Quando saem os resultados das eleições de meio de mandato nos EUA?
Na noite de terça-feira, milhões de americanos estarão diante da televisão para acompanhar a apuração dos resultados das eleições de meio de mandato.
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Mas eles não devem criar muitas expectativas. Se a história servir de referência, é pouco provável que os resultados completos da votação nos 50 estados americanos sejam conhecidos até a virada de terça para quarta-feira. Especialistas afirmam que, por diferentes motivos, pode levar dias ou até semanas para que os resultados sejam definidos em estados como Maine, Alasca, Arizona e Califórnia. As disputas nesses estados podem determinar o equilíbrio de forças no Congresso — ou não. É impossível dizer se o país saberá, antes de ir dormir, qual partido controlará a Câmara dos Representantes e o Senado. As chances de que o controle da Câmara seja definido são maiores, considerando o quanto estão acirradas praticamente todas as principais disputas para o Senado neste ano, inclusive no Alasca e no Maine.
Parte dos atrasos está relacionada ao enorme número de eleitores, enquanto outros decorrem de desafios geográficos ou de regras específicas de cada estado sobre quando as cédulas enviadas pelo correio podem ser recebidas e contabilizadas. Maine e Alasca utilizam um sistema de votação por escolha ranqueada, com uma segunda rodada de apuração, o que também pode tornar o processo mais demorado.
O fato de que as eleições frequentemente levam tempo para serem concluídas não é algo exclusivo dos Estados Unidos. Mas a espera pode ser frustrante para candidatos e para o público. Nos últimos anos, a demora na divulgação dos resultados também serviu de pretexto para alguns políticos, especialmente o presidente Donald Trump, preencherem esse intervalo com falsas alegações de que o processo eleitoral é marcado por fraudes. Trump fez essa afirmação de forma notória em 2020, quando um grande número de votos enviados pelo correio, favoráveis ao seu adversário, Joseph R. Biden Jr., foi contabilizado após o dia da eleição, confirmando a derrota de Trump — resultado que ele continua se recusando a reconhecer.
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Em junho, um processo de apuração que durou vários dias após as primárias da Califórnia levou Trump a retomar esse tipo de discurso, alegando que uma “GRANDE fraude” cometida pelos democratas havia contaminado os resultados. “Por que essa DEMORA na contagem dos votos???”, escreveu o presidente em uma publicação nas redes sociais.
Na verdade, não havia nenhuma evidência de fraude nas primárias da Califórnia. Ainda assim, foram necessários seis dias para determinar o resultado da disputa pela prefeitura de Los Angeles e sete dias para anunciar o vencedor da eleição para governador.
Em 2024, foram necessárias três semanas para determinar os vencedores das disputas mais acirradas por vagas na Câmara dos Representantes na Califórnia.
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O tempo que o público precisa esperar para saber quem venceu costuma depender do grau de equilíbrio da disputa. Especialistas em eleições fazem uma distinção entre o tempo necessário para que as autoridades concluam a contagem dos votos e o tempo que os veículos de comunicação levam para “projetar” o vencedor de uma eleição. A Associated Press é uma das organizações mais importantes nesse tipo de projeção (o The New York Times utiliza a agência para a maioria de suas projeções), anunciando um provável vencedor quando suas análises indicam que o candidato em desvantagem já não tem mais chances de vencer.
Às vezes, a projeção acontece na própria noite da eleição. Em outras ocasiões, demora mais. Em 2020, a Associated Press anunciou a vitória de Biden na eleição presidencial quatro dias após a votação. Duas décadas antes, a disputa presidencial entre George W. Bush e Al Gore foi tão acirrada que a agência não chegou a projetar um vencedor. No fim, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu a disputa, dando vitória a Bush no famoso caso Bush v. Gore.
— A percepção do público sobre a rapidez com que um estado está realizando a apuração provavelmente tem mais relação com a velocidade com que a imprensa anuncia o vencedor do que com a rapidez com que as cédulas estão sendo contabilizadas — afirma Lawrence Norden, vice-presidente do programa de eleições e governo do Brennan Center for Justice, um centro de estudos especializado em legislação eleitoral. — Se uma disputa estiver realmente acirrada, não importa o quanto a contagem dos votos seja rápida. Serão necessários alguns dias.
Essa situação pode representar um desafio para autoridades eleitorais como Adrian Fontes, secretário de Estado do Arizona, filiado ao Partido Democrata.
— Somos um estado decisivo, e nossas margens são muito estreitas — afirma Fontes. — Como as diferenças são pequenas, as pessoas ficam ansiosas quando as redes de televisão e as agências de notícias não conseguem fazer suas projeções na noite da eleição.
Alasca: resultados em até 15 dias
No Alasca, os eleitores participarão neste ano de uma das disputas mais acompanhadas para o Senado dos Estados Unidos. A eleição coloca frente a frente o atual senador, Dan S. Sullivan, do Partido Republicano, e Mary Peltola, do Partido Democrata.
Se a disputa for tão acirrada quanto indicam as pesquisas, os eleitores terão de exercitar a paciência. O estado contabiliza os votos enviados pelo correio que forem recebidos em até dez dias após o dia da eleição — prazo que aumenta para 15 dias no caso de eleitores que vivem no exterior. (As cédulas precisam ter o carimbo postal com data igual ou anterior ao dia da eleição.) O prazo mais amplo leva em consideração as dificuldades de entrega de correspondências em um território tão extenso quanto o Alasca, com grandes distâncias, terreno acidentado e, muitas vezes, condições climáticas extremamente severas.
Se nenhum dos candidatos na disputa pelo Senado no Alasca receber 50% dos votos, o estado dará início à segunda rodada de seu sistema de escolha ranqueada — mas somente depois do prazo de 15 dias para o recebimento dos votos enviados por eleitores que vivem no exterior. O limite de 50% pode ser especialmente importante neste ano porque a cédula apresenta quatro candidatos, entre eles outro homem chamado Dan Sullivan. Esse segundo Sullivan foi recrutado como parte de uma estratégia democrata para atrair votos e reduzir o apoio ao atual senador republicano.
A manobra provocou uma ação judicial do Departamento de Justiça, que pediu a um tribunal federal que impedisse a certificação do resultado caso o senador em exercício perdesse por uma margem estreita. No domingo, o tribunal rejeitou a ação, mas o governo recorreu da decisão.
Maine: anúncio do vencedor pode levar dias
Outra disputa pelo Senado dos Estados Unidos que está sendo acompanhada de perto ocorre no Maine, estado que também utiliza o sistema de votação por escolha ranqueada em algumas eleições.
Ao contrário do Alasca, o Maine exige que as cédulas enviadas pelo correio sejam recebidas pelos funcionários eleitorais locais antes do fechamento das urnas no dia da eleição. Mesmo assim, uma segunda rodada pelo sistema de escolha ranqueada pode atrasar a divulgação dos resultados. Derek Tisler, outro especialista em eleições do Brennan Center, explicou que, se nenhum candidato receber 50% dos votos na primeira rodada, as autoridades do Maine realizarão uma segunda etapa de apuração pelo sistema de escolha ranqueada, o que levará vários dias.
Tisler observou que há apenas dois candidatos na disputa pela vaga no Senado no Maine: a atual senadora republicana Susan Collins e o democrata Troy Jackson. Por isso, é provável que um dos dois ultrapasse a marca de 50% dos votos já na primeira rodada.
Mas isso não é garantido, afirmou ele, já que também há vários candidatos inscritos para receber votos por escrito, uma modalidade em que o eleitor pode escrever o nome de um candidato na cédula.
Califórnia e Arizona: atrasos são recorrentes
Especialistas afirmam que, se a história servir de referência, o Arizona e a Califórnia também poderão levar algum tempo para definir seus vencedores.
A Califórnia tem um prazo de sete dias durante o qual podem ser contabilizados votos enviados pelo correio que cheguem após o dia da eleição, desde que tenham sido postados até a data da votação. O Arizona não possui um prazo semelhante. No entanto, os dois estados são conhecidos pelo grande volume de cédulas que chegam às autoridades eleitorais com atraso.
— Por algum motivo, os eleitores tendem a deixar para devolver suas cédulas no último minuto — afirma Tisler. — Por isso, é somente nos dias que antecedem a eleição, ou até mesmo no próprio dia da votação, que as autoridades eleitorais conseguem começar a realizar todas as etapas necessárias para verificar as assinaturas, confirmar as informações dos eleitores e, finalmente, contabilizar os votos.
Na Califórnia, os parlamentares concordaram neste ano em destinar US$ 40 milhões (cerca de R$ 215 milhões) para acelerar o processo, incluindo o lançamento de uma campanha de conscientização para incentivar os eleitores a devolverem suas cédulas com antecedência.
Fontes afirmou que o Arizona também está trabalhando para agilizar a apuração. No populoso condado de Maricopa, um novo sistema permite que eleitores que votam pelo correio compareçam pessoalmente aos locais de votação e entreguem suas cédulas a um funcionário eleitoral, apresentando um documento de identificação. Dessa forma, evita-se o demorado processo de verificação de assinaturas ao qual essas cédulas normalmente são submetidas.
A medida pode ajudar alguns eleitores. Mas nada disso garante que teorias conspiratórias não voltem a se espalhar.
— Agora, precisamos apenas combater essas alegações infundadas no campo do discurso público, em vez de simplesmente podermos fazer nosso trabalho e dedicar todo o nosso tempo e nossa energia a atender os eleitores — afirma Fontes.