Conheça os segredos e os vinhos da chilena Vik, a melhor vinícola do mundo; leia entrevista exclusiva
Eleita a melhor vinícola do mundo, a Vik, que fica no Vale de Millahue, nasceu em uma área pouco conhecida daquele país e ganhou reconhecimento em menos de 20 anos. A chilena soma altas pontuações para seus rótulos, que já alcançaram 100 pontos de críticos internacionais, e também atrai turistas em buscas de uma experiência com vinhos, gastronomia e hospedagem. O projeto tem a assinatura do casal de empreendedores Alex e Carrie Vik, que buscou na América do Sul um local para produzir vinhos premium. Em entrevista exclusiva, o enólogo-chefe Cristián Vallejo revela que não é apenas a forma como os vinhos são produzidos que é diferente: — Sempre nos esforçamos para criar uma experiência através dos vinhos, e dissemos isso muito antes deste prêmio. Queremos que os nossos vinhos, mesmo aqueles que recebem 100 pontos, sejam vinhos para serem apreciados com amigos, família ou de qualquer outra forma. E a experiência é fundamental, onde a qualidade e o luxo são altamente valorizados. Pilares da experiência O enólogo detalha que a Vik oferece ao visitante uma experiência completa, que é percebida por todos os sentidos e baseada em quatro pilares: a natureza do lugar, o vinho, a comida e a arte. — Vou apresentar os pilares principais, vistos de diferentes perspectivas. A natureza, por exemplo. Ao chegar aqui, você não está apenas cercado pela Cordilheira da Costa, pelo solo mais antigo da América do Sul, por uma floresta tropical intocada. Não é recebido apenas por uma brisa fresca vinda do mar, sob um belo sol, um céu limpo. Não há ruído da cidade. Você também é apresentado à maneira como o produzimos o vinho e como incorporamos a natureza. Em todos os outros sentidos, que não se limitam mais à visão, mas também ao paladar, à audição, ao olfato e ao tato. O enólogo Cristián Vallejo Divulgação Ele destaca que a natureza está integrada à criação do vinho: — A experiência com o vinho convida você a vivenciar esse processo de vinificação. Não vou dizer “processo” porque não gosto dessa palavra, mas sim a criação do vinho. Quando você vem aqui, sente-se envolvido e é convidado a ver, por exemplo, como fabricamos os barris, a entender a contribuição de cada um e a se tornar parte disso. Vallejo acrescenta que a natureza está também integrada à culinária do chef Pablo Cáceres: — Nosso chef utiliza a horta, tudo cresce neste local. Os sabores são impregnados pela natureza do lugar, e mais uma vez, uma experiência. Já combinamos três elementos: o lugar, o vinho e a comida, mas também aguçamos os sentidos através do hotel (o Vik Retreat Chile, inaugurado em 2014) com a arte. Obviamente, é um museu de arte. O quarto que você escolher incorporará esse poder da arte, que é aguçar seus sentidos também através da imaginação. Quando você observa uma obra de arte, absorve o que o artista transmite e o interpreta. O mesmo acontece com o vinho. E também com a culinária. Além disso, temos o spa, onde todas as sessões são realizadas com vinho ou com partes da fruta, que é a uva. As opções gastronômicas são o Milla Milla, o Pavilion e o La Huerrta, um restaurante orgânico ao ar livre onde 100% dos ingredientes são colhidos pouco antes de serem preparados para os clientes. O mercado brasileiro é destino de 28 mil a 30 mil caixas de vinho da marca, representando 35% do faturamento global da vinícola. Os turistas do Brasil correspondem a 28% das vendas de hospedagem da Vik. Conheça vinhos da Vik, por Cristián Vallejo O vinhos pontuados da Vik: marca chilena Divulgação Vik (safra 2021 - R$ 1.200) - Elaborado com 77% Cabernet Franc e 23% Cabernet Sauvignon. A safra 2021 recebeu 100 pontos do crítico James Suckling. Amadureceu 26 meses em barris elaborados com a técnica barroir para 90% do corte, e o restante estagiou em recipientes elaborados com argila do programa amphoir. Contou ainda com leveduras nativas do Fleuroir. "Elegância. É um vinho com os taninos muito finos, com uma sensação na boca incrível, com muitas camadas de sabores. É muito complexo, entendendo complexidade com muitos sabores diferentes, não como dificuldade. Porque a grande graça de todos os nossos vinhos é que são muito fáceis de tomar. Fácil de tomar não significa baixa qualidade. Ao contrário, é fácil quando é perfeito. Tem muita fruta vermelha e preta, especiarias, complexidade no nariz, cor profunda. É um vinho intelectual, que gera essa relação sabor, memória, que te faz viajar, buscar onde sentiste este sabor antes. Começa uma conversa contigo. Para nós, é um livro. Cada taça é um capítulo. Cada gole, uma página. Vai te contando uma história. Cada taça mostra faces diferentes, que fazem um vinho muito atraente. Pode harmonizar com distintos tipos de comidas." La Piu Belle Tinto (2021 - R$ 425) - A safra 2021 é um corte com 76% Carménère, 16% Cabernet Sauvignon e 8% Cabernet Franc, com estágio de 20 meses em barricas de carvalho francês (confeccionadas pela vinícola e tostadas com carvalho da região, o barroir). "É um vinho com um rótulo lindo, uma obra de arte. Tem outra personalidade. Vem de outro lugar da propriedade, de outros vales. A experiência organoléptica é diferente. Há frutas negras como amoras, muita especiaria. É um vinho que não cansa. Ao contrário, convida a uma segunda taça. É uma experiência muito agradável pelas características da Carménère. É uma forma de expressar a Carménère, só com frutas negras, especiarias." Milla Cala (safra 2021 - R$ 319) - É elaborado com 61% Cabernet Sauvignon, 23% Carménère, 8% Syrah, 7% Cabernet Franc, 1% Merlot. "Mila significa ouro e Cala, Vik. É Vik de ouro. É um blend de cinco variedades. Para mim, é a introdução ao mundo de Vik. É a história contada em poucas palavras. É como ir à livraria para comprar um livro do autor que você gosta. Antes de levar, você vira e lê a contracapa. Milacala conta a história em poucas palavras. É um blend normalmente de cinco variedades, a maior parte de Cabernet Sauvignon. Também passa 20 meses em barricas. Oferece muitas sensações, é muito elegante, mas delicado, termina muito bem. Combina com muitas comidas, não precisa pensar muito para combinar." Stonevik (2023 - R$ 1.100) - Produzido com Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Carménère, com práticas holísticas, orgânicas e biodinâmicas. É fermentado durante um ciclo lunar em barricas de carvalho elaboradas e tostadas pela Vik e depois amadurece em sete ânforas artesanais feitas com argila da propriedade. Três delas homenageiam o universo e quatro, a Terra. Em torno de uma mandala, elas são alinhadas de acordo com princípios astronômicos em um campo eletromagnético natural. Semienterradas na floresta, no topo da montanha La Robleria, as ânforas são protegidas pelos carvalhos e pelas águias. "O Stonevik é liberado em janeiro do ano seguinte à colheita. Colhemos em abril de 2025 e o liberamos em janeiro de 2026. Nesses oito meses em que está na montanha, a mil metros de altura, enterrado na Cordilheira da Costa, a natureza se encarrega dele. Ele tem taninos muito polidos, dão uma sensação de movimento na boca. Difícil de explicar que, em oito meses sem barrica, fique tão redondo. Tudo ocorre pelas condições do lugar, a altura, as temperaturas. Tem uma energia diferente. É muito elegante. Ganhou 98 pontos dois anos seguidos por três críticos. Ele tem uma qualidade incrível. É um vinho feito 100% conectado à natureza de todos os pontos de vidas. Não só porque é orgânico e biodinâmico, mas porque amadurece em contato com a natureza." Práticas orgânicas e biodinâmicas A Vik usa práticas orgânicas e biodinâmicas na produção dos vinhos. Vallejo enfatiza que a marca usa um conceito abrangente: — Se você vier nos visitar, verá que na vinha, por exemplo, utilizamos produtos orgânicos como o trichoderma, um fungo que ataca outros fungos. Não utilizamos produtos químicos. O mesmo se aplica à biodinâmica. Utilizamos parte dessa filosofia, que se baseia nos ciclos de vida. Alinhamo-nos com o ciclo lunar. Produzimos o único vinho no mundo completamente conectado ao ciclo solar ao longo do ano, e ao ciclo das luas cheias. Cristián Vallejo: enólogo produz os vinhos premiados da Vik Divulgação Vallejo conta que os vinhos são produzidos sem intervenções: — Trabalhamos de forma orgânica, biodinâmica. Praticamos a vinificação e a viticultura circulares e não utilizamos nenhum produto que não seja de origem local. Não há filtração, aditivos ou clarificação, como, por exemplo, com gema de ovo. São vinhos puros, naturais deste lugar. Em nossa filosofia holística, nossos vinhos incorporam conceitos como a própria sustentabilidade. Segundo ele, a vinícola foi construída para ser energeticamente eficiente e ter uma pegada de carbono muito baixa. — Usamos luz natural. Podemos trabalhar dentro da vinícola sem acender as luzes. O telhado branco nos isola da temperatura externa. No inverno, não é tão frio aqui, e no verão não é tão quente. Outra prática da Vik é a vindima durante a madrugada: — Como a temperatura aqui permanece relativamente baixa de noite, a 15 graus, não precisamos gastar energia extra. Colhemos neste horário por razões técnicas e de sustentabilidade. A razão técnica é que o esmagamento é mais fácil com uvas frias. E a razão de sustentabilidade é que gostamos de fazer uma maceração a frio, 5 dias a 10 graus para as uvas. As uvas atingem naturalmente os 10 graus. Não precisamos usar energia para resfriá-las. Barroir, amphoir e fleuroir A Vik foi pioneira no desenvolvimento de técnicas batizadas como barroir, que aplica o terroir aos barris a partir da tosta com madeira de carvalhos da região; do amphoir, que resgata a vinificação ancestral em ânforas de argila produzidas no próprio vale; e do fleuroir, que usa leveduras das flores na vinificação. — Uma de nossas grandes características, que vêm do sonho de Alex e Carrie, é buscas novas formas de expressar e chegar ao objetivo usando recursos que só temos no lugar. Através de nossa enologia chegamos à enologia circular. A enologia circular, para nós, é um conceito. Peter Richard, master of wine e jornalista inglês, definiu-a como uma categoria, semelhante à vinificação orgânica a biodinâmica. Vallejo detalha que, nesse tipo de enologia, produz-se vinho utilizando apenas recursos locais. — Isso soa diferente para nós até analisarmos os detalhes, porque usamos apenas o que temos aqui, sem ter sabores do exterior. É por isso que tostamos as barricas com nosso carvalho. Por isso barroir, que é barrica e terroir. Barroir é um conceito de integrar a natureza para conseguir o objetivo final que é o melhor vinho. Ao incorporar o tostado com nossos carvalhos, não só estamos dando o aroma e o sabor do lugar com 300 anos, mas também estamos entregando o DNA deste lugar. Essa árvore esteve 300 anos neste lugar e por alguma razão caiu. Nós a recolhemos para usar. Ela ficou 300 anos ali, não é como os animais que podem caminhar. As árvores mudam sua genética para se adaptar a 20 anos de chuva, a 20 anos de frio. Ela começa a incorporar a história do lugar. Também podemos controlar detalhes e fazer especificamente como queremos. Vik tem seu próprio tostado, Mila Cala o seu. Vallejo explica que Amphoir significa ânfora e terroir, uma forma de entregar a microoxigenação ao vinho, para que os taninos fiquem redondos. — Ao usarmos argila, temos um recipiente em que o oxigênio ou água entra e sai pelos poros. Esses poros são únicos deste lugar. E se a argila entrega algum sabor a este vinho, também é do lugar. Somos os únicos no Chile , e me atrevo a dizer na América do Sul, em que elaboramos nossos próprios recipientes. Normalmente se compra da Itália ou da Espanha. A função é microoxigenação e sabor. A Cordilheira da Costa é o solo mais antigo da América do Sul com 200 milhões de anos. Entregamos a evolução de 200 milhões de anos usando a argila. Também está criando um tostado com as rochas do lugar, que também entrega esse tempo de evolução ao vinho. Por fim, fleuroir une flor e terroir e se trata de colher leveduras através das flores mas não no vinhedo e sim no restante da propriedade. — É para trazer sabores diferentes dos das leveduras que estão sobre os cachos. Assim, temos mais camadas de sabores. Estamos conseguindo nossa complexidade do vinho somente através dos recursos do lugar. Em cada uma dessas técnicas, somos os únicos. A Wine Spectator já escreveu sobre esse ineditismo, que estava ao alcance, como as flores, mas ninguém pensou nisso. E se usarem também, ficarei feliz porque significa que o que criamos transcendeu. Tudo o que fizemos na enologia deste lugar é trazer a qualidade do vinho através da natureza. Por isso dizemos que nosso vinho é feito com, desde e para a natureza. Initial plugin text