PMs que executaram morador de rua em SP não têm outras mortes no histórico
Os dois policiais militares envolvidos na execução de um morador de rua em São Paulo não tinham em seus históricos casos de mortes decorrentes de intervenção policial. O caso ocorreu no dia 13 de junho no Viaduto 25 de Março, no Brás, na região Central da capital.
Relativamente novatos na corporação, ambos nunca se envolveram em situações de agressão ou infração do regulamento interno da PM. Aos 25 anos, o tenente Alan Wallace dos Santos Moreira, do 7º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, ingressou na corporação em fevereiro de 2020. Já o soldado Danilo Gehrinh, de 24 anos e do mesmo batalhão, está na PM desde janeiro de 2023.
Jeferson de Souza, de 24 anos, foi morto com três tiros de fuzil durante uma abordagem em São Paulo. Imagens de câmeras corporais mostram que os PMs mentiram ao justificar a execução.
Os PMs afirmaram que Souza teria tentado pegar a pistola de um deles, o que teria motivado os disparos. Ao contrário do que foi relatado pelos policiais, a vítima — natural de Alagoas e que vivia em situação de rua no Centro de São Paulo — não reagiu.
As imagens mostram que ele estava desarmado. Foi executado sem apresentar qualquer ameaça.
O GLOBO apurou que o caso é tratado como um ponto fora da curva pelo alto comando da PM. Pela crueldade dos fatos, acredita-se que os policiais apresentem algum tipo de um distúrbio mental, ainda em sob análise.
A avaliação interna é que, mesmo contando com um sistema de saúde mental considerado robusto, a PM não consegue prever e evitar esse tipo de comportamento.
Um coronel da cúpula da PM equipara o assassinato do morador de rua ao caso do homem arremessado de uma ponte por policiais militares em Diadema em dezembro passado. Para ele, há um “sadismo” em ambas as ocorrências, “não compatível com o trabalho policial nem em regime de exceção”.
O vídeo da execução do morador de rua foi analisado pessoalmente pelo comandante-geral da PM, o coronel José Augusto Coutinho. Foi ele quem determinou à Corregedoria da PM que representasse pela prisão preventiva dos policiais.
O caso acendeu mais um alerta na corporação. Depois de tornado público, o comando deixou claro para os subordinados que não vai tolerar o uso desnecessário da força, em especial a letal.
Desde o mês passado, os PMs estão presos no Presídio Militar Romão Gomes e vão responder pelos crimes de homicídio doloso (quando há intenção de matar), falsidade ideológica e obstrução da Justiça.
O caso
A abordagem policial que resultou na morte de Souza durou quase uma hora. Ele foi abordado pelos PMs por volta das 20h27 do dia 13 de junho, embaixo do viaduto. Imagens da câmera corporal dos agentes mostram que o morador de rua foi rendido e colocado sob a mira de um fuzil.
Após uma hora de conversa, às 21h25, o agente cobre a câmera enquanto o outro realiza a execução sumária da vítima. Toda a abordagem foi registrada sem áudio, pois a função só começa a funcionar após o agente pressionar o botão de gravação da câmera corporal — o que, neste caso, foi feito somente após os disparos. Antes disso, todas as imagens estavam sendo captadas de forma automática e enviadas para um sistema central da polícia.
Na abordagem, o morador de rua foi levado para a parte de trás de uma pilastra, longe da vista dos carros que atravessavam a avenida. Durante a hora em que esteve sob a mira dos policiais, foram tiradas fotos de Jeferson, que estava desarmado. Ele chorou pouco antes da execução.
— A gente estava trocando ideia, ideia, ideia... Quando ele viu que ia perder, tentou a sorte. O cara é louco — justificou um dos policiais, logo após a chegada de outras viaturas e de uma ambulância ao local, quando foi iniciada a gravação da abordagem. — Pior que eu estava querendo liberar o cara — completou o oficial.
Um dos policiais que chegaram após o ocorrido atentou para o fato de que as imagens estavam sendo gravadas e enviadas à central de monitoramento. Um outro agente diz então que é “preciso dar uma olhada” nas gravações.
A defesa do tenente disse que “a ação policial decorreu de legítima defesa e que isso será demonstrado ao tribunal do júri”. A defesa do soldado afirmou, em nota, que “por ora, não se manifestará sobre a investigação, uma vez que não tivemos acesso aos autos em sua totalidade, entendendo, assim, por se manifestar apenas nos autos do processo”.
O Ministério Público afirma que o cidadão em situação de rua foi vítima de execução sumária.
“É certo que os denunciados Alan e Danilo, policiais militares no exercício de suas funções, agiram impelidos por motivo torpe, deliberando matar o suspeito por mero sadismo e de modo a revelar absoluto desprezo pelo ser humano e pela condição da vítima, pessoa em situação de vulnerabilidade social. O homicídio foi cometido com emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, a qual já estava rendida e subjugada pela guarnição no momento em que foi repentinamente alvejada”, observou o promotor.