O melhor bar da Europa
Cheguei a Atenas com aquele calor de verão grego, o que enfraquece o passo e obriga a andar pela sombra, e mesmo assim me apaixonei antes de desfazer a mala. Esta cidade se entrega já no primeiro momento. Eu vinha de Amsterdã, de uma noite que redesenhou o mapa do copo na Europa, com uma pergunta simples na bagagem: o que exatamente acontece por aqui. O evento do 50 Bars Europe aconteceu em Amsterdam 50Best No dia 30 de junho, dentro do De Kromhout Hall, antigo galpão industrial às margens do rio IJ, o grupo 50 Best revelou a primeira edição do The World’s 50 Best Bars Europe. Depois da Ásia e da América do Norte, faltava uma lista própria ao continente que inventou o martíni do Connaught e assistiu ao boom de Barcelona. O ranking sai de uma academia de mais de trezentos profissionais independentes espalhados pela região, entre bartenders, jornalistas e viajantes especializados, cada um votando de forma anônima e sem saber o voto dos demais. Quando o primeiro lugar foi anunciado, a sala não esperava a resposta: Line, Atenas. Em segundo lugar, The Bar in Front of the Bar. Também de Atenas. Uma única cidade abrindo a lista de um continente inteiro não acontece por acaso. A equipe do Line de Atenas 50 Best O Line não facilita a vida de ninguém. Fica em Kato Petralona, bairro residencial fora de qualquer rota turística, dentro de uma antiga galeria de arte que preservou o pé-direito altíssimo. Você atravessa a porta e encontra um balcão enorme, uma estação de café que funciona desde cedo, um DJ na lateral, mesas espalhadas e, ao fundo, protegido por vidro, o laboratório onde tudo nasce. O ambiente do Line em Atenas Line A casa nasceu em 2022 das mãos de Vasilis Kyritsis e Nikos Bakoulis, a dupla do Clumsies, ao lado de Dimitris Dafopoulos, um dos criadores da marca de tônicas Three Cents, com Aimilia Bagia completando a sociedade. O que eles chamam de “método da anarquia” é ao mesmo tempo posicionamento e bússola: tratar cada produto de maneira respeitosa e subversiva, sem obediência a escola nenhuma, aproveitando tudo o que sobra do processo. O balcão do Line em Atenas Line No próprio endereço fermentam vinhos de frutas, cervejas e pães de fermentação natural, aquela feita com levedura selvagem em vez de fermento industrial. O resíduo de um produto vira matéria-prima do seguinte, num circuito fechado que a indústria batizou de economia circular e que aqui você enxerga funcionando atrás do vidro. O laboratório do Line em Atenas Line Os vinhos de frutas são o coração da operação e atendem por Why-in, trocadilho com wine que pergunta, em inglês, porque aquilo seria vinho. Desenvolvidos com o enólogo Thanos Georgilas, vão de expressões clássicas a versões perfumadas com destilados, e ganharam rótulos de uma beleza gráfica que eu levaria para casa. Deles saem também os vermutes da casa, aqueles vinhos aromatizados com ervas e raízes que sustentam metade dos clássicos do bar. O Irish Coffee revisitado do Line Line O negroni servido no Line troca o vermute italiano por um preparado sobre base de romã, que muda conforme a estação e transforma um coquetel intocável em organismo vivo. Provei ainda um Irish Coffee que inverte as temperaturas esperadas, o quente onde deveria estar o frio, e desmonta a expectativa antes do primeiro gole. Brincadeira dessas só funciona quando a técnica por trás é impecável. O vinho de romã do Line em Atenas Line A comida segue o mesmo raciocínio. Os pratos pequenos e os pães que incorporam ingredientes da fermentação não são apêndices de bar, participam da conversa em pé de igualdade. E existe a hospitalidade, que talvez seja o fator decisivo de tudo. Fui recebido com um calor delicioso, aquele em que a equipe conversa em vez de recitar, explica sem catequizar e trata quem chegou pela primeira vez como quem está voltando. O Line já era o oitavo do mundo em 2025. O título europeu não descobriu a casa, apenas coroou. Terminei a noite descendo até a Petraki, travessa de pedestres logo abaixo da Syntagma, onde mora o segundo colocado da Europa. A história do The Bar in Front of the Bar é boa demais para ter sido planejada. Em julho de 2021, com a cidade saindo do confinamento e a obra do bar principal parada, Alexandros Tselepis, Konstantinos Theodorakopoulos e Simeon Papanikolaou improvisaram um balcão na janela para atender quem passava na calçada. O tapume virou destino e o provisório ficou. The Bar in Front of The Bar em Atenas Divulgação Hoje funcionam dois ambientes no mesmo endereço, separados por uma parede e movidos pela mesma equipe. Na frente, voltado para a rua, você pede no balcão, recebe o copo e bebe em pé ou sentado nas mesas altas da calçada, diante de um cardápio curto que muda todo dia e se alimenta em boa parte do que sobra da operação de dentro. A fachada carrega frases em letras garrafais, trocadas com frequência para provocar quem passa. Atrás da porta trabalha o Rumble in the Jungle, sala menor e mais acabada, com laboratório próprio, licença de destilação que permite produzir os próprios aromas em casa, e uma carta que homenageia países e memórias afetivas. Cheguei perto da meia-noite e a rua estava tomada, música alta, gente em pé, ninguém preocupado com o dia seguinte. Raramente vi tanta energia concentrada em tão poucos metros quadrados, e nada ali parecia produzido para a câmera. O lobby do New Hotel em Atenas Divulgação Para dormir, tenho um endereço que me deu orgulho brasileiro. O New Hotel ocupa um prédio modernista dos anos 1950 na rua Filellinon, a poucos passos da Syntagma, e foi o primeiro projeto hoteleiro assinado por Fernando e Humberto Campana, convidados pelo colecionador Dakis Joannou, dono do grupo Yes! Hotels, que lhes deu liberdade total. O lobby do New Hotel em Atenas Divulgação Os irmãos não esvaziaram o antigo Olympic Palace que funcionava ali: desmontaram os móveis dos anos 1960 e recompuseram tudo em peças novas, com ajuda de estudantes de arquitetura da Universidade da Tessália. A recepção e o restaurante são revestidos por aquele emaranhado de ripas de madeira que consagrou a Poltrona Favela, a escada de mármore dos anos 1940 permanece no lugar, as pias do banheiro parecem rocha fragmentada em latão e os olhos de vidro espalhados pelas paredes citam a superstição grega do mau-olhado. São 79 quartos, e circular por eles é atravessar uma leitura afetuosa de São Paulo dentro de Atenas. Com a morte de Fernando em 2022, o hotel ganhou ainda o peso de documento, uma das obras mais completas da dupla fora do Brasil. O quarto do New Hotel em Atenas Divulgação Para quem viaja daqui, o recado é direto: Atenas deixou de ser uma escala rumo às ilhas e virou destino de três noites, no mínimo. Reserve uma para o Line, com fome, e deixe outra livre até tarde para a Petraki. O próximo capítulo da história acontece em Milão, no dia 7 de outubro, quando o The World’s 50 Best Bars faz sua primeira cerimônia na Itália. Aposto que a Grécia vai aparecer bem cedo na contagem regressiva.