Figurinhas repetidas: como os festivais de música driblam os desafios na hora de montar um line-up
A boa notícia é que grandes shows e festivais estão por toda parte, o tempo todo. É só piscar e lá vêm Rock in Rio, Universo Spanta, Rock The Mountain, Best of Rock & Blues, CasaBloco, Queremos... além das grandes turnês de artistas brasileiros e internacionais — nestes tempos de conhecimento compartimentado, alguns chegam, se apresentam para alguns milhares de pessoas, seguem seus caminhos e o “restante do mundo” nem toma conhecimento.
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A má notícia é que o gargalo está mais estreito: como programar um festival se todo mundo já veio, se tantos artistas preferem viajar com as próprias turnês a participar de eventos coletivos, se os preços de cachês pós-pandemia dispararam — levando os ingressos consigo?
É nessa corda bamba que se equilibram os festivais, de perfis e DNAs diferentes, nacionais, internacionais, mainstream ou alternativos. Como fazer para se manter relevante e continuar vendendo ingressos e fazendo a alegria do público?
— Montar um line-up hoje é quase como equilibrar o que desejamos com a realidade do mercado, um verdadeiro quebra-cabeça — diz Luís Justo, CEO da Rock World, responsável por Rock in Rio e The Town. — Sempre fazemos exercícios de escuta ativa, com pesquisas com o público e observando as redes sociais, para entender o que as pessoas querem ver naquele momento. Mas, claro, também buscamos aquele espaço para a surpresa, a aposta, o artista que a gente acredita que vai brilhar no palco.
Garantia de venda
No caso de festivais gigantes, como os da Rock World e o Lollapalooza, que acontece em março, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, outro desafio é equilibrar esse frescor com atrações de peso, que garantam a venda de centenas de milhares de ingressos.
— O Lolla tem que apresentar os artistas mais relevantes da música global contemporânea — diz Marcelo Beraldo, diretor artístico do evento que trará Sabrina Carpenter, Lewis Capaldi e Deftones, entre muitos outros, ao Brasil. — Se for a primeira vez deles na América do Sul, tanto melhor.
Sabrina Carpenter levou o prêmio de melhor álbum do ano com seu 'Short n' Sweet'
Angela Weiss / AFP
Ele fala no continente devido a uma particularidade do Lolla: sua programação é pensada para as edições brasileira, argentina e chilena, além do festival Estereo Picnic, na Colômbia. O line-up internacional é programado em conjunto, e cada praça soma suas atrações nacionais.
Para a tradicional queixa a respeito do Lolla, a de reunir uma penca de bandas desconhecidas e uma meia dúzia de grandes nomes, Beraldo tem uma resposta afiada e serena.
— Talvez a maior virtude de um grande festival seja utilizar a força dos grandes nomes para expor novos artistas, independentes, que ainda estão em fase ascendente de carreira. Um bom festival é uma grande vitrine, e, a partir deles, muitas bandas passam a ter novos contratantes.
O muxoxo que muita gente faz a respeito do Rock in Rio é o da repetição de atrações. E Zé Ricardo, curador do festival, há anos dá a mesma explicação.
— São poucos os artistas capazes de puxar uma programação destinada a vender cem mil ingressos por noite — diz o criador do Palco Sunset. — É um grupo pequeno, e ainda tem alguns em suas próprias turnês, como o AC/DC vai fazer em São Paulo em fevereiro de 2026, outros se aposentando, outros simplesmente não querem... Então é normal que venha um Elton John, que tiramos da aposentadoria para vir, ou um Maroon 5, que já veio em outras edições. Nossa ideia é criar uma noite atraente a partir de nomes como eles.
Elton John em show no Rock in Rio, em 2015
Guito Moreto/Agência O Globo
Da mesma forma, artistas que vêm ao Rock in Rio e aparecem no The Town no ano seguinte são comuns.
— Quando se abriram as vendas para o Rock in Rio de 2024, os ingressos para o dia da Katy Perry se esgotaram em minutos — conta ele. — Quando acabaram, a fila virtual ainda tinha 300 mil pessoas. Trazê-la para o The Town neste ano foi uma forma de satisfazer o desejo de quem não conseguiu vê-la um ano antes.
Isso não quer dizer que ele não valorize o ineditismo, que diz ser fundamental, desde que não se deixe de lado o apelo comercial dos artistas. Festivais de DNA mais alternativo, como o Queremos!, se alimentam das novidades.
— O ineditismo sempre foi central para nós — diz Pedro Seiler, responsável, ao lado de Felipe Continentino, pela programação do festival, que em abril realizará sua sétima edição. — Faz parte do DNA do Queremos! desde o surgimento da produtora (em 2010), quando começamos ocupando a cidade com shows que apontavam para o que havia de mais atual na cena musical. Para nós, trazer o inédito não é um objetivo isolado, é uma maneira de manter viva a identidade do festival e de garantir que cada edição dialogue com o presente e com o futuro da música.
Encontros
Uma forma de dar frescor a um evento musical é aquela popularizada pelo Palco Sunset desde 2011: os encontros entre artistas com shows especiais, assim como os shows que lembram discos clássicos na íntegra.
— Fico muito feliz de ver encontros em outros festivais — comemora Zé Ricardo, que no Rock in Rio levou a prática ao Sunset, hoje um espaço do mesmo tamanho do Palco Mundo, mas ainda com um perfil menos mainstream. — Também fiz shows com Toni Garrido e Sandra de Sá tocando discos clássicos como “A tábua de esmeralda”, de Jorge Ben Jor, e vários do Tim Maia.
O cantor Gilberto Gil em show do festival Rock The Mountain, em novembro de 2022
Divulgação/Reginaldo Teixeira
A repetição de atrações em festivais majoritariamente (ou exclusivamente) nacionais também os leva aos encontros e tributos, como no Rock The Mountain e no Doce Maravilha.
— Não trazemos nenhum show tradicional — garante Luiz Guilherme Niemeyer, da Bonus Track, produtora responsável pelo Doce Maravilha. — Toda atração precisa ter um conceito, como celebrações, discos históricos, encontros inéditos ou homenagens.
Ingressos de R$ 1.600
Realizado em Itaipava, o Rock The Mountain, geralmente centrado na música brasileira, já pensa em atrações internacionais.
— Acho que o valor dos cachês dos artistas nacionais teve um aumento de mais de 500% — diz Ricardo Bräutigam, sócio-criador do evento. — Isso nos permite voltar a pensar em trazer artistas de fora. Hoje os line-ups dos festivais estão muito parecidos, então ter os artistas internacionais é uma forma de diversificar.
São muitos os desafios. Espaços como o Allianz Parque, em São Paulo, e outras arenas pelo Brasil também entraram no jogo, permitindo a artistas brasileiros e estrangeiros pensar em shows próprios, o que muitas vezes os leva a optar por não se apresentar em festivais.
— Muitos artistas estão realizando grandes turnês, o que acaba ocupando datas importantes, dificultando a contratação — diz Max Vianna, responsável pela curadoria do Universo Spanta ao lado de Guacira Abreu (e cujo pai, Djavan, é um desses artistas com uma grande turnê marcada para 2026, “Djavanear 50 anos”). — O melhor dos mundos é quando conseguimos integrar o festival ao circuito da turnê do artista, trazendo um show fresco e novo para o Rio.
Bruno Mars: mundo ideal
Zé Ricardo diz que entende a intenção do artista ao tocar em seu próprio palco e estrutura, mas ressalta o caráter coletivo dos festivais.
— Acho que o ideal seria o artista revezar entre as arenas e os festivais — propõe ele, lembrando que Bruno Mars foi atração do The Town em duas noites em 2023 e, no ano seguinte, trouxe sua própria turnê ao Brasil. — Assim, ele, em uma vinda, atende sua base de fãs, com um show completo, e, na outra, aumenta essa base ao se apresentar num evento onde nem todo mundo está por causa dele.
Bruno Mars, em show em São Paulo
Daniel Ramos/Divulgação
Por fim, como pagar cachês altos e não fazer da experiência da música ao vivo um clube para milionários (por exemplo, os shows do AC/DC no Morumbis, em São Paulo, em fevereiro e março, têm os ingressos mais caros na casa de R$ 1.600)?
— O mercado internacional vive uma inflação de cachês e aumento de custos de operação — constata Pedro Bianco, presidente da Dançar Marketing, que produz o festival Best of Rock and Blues. — Por outro lado, existe um limite claro de quanto o público está disposto a pagar. A nossa equação é sempre buscar equilíbrio entre sustentabilidade financeira e acesso.
Uma saída pode estar nos patrocínios e parcerias.
— É uma maneira de não repassar os custos altíssimos da produção aos ingressos, principalmente num festival como o Spanta, realizado na alta temporada do verão carioca — defende Guacira Abreu.