Último dia da ExpoFavela celebra cultura afro-brasileira e empreendedorismo das comunidades
A Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, encerrou neste domingo (26) a terceira edição da Expo Favela Innovation Rio 2025, evento que reuniu artistas, empreendedores, intelectuais e moradores de diversas comunidades do estado. Organizado ao longo de dois dias, o encontro marcou a agenda cultural carioca com debates, exposições de negócios e apresentações que celebraram a força criativa, cultura afro-brasileira e econômica das favelas.
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No Palco Lago, Rene Silva, fundador do jornal Voz das Comunidades, abriu as atividades dominicais na mesa "Mídias alternativas: A importância das mídias independentes". Silva destacou a transformação digital do veículo, que completa 20 anos e mantém a versão impressa para alcançar moradores sem acesso à internet ou que preferem o formato tradicional.
— A comunicação tem mudado a todo momento, não a cada ano, mas a cada hora. A gente migra para todas essas plataformas a fim de atrair cada vez mais outros públicos, sem perder a relevância — explicou Rene.
Humor, educação e arte como ferramentas de ascensão social
A conferência "Favela, Humor e Arte", no Teatro da Câmara, reuniu os humoristas Helio de la Peña e Luiz Miranda. De la Peña enfatizou a importância da educação e desmistificou a ideia de que o humor dispensa estudos.
— A educação foi a alavanca que eu usei para ter um progresso social e econômico. A educação acaba sendo a grande ferramenta para você ir galgando degraus na sociedade — afirmou o humorista.
Para De la Peña, o humor exige dedicação e conhecimento:
— Nunca sai uma boa peça de uma mesa no bar. A coisa demanda muita disciplina, esforço tremendo e, obviamente, leitura e informação. A educação está presente em qualquer atividade que você venha a se envolver.
Na tarde de domingo, Mumuzinho e Dudu Nobre abrilhantaram a conferência "Do preconceito ao sucesso". Mumuzinho ressaltou a cultura da periferia como influência de criatividade para a música brasileira.
— A favela sempre foi berço de talento. A gente transforma dor em arte, dificuldade em ritmo e sonho em realidade — disse o cantor.
Empreendedorismo das favelas aposta em beleza, sustentabilidade e inclusão
A área de expositores revelou a diversidade e a criatividade dos negócios nascidos nas comunidades. Juliana Marinho, trancista e fundadora do Espaço Afrotitude, em Madureira, na Zona Norte, vê seu trabalho como resgate ancestral e fortalecimento da autoestima negra.
— Para mim, a trança tem um significado muito grande de ancestralidade, porque foi um dom passado da minha mãe para mim. Uma cliente nossa deu um apelido muito carinhoso ao nosso espaço: quilombo. É um lugar de acolhimento, de escuta, muito além do embelezamento — contou Juliana.
Também trabalhando com a força da ancestralidade afro-brasileira, a designer de joias e ourivesaria Vivian Alves, da Vize Joias, produz peças que resgatam memórias e exaltam a identidade negra.
— A Vize Joias trabalha a autoestima através de acessórios com representatividade, acessórios com propósito. São joias para rainhas e reis, que na periferia também existem — disse Vivian.
No setor de turismo, Juliete Silva inovou ao criar o Favela Tour Rocinha para a comunidade surda. A guia, que também é surda, promove experiências 100% em Libras pela famosa favela da Zona Sul.
— Criei esse projeto porque os ouvintes têm acesso a guias em inglês, espanhol, mas a comunidade surda tinha essa limitação. Os surdos também querem conhecer a favela. Minha comunicação é toda em libras, o surdo se sente acolhido com a cultura e a história nessa troca — explicou Juli.
A sustentabilidade também marcou presença. Valéria Monteiro e Raphael Brum, do Complexo do Alemão, apresentaram a nova coleção da marca Freedom, feita com algodão sustentável, que utiliza menos agrotóxicos e reduz o consumo de eletricidade na produção.
— Isso aqui é uma porta aberta para empreendedorismo, network, conexões. Você conversa desde o pequenininho que está iniciando até alguém que está muito além de mim — avaliou Valéria.
Projetos sociais levam educação bilíngue e arte para as comunidades
A ExpoFavela também deu visibilidade a projetos sociais transformadores. Débora Alves, fundadora do Espaço Bilíngue Sankofa (EBA Sankofa), democratiza o ensino de inglês para crianças de comunidades como Morro de São Carlos, Rio Comprido, Vila Isabel e Catumbi, no Centro e Zona Norte do Rio.
Com metodologia afrodiaspórica, o projeto inclui teatro bilíngue, clube de leitura e feira bilíngue gratuita.
— Nosso projeto se mantém a partir do apoio da própria comunidade, das famílias. Não temos apoio governamental nem patrocínio. Essa falta de investimento é um grande empecilho para avançarmos mais — explicou Débora.
O projeto ZN de Coração, idealizado por um morador da Zona Norte, leva grafite, palestras e workshops para escolas públicas e comunidades periféricas. A produtora Paula Dornelles destacou o impacto imediato nas crianças.
— Você começa a aula com uma criança e termina com outra. Outro brilho, outra janela que foi aberta na cabeça dessa criança. A arte ensina coletividade, respeito, ensina a ouvir e ser ouvido — contou Paula.
O evento também contou com o Espaço Moda, Espaço Capoeira e o Ritmo Favela, que levou ao palco shows de MCs, grupos de samba e escolas de samba. Com espaços dedicados à tecnologia, audiovisual, moda e literatura, a Expo Favela Innovation Rio 2025 reafirmou que as comunidades são celeiros de ideias, negócios e expressões culturais que movimentam a economia e transformam vidas.