São Paulo do barulho: paulistanos sofrem com pancadões, bares, baladas e obras dia e noite sem cessar
Cidade bate recorde de reclamações sobre poluição sonora. Pinheiros foi, no ano passado, o bairro mais barulhento da capital, segundo dados levantados por O GLOBO A cidade de São Paulo nunca esteve tão barulhenta. Na Zona Oeste, principalmente no bairro de Pinheiros, o burburinho dos bares e baladas é reforçado por obras de edifícios. No Centro, moradores reclamam da construção de uma nova linha do metrô. Na Zona Sul, os pancadões impedem o sossego. Dados da plataforma SP156 da prefeitura mostram que as reclamações por poluição sonora atingiram um patamar recorde desde 2014, quando começaram a ser disponibilizados. Em dez anos, o aumento foi de 32%. Na comparação de 2019, antes da pandemia, com o ano passado, a alta foi de 116%.
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Os limites com barulho estão menos rigorosos, e uma lei municipal em dezembro liberou da fiscalização sonora os estádios e casas de show. A cidade conta com 506 fiscais da poluição sonora e apenas 50 sonômetros (equipamento que mede o nível de ruído). A prefeitura diz que fez um concurso em 2023 para fiscais e contratou mais 234 profissionais, e destaca que a SP156 está “cada vez mais acessível à população, com portal na internet, aplicativo e central de atendimento telefônico”.
Foram emitidas 670 multas por ruído no ano passado, com valores de R$ 12 mil a R$ 36 mil. O número de infrações, porém, contrasta com o volume de reclamações. Em 2024, foram 43.923 queixas, com Pinheiros como o distrito campeão, com 1.214. As áreas com mais denúncias ficam em quarteirões boêmios, como os arredores da Rua Aspicuelta, com 121 registros em 2024. Mas o problema se espalhou a outras partes, como a Rua dos Pinheiros, com 44 registros no ano passado.
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O designer gráfico Ricardo Martini, de 49 anos, reclama das obras das construtoras e das movimentações noturnas de caminhões. Segundo o Secovi-SP, o sindicato do setor imobiliário, Pinheiros teve 11.520 unidades residenciais lançadas de 2019 a 2024.
— A partir de 2020, fiquei dois anos com uma obra de um prédio do outro lado da parede do meu quintal. Era barulho de madrugada, parafuso e concreto caindo aqui dentro. Depois que terminou, outra obra, do outro lado do meu prédio, faz barulho de madrugada. Eles avisam que vão retirar o material, que vai ser algo rápido, mas começam à meia-noite, e o barulho fica por horas — reclama Martini.
Responsável pela obra nova, a construtora Idea!Zarvos diz que vai averiguar as reclamações e que segue as normas e legislações vigentes. A prefeitura afirma que fez uma vistoria em dezembro no empreendimento e não constatou irregularidades, mas deve retornar ao local. O Programa de Silêncio Urbano da gestão municipal, o Psiu, fiscaliza estabelecimentos comerciais, industriais e obras da construção civil. Mas não o barulho de imóveis residenciais, de bailes funk e de obras públicas.
Os limites de poluição sonora são definidos pela Lei de Zoneamento de 2016. A regra já não valia para manifestações em festividades religiosas, comemorações oficiais, eventos esportivos, festejos carnavalescos e juninos, passeatas e desfiles. Em dezembro, também foram incluídos entre as exceções shows e eventos autorizados pelo Poder Executivo.
Ronco de motos e medo
No Capão Redondo, na Zona Sul (998 casos em 2024), os ruídos são de bares, adegas e tabacarias com centenas de pessoas nos fins de semana que depois tomam as ruas pela madrugada nos pancadões. Na Rua Henrique Sam Mindlin e arredores, moradores sofrem com a música alta e o barulho das motos, que geraram 86 queixas no ano passado. Um morador de 72 anos, que não quis se identificar, conta que pensa em vender a casa onde vive há mais de uma década.
— Mas vou me mudar para onde? Antes era uma rua ótima, das melhores da região. Alugo uma casa ao lado, e o inquilino disse que vai embora porque não consegue lidar com o barulho — lamenta.
O medo de falar sobre o tema é regra: cinco moradores de ruas diferentes não quiseram se identificar ao tratar do problema, por temerem os organizadores dos eventos. No ano passado, um deles jogou água com uma mangueira em pessoas que participavam de um “rolezinho” na rua. No fim de semana seguinte, motoqueiros cercaram sua casa e fizeram barulho constante com o escapamento. Chamar a Polícia Militar na região tornou-se frequente.
— É moto empinando, gente gritando, som alto no carro — contou outro morador.
As obras da Linha 6-Laranja do metrô, que ligará a Zona Norte ao Centro, também causam estresse. Na Liberdade (396 reclamações no ano passado), uma vila na Rua Taguá, a poucos metros da futura estação de integração São Joaquim, é perturbada, nos últimos meses, por máquinas e geradores ligados 24 horas. A concessionária Linha-Uni, responsável pela obra, diz que monitora os ruídos e está adotando medidas para minimizar desconfortos.
— Mesmo com a casa toda fechada, tem noite que é difícil. É motor de gerador, gente escavando, motosserra cortando árvore. Passei a usar um protetor auricular que não adianta muito. Coloco uma musiquinha, mas nada faz efeito — reclama a garçonete Mariana Tavares, de 31 anos, que mora a poucos metros da obra.
Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pela Associação dos Delegados de Polícia de São Paulo mostram que a PM foi acionada 431.999 vezes por perturbação do sossego de 2021 a 2023 na Grande São Paulo. E conseguiu resolver 103.586 casos, 24% dos chamados.
— A perturbação do sossego é um delito de menor potencial ofensivo. Na maioria dos casos não tem prisão. Mas o indivíduo pode responder a um procedimento criminal — explica o delegado e presidente da associação, André Santos Pereira.