Envelhecer no mundo corporativo: realidade ou ilusão?
"Você é um idoso em treinamento". Esta frase, do documentário Muitos Anos de Vida, que será lançado em breve pelos irmãos Paulo e Fernando Schultz, resume uma quebra de paradigma sobre como pensamos a longevidade e me fez questionar: será que realmente é possível envelhecer dentro de uma empresa? Ou isso é apenas um discurso que esconde uma realidade bem diferente? Quando nasci em 1964, o Brasil era outro país. A expectativa de vida girava em torno de 53 anos e as famílias tinham, em média, 6,3 filhos; hoje, seis décadas depois, a expectativa de vida ultrapassa 77 anos e a taxa de fecundidade caiu para 1,7 filho por família. Sou caçula de 5 irmãos e tenho apenas um filho. Fui testemunha, em uma única vida, de um ganho de quase 50% na expectativa de vida. É uma transformação profunda que muda comportamentos, estruturas sociais e o mundo do trabalho. Mesmo com os desafios que os vieses etários representam, a longevidade é uma força. Quando as empresas a reconhecem, ampliam sua capacidade de inovar, atrair talentos e gerar resultados. Os RHs que ainda não acordaram para essa mudança demográfica não estão cumprindo seu papel na estratégia de negócios das suas organizações. Existe um paradoxo em nosso mercado de trabalho que poucas organizações nomeiam, embora todas sintam. De um lado, as empresas enfrentam escassez de talentos nas posições de entrada e precisam de habilidades sintonizadas com um mundo em transformação acelerada. Do outro, profissionais 50+ precisam trabalhar, porque não têm poupança suficiente para uma aposentadoria longa; podem trabalhar, porque desfrutam de longevidade saudável; e querem trabalhar, porque isso sustenta suas saúdes financeira, social, cognitiva e física. Porém, o mundo corporativo continua operando com práticas que excluem justamente o grupo que mais cresce na força de trabalho. A nossa cultura nos ensinou a ler a velhice como sinônimo de declínio. Os estereótipos são conhecidos: velhos são doentes, tristes, improdutivos, desconectados da tecnologia, porém os dados contam outra história. Segundo pesquisas recentes, 81% das pessoas 60+ querem se manter produtivas; 87% dizem que esta é a fase para "fazer coisas"; 70% acessam a internet todos os dias; 9 em cada 10 contribuem financeiramente para suas famílias. O mercado 60+ movimenta 2 trilhões de reais no Brasil. E, no entanto, mesmo diante de uma realidade tão expressiva, o preconceito etário persiste e se aprofunda quando outras dimensões entram em cena. De acordo com a OMS, o etarismo se manifesta na forma como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade. E quando a idade se cruza com outras dimensões, como gênero e raça, deficiência, o preconceito não se some, ele se multiplica. A velhice não é regressão, é reinvenção. É quando muitos encontram propósito, autonomia e liberdade intelectual. É quando a experiência se transforma em sabedoria aplicada. Por isso, combater o etarismo não é apenas "a coisa certa a fazer", é uma decisão inteligente de negócio. Empresas que valorizam profissionais maduros ganham diversidade cognitiva, visão sistêmica, estabilidade emocional, habilidades interpessoais refinadas e capacidade de julgamento. Depois de anos liderando esse tema, organizei minha experiência em uma fórmula simples: "ASSIM". A – Aliados: ninguém transforma a cultura sozinho. É preciso ampliar a base de pessoas que compreendem o tema e se tornam agentes de mudança. Em minha experiência, ao liderar globalmente uma rede dedicada às questões geracionais, contribuí para ampliar sua presença de 13 para 21 países. S – Símbolos: certificações externas e patrocínio executivo dão legitimidade e visibilidade à agenda. Em uma das organizações em que atuei, tivemos a oportunidade de conquistar a primeira certificação no Brasil com o selo CAFE (Certified Age Friendly Employer). Porém, mais importante que o reconhecimento formal foi o aprendizado gerado sobre nossas oportunidades concretas de melhoria. S – Sistemas: sem mudanças estruturais, tudo corre o risco de virar discurso. Ao longo desta trajetória, pude participar de iniciativas que removeram o limite etário para contribuições a planos de pensão e criaram programas de saúde específicos para pessoas com 50 anos ou mais, incluindo suporte à reposição hormonal na menopausa. São mudanças que moldam comportamentos e ancoram a estratégia na realidade. I – Inovação: longevidade é oportunidade estratégica, não pauta periférica. A licença parental neutra de gênero que ajudei a implantar em 2020 (até 6 meses remunerados para todas as pessoas), segue como um dos maiores acertos dessa visão. M – Medição: sem dados, não há gestão. Ao analisar nossa população 50+, descobri que era composta majoritariamente por homens brancos, reflexo de um mercado historicamente mais excludente em gênero e raça. Esse dado orientou, de forma intencional, as ações seguintes do RH. Ao completar 60 anos, passei a olhar a vida com mais profundidade e percebi que minha trajetória profissional e pessoal se encontravam justamente aqui: na defesa de um mundo do trabalho que reconheça o valor de todas as idades. O futuro será multigeracional, não por escolha, mas por realidade demográfica. A pergunta que fiz no início (realidade ou ilusão?) tem resposta agora. Envelhecer no mundo corporativo é realidade. A questão é se será uma realidade de exclusão ou de oportunidade, mas a força da longevidade está aí, pulsando, transformando, desafiando. Cabe a nós decidirmos, e eu escolhi abraçar e liderar. *Pedro Pittella é diretor de recursos humanos da Sanofi Brasil, engenheiro de formação, coautor do livro Futuro do Trabalho e líder global do Employee Business Resources Group Generations+ Mais Lidas