reunir cinco espécies conhecidas. Initial plugin text A descoberta foi resultado da combinação de diferentes formas de conhecimento e recursos tecnológicos. Além do trabalho dos botânicos e horticultores, a participação de moradores e integrantes de comunidades indígenas foi fundamental para localizar e documentar as plantas. Imagens de satélite e redes sociais também tiveram papel importante no processo. “A descoberta desta planta não teria sido possível sem a colaboração de muitas pessoas que detêm diversos conhecimentos, desde o saber indígena até botânicos e horticultores de dois países, além de tecnologias como o levantamento por satélite com SIG”, afirmou Magdalena ao portal Gizmodo. A sigla SIG significa Sistema de Informação Geográfica, uma tecnologia que permite analisar dados associados a lugares específicos. O pesquisador também destacou o papel das ferramentas digitais acessíveis ao público. “Incrível que algumas dessas tecnologias estejam no seu bolso, seja no Instagram ou no WhatsApp”, aponta ele. Ameaça de extinção Apesar da importância científica do achado, a situação da Victoria colombiana é preocupante. A equipe estima que a planta possa se enquadrar na categoria de criticamente ameaçada de extinção, classificação que indica risco extremamente elevado de desaparecimento na natureza. Os pesquisadores pretendem apresentar uma avaliação formal à UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), organização responsável por uma das principais referências mundiais sobre o risco de extinção de espécies. Ainda há a possibilidade de existirem outras populações em áreas não exploradas, mas isso precisa ser investigado. Para tentar evitar o desaparecimento da planta, a equipe planeja cultivar suas sementes em jardins botânicos e estudar a possibilidade de estabelecer uma população em lagos próximos de comunidades indígenas, que poderiam acompanhar os exemplares e contribuir para sua proteção. A proposta inclui o cultivo no Jardim Botânico Bernal-Rodriguez, em Bogotá, e uma possível transferência futura de exemplares para os Jardins Botânicos Reais de Kew, no Reino Unido. Essas iniciativas permitiriam ampliar o conhecimento sobre a espécie e criar alternativas para sua conservação. “Conectar pessoas de diferentes origens é fundamental em um mundo em rápida transformação, porém, todos nós tínhamos uma coisa em comum: somos fascinados pela natureza”, observa Magdalena. “Espero que vocês achem essa descoberta tão fascinante quanto eu.”