Rodrigo Balassiano, da ID CTVM, analisa avanço dos FIDCs rumo ao primeiro trilhão e nova classificação da ANBIMA para o setor
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios caminham para um marco histórico. O patrimônio líquido da indústria de FIDCs no Brasil já se aproxima de R$ 1 trilhão, resultado de uma trajetória de expansão que se acelerou nos últimos dois anos. Só em 2025, o setor captou R$ 57,6 bilhões em recursos líquidos, terceira maior captação entre todas as classes de fundos do país, atrás apenas da renda fixa tradicional e dos fundos de participações. Mais expressivo ainda foi o crescimento da base de investidores pessoa física, que passou de pouco mais de 170 mil contas em janeiro de 2025 para além de 300 mil em agosto de 2026, quase triplicando em pouco mais de um ano e meio. Esse salto de escala expôs os limites de um sistema de classificação criado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais em 2010, quando a indústria de FIDCs era consideravelmente menor e mais homogênea. O modelo atual organiza os fundos em quatro categorias definidas principalmente pelo setor de originação dos recebíveis, mas a diversidade de estruturas de risco de crédito e níveis de subordinação cresceu tanto que a categoria genérica reservada a fundos que não se encaixam nas classificações tradicionais já reúne mais patrimônio do que todas as demais categorias somadas. Diante desse cenário, a associação prepara uma proposta de reclassificação a ser encaminhada à Comissão de Valores Mobiliários, com o objetivo de ampliar a transparência sobre o perfil de risco de cada fundo. Sistema de classificação de 2010 não acompanha a diversidade atual do setor Quando o modelo de classificação foi desenhado, os FIDCs brasileiros concentravam-se majoritariamente em operações de antecipação de recebíveis comerciais e industriais, com estruturas relativamente parecidas entre si. Ao longo da última década, no entanto, o setor passou a financiar segmentos tão distintos quanto agronegócio, saúde, infraestrutura, tecnologia e franquias, cada um com particularidades próprias de originação, garantia e comportamento de inadimplência, além de arranjos cada vez mais sofisticados de subordinação entre cotas seniores e subordinadas. Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a revisão do sistema de classificação reflete o amadurecimento natural de uma indústria que multiplicou de tamanho: Um sistema pensado para um mercado dez vezes menor não consegue mais descrever com precisão a variedade de estruturas que compõem a indústria de FIDCs hoje. Uma classificação mais granular beneficia diretamente o investidor, que passa a ter uma referência mais clara sobre o perfil de risco de cada fundo antes de tomar sua decisão de alocação Entrada do investidor pessoa física eleva a régua de transparência A democratização do acesso a cotas seniores de FIDCs, viabilizada pela consolidação da Resolução CVM 175, é um dos fatores centrais por trás da pressão por maior clareza classificatória. Um investidor institucional dispõe, em geral, de equipe própria de análise de crédito capaz de avaliar as particularidades de cada estrutura antes de investir. Já o investidor pessoa física, que hoje responde por uma parcela crescente da base de cotistas da indústria, depende em maior medida de informações padronizadas e de fácil comparação para tomar uma decisão consciente. A ID CTVM, que reúne mais de 9 mil contas operacionais ativas sob sua administração, tem acompanhado esse movimento de diversificação da base de investidores ao aprimorar continuamente seus processos de prestação de informações a cotistas, de forma a garantir que a comunicação sobre o perfil de risco de cada estrutura seja acessível tanto a investidores institucionais quanto ao público de varejo que ingressa nesse mercado. Diversificação de estruturas exige monitoramento cada vez mais granular A multiplicação de arranjos de subordinação entre diferentes classes de cotas dentro de um mesmo FIDC também eleva a complexidade do trabalho de administradores fiduciários e custodiantes, responsáveis por acompanhar separadamente o desempenho de cada tranche e por assegurar que eventuais perdas na carteira sejam absorvidas na ordem contratualmente prevista entre cotistas seniores e subordinados. Esse acompanhamento granular depende de sistemas de controladoria capazes de segregar, com precisão diária, a posição patrimonial de cada classe de cotas. Habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários e pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais para atuar em administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria, a ID CTVM aplica a essas estruturas mais complexas os mesmos processos de auditoria de lastro e conciliação em tempo real utilizados em fundos de estrutura mais simples, ajustados à granularidade exigida por cada arranjo de subordinação. Perspectivas para a indústria de crédito estruturado Ao se aproximar da marca de R$ 1 trilhão em patrimônio, a indústria de FIDCs brasileira entra em uma fase na qual a qualidade da informação prestada a investidores tende a pesar tanto quanto o volume de novas emissões. A eventual aprovação de uma classificação mais detalhada pela Comissão de Valores Mobiliários deve elevar o padrão mínimo de transparência exigido de administradores fiduciários e gestoras, reforçando a tendência de que a próxima fase de crescimento do setor será sustentada, sobretudo, pela solidez da governança que acompanha cada nova estrutura que chega ao mercado. Sobre a ID CTVM A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.