Empreendedora transforma jardim de vitórias-régias em destino turístico no Pará
É no encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas, próximo ao município de Santarém (PA), que se esconde o Canal do Jari, um lago que abriga um dos jardins mais singulares da região. Ali, dona Dulce Oliveira, 53 anos, cultiva suas vitórias-régias e transformou o cuidado com as plantas aquáticas em um negócio que une gastronomia, turismo e propósito socioambiental. Cozinheira aposentada da Marinha Brasileira, Dona Dulce, como é conhecida, iniciou o cultivo das vitórias-régias em 2014. Quatro anos depois, o Jardim da Dona Dulce, entrou oficialmente na rota turística local, recebendo visitantes interessados em conhecer o jardim e provar suas receitas inspiradas na planta símbolo da Amazônia. Hoje, Oliveira empreende de duas formas: cobra uma taxa de sustentabilidade de R$ 30 para que turistas visitem o jardim e degustem um menu feito à base da vitória-régia — que inclui pipoca, brownie, picles, geleia e bombom — e também com a venda de geleias artesanais, comercializadas pela loja Deveras Amazônia, em Santarém, pela Flor de Jambu, em São Paulo, e via e-commerce no Mercado Livre. A ideia de transformar a planta em ingrediente nasceu das experiências culinárias que Oliveira começou a explorar após deixar a Marinha. Ao se aposentar, buscava um ritmo de vida mais tranquilo. Mudou-se para o interior do Pará e passou a experimentar novas receitas com ingredientes do próprio canal. “Foi então que percebi o potencial da vitória-régia”, conta. Hoje, ela reúne 21 receitas criadas a partir da planta. Dulce Oliveira é ex-cozinheira da Marinha do Brasil Divulgação/Deveras Amazônia Quando o negócio começou a ganhar forma, em 2018, a empreendedora buscou apoio da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) para estudar o valor nutricional da vitória-régia. A pesquisa ainda está em andamento, mas já aponta que a planta é rica em proteínas, fibras, carboidratos e antioxidantes. A atividade turística, porém, é sazonal: quando o nível do rio sobe ou baixa demais, o acesso ao jardim é interrompido. “Desde o fim de setembro, tivemos que parar por causa do nível das águas”, explica. A renda obtida com as visitas e as geleias ajuda a cobrir os custos do MEI, mas Oliveira explica que é a aposentadoria que a sustenta durante os meses em que o jardim fica fechado. Dulce Oliveira, a Dona Dulce, empreende com a vitória-régia, planta aquática que é um dos símbolos da Amazônia Divulgação/Deveras Amazônia A produção de geleias também se mantém artesanal: entre 50 e 60 unidades por mês, vendidas a preços que variam entre R$ 25 e R$ 32. A parceria com a Deveras garante uma comissão sobre as vendas, cerca de 40% do faturamento total. Em períodos regulares de visitação, Oliveira chega a faturar cerca de R$ 6 mil por mês. As geleias, feitas de vitória-régia, são vendidas pelo Deveras Amazônia, Flor de Jambu e via e-commerce Divulgação/Deveras Amazônia Os desafios, no entanto, vão além da sazonalidade. Em 2024, a região enfrentou a maior seca dos últimos 50 anos, o que impactou 100% da produção do jardim. “Perdi quase tudo. Agora estou recomeçando. Faço a germinação e depois levo as mudas para o lago, que fica em frente de casa. Faço cercas para proteger das tartarugas, pássaros e peixes que comem as vitórias-régias”, conta. Mesmo diante das dificuldades, a empreendedora segue cultivando seu jardim, um pedaço vivo da Amazônia onde tradição, criatividade e resistência florescem lado a lado. “Eu sempre falo que ajudo a natureza a se reconstruir — agora, mais do que nunca. As pessoas que vieram aqui antes de 2024 e voltam agora conseguem ver a diferença. O trabalho de reconstrução é, literalmente, ajudar a natureza a se recompor. O planeta está pedindo socorro há um tempo, e eu não sei o que vai ser de nós. Espero sinceramente que as discussões sobre meio ambiente, sustentabilidade e inovação ganhem força, saiam do papel e que a gente consiga, de fato, fazer algo pelo nosso planeta.”