COP 30: indígenas da América Latina e da Oceania vão a Brasília contra exploração do petróleo
Grupo também vai marchar até as sedes dos Três Poderes para pedir à presidência da COP30 repúdio contundente à exploração de petróleo, entre outros pontos Enquanto amanhece na terra do panamenho Olo Villalaz, George Nacewa janta na ilha de Fiji. Separados por mais de 11.000 km no oceano Pacífico, indígenas latino-americanos e da Oceania selaram nesta semana, em Brasília, uma aliança inesperada frente à COP 30. Delegações de Austrália, Fiji, Papua-Nova Guiné, Samoa e Samoa Americana vieram à capital federal participar do Acampamento Terra Livre, o maior encontro anual de povos originários do Brasil, que habitualmente atrai representantes de toda a América.
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Este ano, o encontro ganhou relevância especial devido à COP 30, a conferência climática da ONU, que será celebrada em novembro em Belém do Pará. Preocupados com o aquecimento global, que os afeta especialmente, indígenas de outras partes do mundo se somaram ao acampamento com o objetivo de unir forças.
"Saí de casa na sexta-feira e cheguei aqui no domingo. Foi uma viagem longa, muito cansativa", diz à AFP Nacewa, líder do povo iTaukei de Fiji.
Ele pegou três conexões aéreas para participar do acampamento e se unir aos outros 8.000 indígenas vindos do extremo sul do Brasil ao Canadá, segundo os organizadores. Nesta quinta-feira, eles vão marchar juntos até as sedes dos Três Poderes para pedir à presidência brasileira da COP 30 um repúdio contundente à exploração do petróleo, entre outros pontos de sua agenda comum.
Irmãos distantes
Na concentração, até a sexta-feira, os indígenas debatem, fazem comércio, assistem a shows e tiram fotos instantâneas.
"É uma coisa tão linda de presenciar", emociona-se Nacewa, falando em inglês.
Apesar da distância, Villalaz, líder do povo Kuna, no Caribe panamenho, se identifica com a luta dos fijianos.
"Os irmãos do Pacífico têm um grande problema com a elevação do nível do mar, e eu e meu povo também", diz em espanhol Villalaz, que veio da comarca de Guna Yala, no nordeste do Panamá.
Em meados de 2024, cerca de 1.200 indígenas tiveram que ser evacuados da ilha Cartí Sugdupu, em Guna Yala, sob o risco de desaparecer pelo aumento do nível do mar devido ao aquecimento global.
"Estamos nas ilhas, e a luta deles é a mesma que a nossa", acrescenta o líder Kuna.
Em Fiji, por causa da elevação do mar, "tem água salgada entrando nas terras onde semeamos nossa comida", reclama Alisi Rabukawaqa.
"Politicamente alinhados"
"Para nós, é importante vir e compartilhar (...) Também enfrentamos essas lutas. Estamos em solidariedade", explica Rabukawaqa, que enfrentou o 'jetlag' para compartilhar um ritual de boas-vindas com os representantes dos outros países na segunda-feira.
Os indígenas pedem para ter o mesmo peso dos chefes de Estado nas negociações da COP30, entre 10 e 21 de novembro. As terras indígenas são consideradas pelos especialistas um baluarte fundamental na luta contra o aquecimento global por sua proteção das florestas e dos recursos naturais.
Para Nacewa, o encontro em Brasília tem similaridades com o Festival de Artes do Pacífico, mas com uma grande diferença: "Aqui estão mais politicamente alinhados e combativos. Na nossa terra, nos reunimos mais para mostrar nossas culturas e valores".
COP31 na Oceania?
O advogado Dinaman Tuxá, coordenador da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a maior organização de povos originários do país, explica a importância de trabalhar em conjunto com os povos da Oceania, que em 2026 poderão receber a COP31, visto que a Austrália e um grupo de ilhas do Pacífico submeteram sua candidatura.
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Queremos "uma continuidade na construção de questões ambientais" entre a COP30 e a COP31. Um dos principais pontos de convergência é sua oposição à exploração de combustíveis fósseis, a principal causa do aquecimento global, e cujo princípio para um abandono progressivo foi aprovado na COP28.
"Somos contra o 'fracking' [fraturamento hidráulico], a perfuração, o petróleo e a mineração porque acreditamos que adoece nosso país, o que nos adoece porque somos a Terra", diz à AFP Rosie Goslett-King Budawang, do povo Yuin australiano.
A presidência brasileira da COP30 evitou se posicionar sobre este assunto, espinhoso nas conferências passadas.