Fenômeno nas redes sociais, ‘tradwives’, ou ‘esposas tradicionais’, viram tema de livro best-seller e thriller nacional
Pelo que se vê, a rotina é acordar cedo para preparar cabelo e maquiagem e vestir o “look do dia”, geralmente de tecidos finos, bem cortados, com cores sóbrias. Depois, preparar o café da manhã do marido e dos filhos, organizar as roupas e a despensa, sempre com zelo e fé. A lista de afazeres domésticos segue intensa — e os posts também. Toda essa dedicação é, geralmente, documentada nas redes sociais, abastecendo a bolha das chamadas “tradwives”, ou “esposas tradicionais”. São influenciadoras que defendem papéis conservadores de gênero, idealizam a vida doméstica e ancoram as rédeas da família num homem provedor.
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Virgínia Heinzel, vivida por Bruna Linzmeyer no thriller “Virtuosas”, em cartaz nos cinemas, segue esse estilo. Natalie Heller Mills, protagonista do livro de ficção “Bons tempos: Yesteryear”, de Caro Claire Burke, recém-publicado no Brasil pela Rocco, também — a autora, no entanto, destacou em declaração a programa da BBC que influenciadoras que fingem submissão gerenciam impérios milionários e na verdade são as provedoras da casa (mais sobre o livro na página 2). As duas obras de ficção propõem discutir os perigos desses discursos, especialmente num momento em que até a qualidade e validade do voto feminino é discutida por nomes da extrema direita como o americano Nick Fuentes e o brasileiro Paulo Figueiredo.
—As tradwives são basicamente as que mantêm o status quo da família tradicional — diz a socióloga Bruna Camila, pesquisadora de gênero e autora do recém-lançado “Machosfera: Quando a misoginia vira política” (Editora Dialética). — Elas reforçam uma ideia de mulher que se permite ser submissa ao homem porque ele é provedor. Embora ela tenha um TikTok em que fala que não precisa trabalhar, está lá monetizando os vídeos.
Muitos seguidores
Mas é difícil achar quem, de fato, use o termo para se promover ou fale abertamente sobre o assunto quando procurada para entrevistas. A americana considerada “mãe de todas”, Hannah Neeleman (@Ballerinafarm, com mais de dez milhões de seguidores tanto no Instagram, quanto no TikTok), não se intitula “tradwife”. E, no Brasil, o mais comum é ver descrições de perfis com palavras-chaves como “energia feminina ou “feminilidade”, esta última usada, por exemplo, por Luiza Maciel, que reúne mais de 340 mil seguidores no Instagram. “Quando a mulher floresce o que é dela e o homem sustenta o que é dele, a vida em casal fica muito mais leve e bonita”, diz a legenda de um vídeo da ex-confeiteira, que, nas imagens, aparece preparando o almoço e pondo a mesa.
Catarinense de Florianópolis, a diretora e roteirista de “Virtuosas”, Cíntia Domit Bittar viu o assunto virar notícia fora do Brasil e passou a ficar de olho em como ele se refletiria por aqui. Percebeu, então, desde o início dos anos 2020, surgirem brasileiras que se encaixavam nesse perfil das “tradwives”. Muitas enfatizavam o componente religioso cristão (evangélico e católico) das mensagens, e, a partir do que andou vendo nas redes, a roteirista escreveu seu primeiro longa, centrado na coach Virgínia (Linzmeyer). Ela organiza retiros para “mulheres, esposas e mães” encontrarem “sua melhor versão”, mas, numa das edições, acontecimentos caóticos e absurdos atrapalham seus planos.
—Para muitas mulheres, parece um bom negócio ter um homem que paga todas as contas e dá a vida pela companheira, então por que não ser submissa a ele? Elas pensam: “eu já não sou submissa ao meu chefe, a um sistema?” — diz a cineasta. — Isso mostra como o feminismo ainda precisa avançar para proporcionar condições de mulheres sempre livres, seguras, autossuficientes.
Embora o fenômeno esteja lá e cá com algumas semelhanças, há muitas diferenças entre brasileiras e americanas. Quem aponta é a socióloga Jacqueline Moraes Teixeira, autora do também recém-lançado “Mulheres e extrema direita no Brasil” (Editora Elefante), com a antropóloga Christina Vital da Cunha.
— Esse modelo da esposa de classe média, voltada para a esfera doméstica, aparece como um imaginário, mas tem mais dificuldade de se consolidar no Brasil porque há cada vez mais casas dirigidas por mulheres. São responsáveis, inclusive, pela família estendida, então não conseguem prescindir do trabalho fora de casa e das políticas públicas (de saúde e educação).
Esta realidade é uma mola propulsora para o lançamento de candidaturas.
—Os EUA vivem sob a perspectiva da privatização. Mas aqui, não. Mesmo quem se reconhece como conservadora nutre a expectativa de que o Estado vai garantir algum bem-estar social. Então, no Brasil, há também um outro movimento: essas influencers acabam indo para a política.
'Lançamento do ano'
Antes mesmo de finalizar o livro “Bons tempos: yesteryear”, Caro Claire Burke negociou os direitos de publicação num leilão com 12 editoras e saiu dele com um contrato na casa de sete dígitos. Pouco depois, a Amazon MGM Studios comprou os direitos para o audiovisual, por US$ 2 milhões, segundo especulações na imprensa internacional. Tamanho frenesi estava no tema: o universo das “tradwives”, as “esposas tradicionais” que vendem seu estilo de vida nas redes sociais. O investimento, por ora, tem se pagado: foram 1,4 milhão de cópias vendidas nos EUA desde o lançamento, em abril.
A protagonista da história, Natalie Heller Mills, é uma representante clássica das tradwives, mas, um dia, acorda numa aterrorizante versão de sua vida, ambientada no ano de 1855. O leitor acompanha o passado, o presente e as conjecturas do futuro dessa “bela, recatada e do lar”, que no cinema será interpretada por Anne Hathaway.
—A autora deu uma roupagem de thriller, mas tem o lado da sátira — diz a editora executiva da Rocco, Ana Lima, que também arrematou os direitos no Brasil antes mesmo de Caro terminar o trabalho. — O mérito dele é não ter apenas um gênero e levar a discussão para fora do livro. Há muitas camadas de assuntos: vai para feminismo, maternidade compulsória, cultura de influencers.
Mesmos com críticas mistas, o fato é que o livro esteve em toda parte. A revista The New Yorker chamou de “maior lançamento do ano”, embora tenha dito que “uma premissa maravilhosa não garante um romance bem-sucedido” em termos literários e estéticos.