"Sucesso é liberdade": a visão de Jandaraci Araujo sobre liderança, ESG e os desafios de construir um Brasil mais justo
Com trajetória sólida e visão afiada, a executiva e coselheira Jandaraci Araújo fala sobre liderança, ESG e a urgência de transformar discurso em prática, sempre com base em valores como ancestralidade e liberdade A professora, conselheira e escritora Jandaraci Araujo Divulgação Confira aqui a entrevista que fiz com Jandaraci Araújo, professora do Insper, cofundadora e presidente volunária do Instituto Conselheira 101, conselheira de empresas como FutureClimate e Capitalismo Consciente Brasil, e autora de livros como "Mulheres na Liderança", "Mulheres nas Finanças" e "Mentores e suas Histórias". Ao longo dos anos, a escritora acumulou prêmios como o Líderes do Brasil, do Lide Global, o Destaque do Ano, pelo IBEF -SP (Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças), e o Troféu Raça Negra, da Câmara Municipal de Salvador. Além disso, foi reconhecida como Top Voice Linkedin nas pautas de Equidade de Gênero e ESG. LILIANE ROCHA O empresariado conhece a executiva e a conselheira Jandaraci Araujo. Suas credenciais falam muito sobre você, mas não falam tudo. O que você gostaria que todos soubessem sobre você? Quem é Jandaraci? JANDARACI ARAUJO Sou aquela pessoa com quem os amigos sempre podem contar. Mãe de duas mulheres: uma advogada e uma fisioterapeuta. Sou neta de Júlia e filha de Tereza e Timóteo, em memória a todos eles. A caçula de sete irmãos, apressada pela vida. Nasci de oito meses. Não sou uma pessoa do “deixa a vida me levar”, mas gosto de leveza na vida. Costumo dizer que outro sobrenome que carrego é desapego. Mas não um desapego de desinteresse. Eu não arrasto correntes. Não carrego para a vida o que não contribui. O problema que tem solução é resolvido. O problema que não tem solução, eu jogo no poço de piche. Amazônia, cerrado e povos indígenas: o que a COP30 precisa priorizar Ingrid Guimarães e o lugar da mulher: ainda precisamos lutar pelo nosso lugar na sociedade? Crise de valores: diversidade e inclusão são apenas a ponta do iceberg organizacional LILIANE Você construiu uma carreira que une finanças, sustentabilidade e inovação. Como vê o papel das lideranças na articulação entre crescimento econômico e impacto socioambiental positivo, especialmente em tempos de crise climática e desigualdade? JANDARACI Em tempos complexos, você conhece e reconhece os verdadeiros líderes. Porque há lideranças que não entendem o seu papel em tempos de caos. É um papel fundamental. E é aí que entra a inovação: ela passa por uma liderança disruptiva, mas que tem um olhar humano. Além disso, essa liderança não tem apego à hierarquia. E aqui eu trago a experiência do Instituto: a liderança tem que ser circular. Você tem que dar poder, tem que distribuí-lo, para conseguir impactar. LILIANE O Instituto Conselheira 101 tem sido um catalisador para a inclusão de mulheres negras e indígenas na alta liderança. Quais avanços você observa desde a fundação da iniciativa — e quais barreiras estruturais ainda precisam ser derrubadas? JANDARACI O Instituto Conselheira 101 é focado em qualificação e no networking. Estamos conseguindo trabalhar na formação dessas profissionais e dar visibilidade a eles. Também estamos de olho, neste momento específico, em formas de hackear o sistema. Hoje o que eu percebo é que quem entendeu a importância da diversidade vai dar um jeito de continuar fazendo. E quem não entendeu vai aproveitar a onda do diversitywashing, para usar um termo que você criou. Nesses momentos de crise, eu resgato a minha ancestralidade. Se os meus ancestrais simplesmente esmorecessem, nós não estaríamos aqui. LILIANE Neste ano temos acompanhado uma onda de retrocessos em diversidade e ESG nos Estados Unidos, que em maior ou menor grau já são refletidos no Brasil. Qual a sua análise sobre esse momento? Percebe impactos no seu campo de atuação? JANDARACI A pergunta que eu faço é: você estava nessa agenda por convicção ou por conveniência? Estava por que era o momento certo? Ou por que viu uma grande oportunidade de negócio? Mas minha conversa real aqui é com quem sente na pele, no dia a dia, o real impacto desse retrocesso, e sabe muito bem que nunca mais poderá usar a palavra mérito. Você tem que parar agora e refletir: "Com quem vou me juntar?" Ou as pessoas que estão nessa jornada se unem, ou vamos ficar na lenda, no ilusão temporária do "dividir para conquistar", e vamos sofrer muito mais retrocessos do que imagina, inclusive no Brasil. LILIANE Você é uma das vozes mais influentes em governança e ESG no país. Na sua visão, quais são os principais desafios para que o discurso deixe de ser apenas reputacional e se transforme em estratégia de negócio? JANDARACI Passa pelas pessoas. Não serão frameworks, nem standards, nem códigos de boas práticas que vão mudar isso. Porque tudo passa pelos valores da liderança e pelos valores das organizações. Então, para que essa agenda se torne real e factível, é preciso que nós acreditemos que um mundo com mais igualdade é bom para todos. Precisamos continuar e não arrefecer! Precisamos continuar nos pautando em valores e ética. Porque um mundo mais igualitário é bom para todo mundo. LILIANE Com sua formação em bioeconomia e finanças sustentáveis, como você avalia o potencial do Brasil nesse campo? Quais políticas e práticas poderiam alavancar uma economia mais regenerativa e inclusiva? JANDARACI Precisamos começar a pensar em instrumentos concretos. Para isso, será preciso reunir políticas públicas e incentivos privados. Nós temos essa síndrome de vira-lata, de achar que tudo que é brasileiro é ruim. Eu, por exemplo, sempre que viajo para fora, faço questão de falar bem do Brasil. Quando se fala em bioeconomia e sustentabilidade, eu digo: "Você sabia que a Embrapa é uma empresa pública, que nasceu de uma política pública? Porque pesquisa e desenvolvimento são caríssimos, e aqueles pequenos agricultores não iam ter dinheiro para fazer esse tipo de pesquisa." E eu falo: "Eu sou apaixonada pelo meu país, com todos os problemas que ele tem. Temos um potencial incrível de produção, uma biodiversidade e uma flora incríveis, e nós não usamos esses saberes, esse potencial." LILIANE Como você define sucesso? JANDARACI Sucesso, para mim, se chama liberdade. Não é mansão, não é carro. É liberdade! E, já que estamos falando disso, vou deixar a pergunta no ar: hoje você se considera livre para fazer o que quiser, sem precisar estar na corrida dos ratos? Muitos jovens confundem liberdade com essa ideia de "Ah, eu não vou trabalhar em empresa nenhuma". Não é isso. Você pode trabalhar em uma organização, mas você é livre para, no dia em que não quiser mais trabalhar nela, dizer: "Isso aqui não me deixa mais feliz"? E continuar a viver sua vida da mesma forma que vive hoje? Você é livre dos padrões sociais, do que a mídia impõe? Isso é ser livre. Sou preta retinta. Então isso faz com que as pessoas vejam uma mulher como eu em um lugar de submissão, de subserviência. E eu não sou, nunca fui essa figura. Por isso eu me considero livre! LILIANE Que mensagem gostaria de deixar para mulheres e mulheres negras que estão iniciando sua carreira hoje? JANDARACI Não desistam! O "não" você já recebeu lá na maternidade. Agora é fazer o resto virar “sim”. Vai ter momentos que você vai cansar, que serão difíceis, mas passa. Tudo passa. Não desista. Eu não cheguei aqui num mar tranquilo e calmo. Já quase me afoguei, o barco quase virou, mas sempre foi "quase"—porque eu nunca desisti. As circunstâncias, o mundo, é você quem define os seus limites. Quem estabelece o teto é você. Então, não desista. É a única coisa que importa. Mais Lidas