Fé e preservação: comunidade constrói modelo sustentável em Bonito
As dezenas de casas iguais da pequena vila do Refúgio das Águias, em Bonito (MS), revelam logo à primeira vista que ali existe um modo de viver diferente. Equipadas com energia solar e sistemas de tratamento de esgoto, elas também materializam algumas das primeiras medidas de sustentabilidade adotadas no local. “A sustentabilidade, para ser verdadeira, precisa ser justa”, afirma Sidney Viana, vice-presidente da associação que reúne os moradores (ou irmãos e irmãs) do lugar. A propriedade foi campeã do Prêmio Fazenda Sustentável da Globo Rural na categoria Pequenas Propriedades Refúgio das Águias: Campeã do Fazenda Sustentável - Pequenas Priopriedades Há seis anos, a comunidade que até então existia em Ecoporanga, no interior do Espírito Santo, migrou para o Mato Grosso do Sul. Segundo Viana, a mudança foi motivada por um “chamado de Deus” recebido por Inereu Viveira Lopes, pastor da igreja Tabernáculo Amor Divino e fundador do grupo. Na época, a maior preocupação foi garantir o saneamento básico para as 40 famílias. Já no acampamento inicial, quando começaram as obras de infraestrutura, foi aberta a primeira fossa de evapotranspiração, ativa até hoje. “É um mecanismo todo vedado que protege o meio ambiente e ainda ajuda a gerar um alimento que podemos aproveitar dentro da comunidade”, descreve Viana. O sistema consiste em um tanque impermeável, impedindo que o esgoto gerado entre em contato com o solo e, consequentemente, com o Rio Mimoso, que margeia a propriedade de 55 hectares. No meio do tanque, um duto feito de pneus velhos reutilizados forma uma câmara onde matéria orgânica, composta por fezes e urina, é digerida por bactérias anaeróbicas. Ao redor, pedras grossas são cobertas por pedras finas e areia em sucessivas camadas formando um filtro que retém impurezas antes de a água chegar à superfície, onde encontra uma faixa de terra em que são plantadas bananeiras e outras espécies de folha larga que podem produzir frutos. Assim, a água é absorvida pelas plantas e devolvida à atmosfera por meio da evapotranspiração, enquanto a matéria orgânica é decomposta no sistema. ESTRUTURA COMPARTILHADA | No entorno das moradias, há parcelas de floresta e árvores frutíferas Thiago de Jesus A experiência com o saneamento é apenas uma das expressões do modo coletivo de vida adotado por ali. Ex-funcionário público, Viana, assim como todos os demais integrantes do grupo, abriu mão de seus bens e de seu antigo trabalho para viver em comunhão, ou “comum unidade”, como define o presidente da associação de moradores da Refúgio das Águias, Eliel da Silva Lima. “Bonito é a continuidade de um projeto de 14 anos que foi idealizado pelo nosso pastor. Ele quis, dentro da igreja em que congregamos, tirar a desigualdade das pessoas”, diz. O pastor Ireneu Lopes faleceu em 2020, mas até hoje, segundo Lima, seus seguidores assistem a vídeos com suas pregações projetados em telões. SISTEMA EM EQUILÍBRIO | O Rio Mimoso margeia a propriedade de 55 hectares, em Bonito (MS) Thiago de Jesus Na comunidade, cada integrante tem uma função e trabalha de modo cooperativo. Não há salário: todo o valor é reunido em um único caixa e administrado também de forma coletiva. “Tudo que se faz é em prol de todos. Cada família, cada indivíduo, tem os seus direitos e suas necessidades sendo cumpridos”, declara. Na vila, as casas já erguidas e em construção seguem o mesmo padrão. O tamanho é definido pelo modelo familiar. Casais sem filhos recebem uma casa de apenas um quarto. Casais com um filho ou dois do mesmo sexo ocupam imóveis de dois quartos. Se são dois filhos de sexos diferentes, então são oferecidos três quartos, separando meninos de meninas. As refeições também são coletivas e servidas em um refeitório central. Cada família tem o seu conjunto de mesa e cadeiras e é responsável pela sua conservação. Globo Rural O modelo de vida atípico, contam, gerou preconceitos. Ainda no Espírito Santo, a comunidade foi alvo de investigações do Ministério Público do Trabalho por suspeita de trabalho análogo à escravidão. A conclusão, contudo, foi a de que o regime da Refúgio das Águias estava próximo ao de um cooperativismo. “No começo, foi um pouco difícil de ser assimilado, porque era algo novo”, lembra o presidente da associação. A preocupação com o meio ambiente é parte desse modo de vida. “Nosso princípio cristão é sempre preservar a natureza, cuidando dos animais, não esgotando os recursos naturais”, explica Viana. Responsável pela horta que sustenta a comunidade, desde o início ele optou por realizar uma produção orgânica, livre de defensivos e fertilizantes químicos. Inicialmente com 100 metros quadrados, a horta ocupa quase 4 hectares atualmente e é mantida por 20 pessoas à base de adubação verde e controle biológico. TRATAMENTO DE ESGOTO | Sistema inclui o plantio de espécies de folhas largas, como bananeira, e impede a contaminação do solo e da água Thiago de Jesus Nas entrelinhas, plantas de serviço como margaridas, tagetes e capim-açu ajudam a proteger de pragas e ventos fortes. “À medida que fomos trazendo os moradores para cá, procuramos ampliar e melhorar, para conseguir oferecer um alimento de qualidade a todos”, conta Viana. Ao todo, são produzidas quase 30 variedades de alimentos com certificação orgânica desde 2023. O selo, diz, foi uma maneira de agregar valor à produção, cujo excedente é vendido a restaurantes e supermercados da região. No consumo das frutas, verduras e legumes, também há cuidado com o meio ambiente. A água da pré-lavagem dos alimentos é reaproveitada na irrigação, bem como a água da chuva, que é coletada para a mesma finalidade, “valorizando cada gota que é tirada do sistema”, ressalta Viana. “Procuramos reutilizar o máximo de água, destaca o agricultor. As sobras da cozinha vão para compostagem. O mesmo ocorre com os restos de poda. Tudo é reaproveitado. “O que almejamos aqui é sempre melhorar a qualidade de vida, coletivamente e de cada um. E o que pudermos fazer para ser referência para a população em geral, faremos”. Desde que assumiu a propriedade, a comunidade já recuperou 2 hectares de área de preservação permanente. Hoje, são 6 hectares de área preservada. No pasto, onde são mantidas 121 cabeças de gado para produção de carne e leite, a meta é plantar mais árvores, gerando sombreamento para o bem-estar dos animais. “Desde o Espírito Santo, tínhamos um princípio, mas não aplicado da maneira que é aplicado agora”, recorda Viana. Para ele, o principal diferencial do trabalho realizado pela Refúgio das Águias em Mato Grosso do Sul está no acesso à assistência técnica. “Conseguimos agregar vários apoios”, celebra. Comunidade Rural Cristã Refúgio das Águias - Bonito (MS) Nas mãos de quem trata o rebanho, um caderno fornecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MS) guarda o registro de peso, quantidade de ração ingerida e volume de leite produzido por cada uma das vacas em lactação. Também há controle dos bezerros. Cada um é identificado pelo nome. De acordo com o responsável pelo trato com os animais, Wender Pereira Dias, nos últimos anos, a produção de leite saltou de uma média de 6 a 7 litros por cabeça ao dia para 12 litros ao dia, com alguns animais alcançando até 20 litros diários. A receita, segundo ele, é tratar bem as vacas. “Vaca de leite é rotineira. Se você fugir da rotina, ela estressa, já não produz a mesma coisa”. Ao todo, são 24 vacas em lactação, produzindo de 260 a 280 litros de leite por dia. Parte é usada no consumo interno, onde também se transforma em queijo. O excedente é vendido a laticínios da região. Para além dos ganhos de produtividade, a Refúgio das Águias comemora a superação de um estigma ao se tornar modelo de sustentabilidade para Bonito. O preconceito, afirma Viana, sempre foi a maior barreira para a comunidade. “O mais difícil foi a aceitação do pessoal de fora. Talvez não seja bem compreendido nosso modo de vida e filosofia, nosso zelo e o nosso cuidado”. Hoje, segundo ele, o objetivo principal é fazer da comunidade uma referência em termos de organização social e preservação. “Queremos deixar um exemplo de sustentabilidade que não se reflita só dentro da comunidade, mas também atinja pessoas de fora e sirva de motivação. Essa é a missão que Deus nos deixou: proteger a natureza, cuidar dos animais e fazer o melhor sem agredir.”