Filme rodado na Zona Norte estreia em Xangai e chega ao Festival do Rio: 'Não me interessava tratar região como paisagem de fundo'
É num coreto de Quintino que Luiza conversa com a melhor amiga sobre crescer. A cena faz parte de “O deserto de Luiza”, filme de Alan Minas que acompanha uma adolescente de 15 anos em meio aos conflitos da família, às descobertas da idade e à busca por uma forma de se expressar. A história se passa em Honório Gurgel, bairro onde Luiza vive, e foi filmada principalmente em Quintino, além de locações em Honório Gurgel, Madureira e Rocha Miranda. Enquanto as duas dividem dúvidas sobre a passagem para a vida adulta, o movimento do bairro segue ao redor, entre ruas, casas, sons e gente passando. Depois de estrear mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Xangai, o longa chega ao Rio para sua primeira exibição latino-americana, na Competição Novos Rumos do Festival do Rio, com sessões amanhã, segunda e terça-feira.
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Luiza tem 15 anos e encontra no desenho e no grafite uma maneira de dizer o que nem sempre consegue colocar em palavras. Interpretada por Nina Prado, a adolescente experimenta a amizade, o amor e a descoberta do próprio talento enquanto a família atravessa uma crise. A mãe, Soraia (Daniela Fontan), sofre um surto psicótico; o pai, Arnaldo (André Luiz Miranda), se torna ausente; e a irmã mais nova vai morar com uma tia. Na prática, Luiza passa a cuidar da mãe enquanto tenta viver a própria adolescência.
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É nesse contraste entre a casa em crise e o mundo que continua acontecendo do lado de fora que a Zona Norte ganha importância. A estação, a escola, os muros, as ruas e os espaços de convivência não aparecem apenas como cenários. Eles acompanham o percurso da personagem e ajudam a construir uma história sobre crescimento, família e identidade.
A personagem Luiza e sua melhor amiga durante as gravações no coreto em Quintino
Divulgação/Arquivo Caraminhola Filmes
— Não me interessava tratar a Zona Norte como uma paisagem de fundo. As pessoas, os trajetos e os espaços precisavam fazer parte da vida que vemos em torno de Luiza — explica Minas.
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A escolha dos lugares tem relação com a própria adolescência de Minas e com sua memória da Zona Norte, mas também com o desejo de mostrar o subúrbio sem reduzi-lo a uma caricatura.
— Não queria retratar um estereótipo, uma caricatura do subúrbio. Narrei uma Zona Norte que conheci, com suas contradições e imperfeições, claro, mas também cheia de arte, de poesia e de vida — diz Minas.
Em Quintino, a equipe encontrou ruas largas, casas de muros baixos, árvores e uma vida de rua que ajudaram a construir o cotidiano de Luiza. A estação de Quintino, a Praça Quintino Bocayuva, onde fica o coreto, e diferentes ruas do bairro aparecem nas filmagens. Em Madureira, algumas cenas foram feitas no Parque de Madureira e na Rua Conselheiro Galvão.
A produção também procurou estabelecer uma relação com os moradores e o comércio local. Serviços, alimentação, figurino e outros fornecedores foram contratados na região, e uma escola particular virou locação. A grafiteira da Zona Norte Larissa, conhecida artisticamente como Issa Luz, foi contratada para realizar os trabalhos que aparecem nos muros e também participou da figuração.
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Um dos grafites foi criado a partir de um desenho feito em papel pelo diretor e adaptado pela equipe de arte para o muro de uma escola na Rua Franco Vaz, em Quintino. A pintura permanece no local.
A partir da esquerda: Alan Minas, Nina Prado e André Luiz Miranda no Parque Madureira
Divulgação/Caraminhola Filmes
— Gosto de pensar que agora ela faz parte do cenário da vida que acontece ali. Que, mesmo feita para um filme, a pintura existe por si mesma, alcançou as pessoas de maneira autônoma — reflete Minas.
A produtora Daniela Vitorino ressalta que a equipe passou a fazer parte daquele cotidiano durante algumas semanas.
— Não foi só chegar, filmar e ir embora. Todo mundo acolheu muito bem o filme — afirma a Daniela.
A relação com os espaços também aparece na trajetória do desenho. No começo, Luiza desenha timidamente em um caderno, dentro de casa. Depois, uma amiga mostra seu trabalho, ela vence um concurso na escola e a arte ganha outra dimensão: chega ao muro. A mudança acompanha a própria personagem, que começa a deixar o espaço doméstico e a experimentar o olhar dos outros.
— A escala do desenho conta a história de Luiza. Há aí um movimento muito próprio da adolescência: sair de casa, ocupar um espaço fora da família, experimentar o olhar dos outros — explica Minas.
Nina Prado em cena de “O deserto de Luiza”: atriz também cresceu na Zona Norte
Divulgação/Caraminhola Filmes
Uma das cenas mais simbólicas dessa relação com o bairro é justamente a conversa no coreto de Quintino. Luiza está cercada pelos problemas da família, mas ainda encontra espaço para falar com a amiga sobre crescer. A intimidade da conversa contrasta com o movimento do lugar público.
— Elas falam sobre crescer, e aquela conversa tão íntima acontece num espaço que pertence à vida do bairro. Gosto dessa mistura. Luiza está às voltas com a família e com seus medos, mas existe um mundo acontecendo ao redor dela — diz Daniela.
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Para Minas, o coreto cria quase um espaço de suspensão dentro da narrativa, um lugar que abriga a conversa íntima de Luiza com sua melhor amiga sobre a passagem para a vida adulta.
— O espaço ganha um aspecto de santuário em meio ao bairro, e as paredes cobertas de colagens e lambe-lambes também inspiraram a presença dos cartazes que fazem parte do filme — explica o diretor.
Nina Prado tinha 13 anos quando fez os testes para interpretar Luiza. Dois dias antes do início das filmagens, completou 14. Era sua estreia no cinema. Segundo Minas, uma conversa fora do texto das cenas revelou a desenvoltura e a maturidade que ajudaram a convencê-lo de que ela poderia sustentar a personagem. Para Nina, conhecer Quintino também foi parte da construção de Luiza.
— Eu conhecia muito pouco Quintino. Descobrir aqueles lugares pelo filme foi uma das coisas mais bonitas da experiência. A gente chega pensando que vai conhecer uma locação, uma rua, uma praça, e de repente aquele lugar passa a fazer parte da história da personagem — conta Nina.
A atriz diz que a região ganhou uma presença própria no longa e ajudou a compreender a personagem.
— Sinto que a Zona Norte também virou uma espécie de personagem do filme, com uma presença muito forte. Você sente os lugares, as pessoas, as ruas, os sons. Isso foi importante para eu entender Luiza — diz.
Lara Leão, que interpreta Bia, melhor amiga de Luiza, também tem ligação com a região. Nascida em Vila Valqueire e moradora de Sulacap, ela conta que se reconheceu na proposta do filme e na possibilidade de ver a Zona Norte representada sem os estereótipos que costuma encontrar nas telas.
— Nasci e fui criada na Zona Norte e sempre senti falta de me ver representada fora dos estereótipos que costumam associar à gente. Muitas vezes, é difícil se identificar com o que é retratado — diz Lara.
O elenco reúne ainda Daniela Fontan, como Soraia; André Luiz Miranda, como Arnaldo; Thelmo Fernandes, como Pedro; Veronica Debom, como Bel; e João Victor Menezes, como Tomaz.
A proposta não é fazer de Luiza uma representante de toda a Zona Norte, explica Minas. A personagem é específica, assim como o lugar onde sua história acontece. O que o filme busca é mostrar esse lugar a partir de uma experiência cotidiana, onde convivem conflitos familiares, escola, amizade, desejo e arte.
— Eu não espero que Luiza represente toda a Zona Norte. Ela é uma personagem singular, mas sua história se constrói numa parte da cidade que merece aparecer no cinema com essa complexidade, sem ser reduzida a um logradouro específico, mas também sem se entregar a estereótipos — afirma Minas.
A trajetória de “O Deserto de Luiza” começou em 2015. O projeto ganhou apoio da RioFilme em 2016, passou por etapas de financiamento e coprodução e foi interrompido durante um período de dificuldades para o audiovisual brasileiro. A retomada veio em 2021. As filmagens aconteceram em 2023 e a pós-produção foi concluída no fim de 2025.
A primeira parada do filme, porém, não foi no Rio. “O Deserto de Luiza” estreou mundialmente na competição principal do Festival Internacional de Cinema de Xangai, como o único longa brasileiro entre os 12 concorrentes. Agora, retorna à cidade onde sua história foi construída para a primeira exibição latino-americana, no Festival do Rio.
As sessões acontecem amanhã, às 18h45, no Estação Claro Gávea 1; segunda, às 16h15, no Estação Claro Rio 5, com debate; e na terça-feira, às 13h45, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 5.
Com distribuição da Vitrine Filmes, o longa tem previsão de chegar ao circuito comercial no primeiro semestre de 2027.
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