Nunes Marques quer julgar anulação da pena de Bolsonaro depois do segundo turno
O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), pretende liberar para julgamento depois do segundo turno das eleições o processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro pede a suspensão da condenação a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. A análise cabe ao plenário da Corte. A informação foi revelada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo Valor. O ministro tem afirmado que, ao menos por ora, não pretende dar uma decisão liminar, que é proferida monocraticamente. Ou seja, ele poderia levar o caso diretamente ao plenário para análise colegiada. Indicado por Bolsonaro, Nunes Marques já se manifestou diversas vezes nos bastidores afirmando não ver indícios de que houve uma tentativa de golpe no Brasil orquestrada pelo ex-presidente e por seu grupo político. O voto seria para marcar essa posição. Nunes Marques quer aguardar o segundo turno pois, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral, uma decisão agora poderia impactar a eleição para a Presidência da República. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente, teve mais votos que Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro sustenta em conversas com auxiliares que o STF tem que julgar tudo o que chega à Corte e que o pedido de Bolsonaro é um dos que precisa ter andamento. Ministros consultados disseram ao Valor que acreditam que Nunes Marques irá liberar o caso depois do segundo turno. Eles também não descartam uma decisão liminar beneficiando o ex-presidente. Em um discurso dado no Supremo nesta segunda-feira (5), o presidente da Corte, Edson Fachin, tratou da tentativa de golpe ao falar dos 38 anos da Constituição Federal de 1988. A declaração já é vista internamente como sinal de que ele estaria prevendo movimentações por parte de Nunes Marques ou ciente do caso. Segundo Fachin, o STF “desempenhou papel essencial na preservação do Estado Democrático de Direito diante da tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023, exercendo, com independência e observância do devido processo legal, sua missão constitucional de guarda da Constituição e de proteção das instituições democráticas”. A fala é um sinal da resistência interna que uma decisão favorável a Bolsonaro enfrentaria na Corte. Isso porque só dois ministros tenderiam a apoiar Nunes Marques: Luiz Fux, que integrava a Primeira Turma do Supremo e foi contra a condenação de Bolsonaro, e André Mendonça, indicado pelo ex-presidente. Contrários seriam Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Bolsonaro, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Edson Fachin. Dias Toffoli é dúvida. Ele não costumava se alinhar a Mendonça e Nunes Marques, mas se aproximou da dupla nos últimos meses. Entenda Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do Supremo no ano passado a 27 anos e três meses de prisão. A decisão foi histórica, pois pela primeira vez um ex-presidente e militares de alta patente foram punidos por tramar um golpe de Estado. Segundo a decisão, o ex-presidente exerceu “a liderança da organização criminosa armada” que levou aos atos do 8 de janeiro, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas. Também pressionou comandantes das Forças Armadas para que aderissem ao golpe. Na solicitação de revisão criminal, que é relatada por Nunes Marques, os advogados questionam o fato de Bolsonaro ter sido condenado pela Primeira Turma, e não pelo plenário do STF. Logo, para eles, a decisão da condenação apresenta "vícios". Revisões criminais questionam decisões judiciais definitivas, que já transitaram em julgado (quando não cabem mais recursos). Elas só são admitidas quando há erros, como a contradição entre a condenação e a lei penal ou as provas, quando a punição for baseada em depoimentos, exames ou documentos falsos e quando surgirem novas provas de inocência. Por ser um procedimento com cabimento bastante restritivo, o Supremo raramente concede pedidos feitos por meio de revisões criminais. Ou seja, uma decisão favorável ao ex-presidente seria incomum. Em junho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou contra a solicitação. Segundo ele, os pedidos da defesa não trouxeram “nenhum ineditismo” que legitime a “desconstrução do pronunciamento jurisdicional definitivo” pela Primeira Turma do STF.