"Ainda não encontrei o equilíbrio", admite artista Brunna Mancuso sobre conciliar trabalho e maternidade
Antes de ser mãe, Brunna Mancuso podia passar horas diante de uma pintura, mergulhada no processo criativo, sem precisar interromper o trabalho. Mas desde o nascimento de Thomás, em junho de 2025, a rotina mudou. Hoje, a artista multidisciplinar aproveita as sonecas do filho e as madrugadas para pintar, dividindo o tempo com os cuidados com o bebê e as tarefas da sua rotina como artista autônoma. Brunna Mancuso passou a dividir o tempo do trabalho como artista autônoma com a rotina como mãe de seu primeiro filho, Thomás Brunna Mancuso/Arquivo pessoal Artista plástica Carol Wang encontra novo ritmo entre maternidade e trabalho após chegada da filha "Vou ser bem honesta: eu ainda não encontrei o equilíbrio entre maternidade e trabalho. Estou atravessando. Esse está sendo o período mais desafiador desde que ele nasceu, e eu lido com frustração todo dia", conta Brunna, em entrevista à CRESCER. Formada em artes visuais pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Brunna começou a carreira pelo design e pela ilustração. Além das pinturas, a artista trabalha com ilustração comercial, desenvolve projetos para marcas, vende originais e impressões em sua loja virtual e oferece cursos online de guache, aquarela e desenho. Ao longo de mais de dez anos de trabalho, desenvolveu uma produção autoral marcada por imagens de mulheres em momentos íntimos do cotidiano. Flores, livros e outros elementos da natureza também aparecem com frequência em suas obras. A investigação sobre o universo feminino atravessa seu trabalho desde 2015 e também aparece em projetos editoriais, como as capas de livros da escritora francesa Valérie Perrin publicadas no Brasil pela editora Intrínseca. "Foram mais de dez anos de treino, de camada em cima de camada, até virar profissão de verdade. Eu demorei muito tempo pra conseguir falar 'eu sou artista' sem rir sem graça depois", diz. A chegada de Thomás Casada com Edson Galdino, Brunna engravidou do primeiro filho no final de 2024. O anúncio nas redes sociais veio em 9 de janeiro de 2025, quando ela estava na 15ª semana de gestação. Na época, o casal já sabia que esperava um menino. Como trabalha por conta própria, a artista começou a se preparar para a mudança antes mesmo do nascimento. Planejou passar cerca de três meses sem pintar, mantendo apenas a administração mínima da loja, e organizou alternativas para gerar renda, como uma rifa de pinturas e tatuagens, uma edição limitada de impressões e a divulgação de seus cursos, incluindo uma aula de pintura a óleo. Brunna engravidou de Thomás no final de 2024 Brunna Mancuso/Arquivo pessoal A reta final da gestação, porém, trouxe desafios que iam além da preparação para a maternidade. Pouco antes de completar 31 semanas, Brunna perdeu o pai. Nas redes sociais, falou sobre a dificuldade de lidar com o luto, as mudanças do terceiro trimestre e a necessidade de manter a energia e a concentração para trabalhar. Em maio de 2025, durante seu primeiro Dia das Mães, ainda grávida, publicou uma mensagem para o filho: "Filho, estou amando ser sua casa! Mal vejo a hora de te conhecer!". Tom nasceu em 29 de junho, um dia antes da data prevista para o parto, com 52 centímetros e 3,850 kg. Nos primeiros dias com o bebê, Brunna precisou se adaptar aos cuidados com o recém-nascido e à nova rotina. A maternidade também transformou a maneira como ela organiza o trabalho e se relaciona com o próprio processo criativo. Brunna dedica principalmente as noites e os intervalos de descanso de Thomás para o seu trabalho Brunna Mancuso/Arquivo pessoal A criação artística em uma nova rotina Antes da chegada do filho, Brunna tinha liberdade para se dedicar a uma pintura pelo tempo que considerasse necessário, experimentar materiais e permanecer diante de uma obra até terminá-la. A continuidade do processo é justamente o que mais sente falta. "O que eu sinto mais falta é da continuidade e do flow em que eu conseguia entrar nas pinturas. Quando entrava numa pintura, ficava ali até terminar. Podia passar o dia inteiro, varar a noite se desse vontade, mergulhar num material novo por semanas. O tempo era meu e eu decidia o que fazer com ele", conta. A mudança exigiu que aprendesse a trabalhar em períodos menores. "Aprendi a pintar em blocos curtos, a deixar uma coisa pela metade e voltar três dias depois sem que o mundo acabe", explica. O trabalho também passou a incorporar novos temas e materiais Brunna Mancuso/Arquivo pessoal Até os materiais passaram por essa adaptação. Brunna começou a experimentar o giz pastel oleoso porque precisava de uma técnica mais prática para a rotina com um bebê pequeno em casa, que ainda não frequenta a creche. Antes, já havia feito uma transição semelhante ao trocar a tinta a óleo por materiais mais práticos, como o guache. "Foi uma decisão de maternidade, não de estética. Mas ela acabou abrindo um caminho novo no meu trabalho, o que eu acho lindo", diz. Por enquanto, o giz pastel oleoso é uma maneira de conseguir desenhar um pouco no dia a dia, mas a artista pretende explorar melhor as possibilidades da técnica no futuro. Como Tom tem ainda 1 ano e 3 meses, o trabalho continua concentrado nos intervalos em que o filho dorme. "Na prática, o que eu faço é bem pouco romântico: eu trabalho quando ele dorme, nas sonecas e madrugadas", conta Brunna. Mesmo nesses períodos, nem todo o tempo é dedicado à pintura. Brunna precisa embalar pedidos, responder aos clientes, resolver problemas de envio, escrever legendas e preparar aulas. Como administra sozinha diferentes etapas do negócio, as tarefas que ficam nos bastidores também consomem o tempo disponível para criar. "Com um bebê no colo, cada uma dessas coisas custa o triplo", destaca Brunna. "A culpa vem dos dois lados" A rotina também exige lidar com o cansaço e com as frustrações de não conseguir produzir como antes. Depois de passar o dia cuidando do filho, Brunna nem sempre tem energia para voltar à mesa e pintar. Nos últimos meses, a família enfrentou uma sequência de desafios, com quatro dentes nascendo ao mesmo tempo, gripe e pouca ajuda nas tarefas domésticas, apesar de contar com uma rede de apoio presente. "Não é falta de disciplina, é falta de mão livre e muitas vezes falta de energia depois que passei o dia com ele e ele foi dormir. Eu acho essa distinção importante porque a gente se cobra como se fosse preguiça, e não é", afirma Brunna. A rotina também traz o sentimento de culpa, ainda que viver a maternidade seja um sonho para Brunna Brunna Mancuso/Arquivo pessoal O conflito entre a maternidade e o trabalho também aparece na sensação de não conseguir estar inteiramente presente em uma das duas atividades. "Todo dia. E a parte mais cruel é que a culpa vem dos dois lados: culpa por estar trabalhando e não estar com ele, culpa por estar com ele e não estar trabalhando", diz. Brunna conta que precisou rever as próprias expectativas e aceitar que a produção seria menor nessa fase. Também passou a criar conteúdo sem depender de obras novas o tempo todo, já que nem sempre consegue concluir uma pintura no ritmo que gostaria. A artista está criando coragem para matricular Tom na creche no início de 2027. Antes resistente à ideia, começou a reconsiderar a decisão ao perceber que a rotina estava cobrando um preço para sua saúde mental. Para lidar com a insegurança, pediu às mães que a acompanham nas redes sociais que compartilhassem experiências positivas com a creche e recebeu diversos relatos. "Minha vontade era que ele ficasse comigo enquanto desse, mas eu tenho percebido que 'enquanto desse' tem um limite, e ele está chegando", conta Brunna. A expectativa é que algumas horas por dia longe dos cuidados diretos com o filho permitam que Brunna volte a se aprofundar em uma pintura, experimente materiais e desenvolva trabalhos maiores e mais desafiadores. Mais do que recuperar a rotina anterior, o desejo da artista é encontrar espaço para voltar a explorar o próprio processo criativo. O processo criativo dentro de casa Além de reorganizar o trabalho, Brunna pensa no que gostaria que Tom aprendesse ao crescer acompanhando sua rotina artística. "Eu gostaria que ele crescesse achando normal uma casa onde se faz coisas com as mãos. Que fazer arte não é talento nem dom de poucos, é trabalho e pesquisa, mas que também tem sua mágica e seu lugar de brincar. Ele também vai me ver errando, refazendo, deixando pela metade. Acho isso mais valioso do que ele me ver sendo boa em alguma coisa. Ele vai ver o processo, que é o que mais gosto", diz. A expectativa é nos próximos meses conseguir retomar novas pinturas e desafios no trabalho Brunna Mancuso/Arquivo pessoal A artista também reconhece que chegou à maternidade depois de mais de dez anos construindo uma trajetória profissional. "Eu tive filho num momento em que meu trabalho já é maduro o suficiente para sobreviver essa fase de caos e fico feliz de ver que consigo desenvolver pinturas em que sou apaixonada mesmo nessas condições", afirma. Por enquanto, Brunna segue trabalhando com o tempo contado e aproveitando as oportunidades que aparecem ao longo do dia. "Hoje eu trabalho com urgência, com o relógio da soneca correndo. Espero chegar numa fase em que eu possa trabalhar com tempo de novo, e olhar pra trás pra esse período caótico com carinho, porque apesar de tudo eu amo minha vida e não mudaria nada. Já já eu volto pras pinturas, elas vão estar me esperando", reflete Brunna. Initial plugin text