Como funciona o restauro das obras do "museu subterrâneo" do Metrô de São Paulo
Criado na década de 1970 paralelamente à inauguração do Metrô de São Paulo, o projeto Arte no Metrô transforma a rotina do transporte público paulistano em uma grande galeria democrática. O acervo reúne obras distribuídas por 36 estações das Linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 5-Lilás, assinadas por 67 nomes fundamentais das artes visuais no país — como Tomie Ohtake, Alex Flemming e Aldemir Martins. Selecionadas por uma comissão especializada, as esculturas, murais e painéis de vertente moderna e contemporânea priorizam a longevidade no espaço urbano, com forte presença de materiais como metal e concreto. Para preservar esse patrimônio público, um programa iniciado em 2018 já passou por cinco edições e recuperou 39 obras (o equivalente a 40% do acervo). Cada peça passa por criteriosas análises técnicas conduzidas pela iniciativa privada. Com mais de 90 obras assinadas por 67 artistas de vertente moderna e contemporânea, o Metrô de São Paulo abriga um dos maiores acervos artísticos subterrâneos do país. Na imagem: o painel Jogo de Dados (1991), de Geraldo de Barros, com dimensões de 2,63 m x 2,27 m Metrô de São Paulo/Divulgação Na atual etapa do programa, o último destaque a ser restaurado foi o mural Sem Título (1990), assinado por Maurício Nogueira Lima na Estação São Bento (Linha 1-Azul). A exemplo do que ocorre com grande parte das peças, o maior desafio para a preservação não é a ação do tempo, mas os danos causados por depredação urbana e desgastes de ordem estrutural. Leia mais Os desafios do restauro Segundo o restaurador Claudemir Ignácio, responsável pela intervenção no mural, as infiltrações eram as principais vilãs. "A água vem da rua acima e é absorvida pela parede em que a obra foi pintada. Ao buscar saída pela camada pictórica, a umidade acaba danificando a pintura", diz. O processo de restauração da escultura Garatuja, criada por Marcello Nitsche e localizada na Estação Sé (Linha 3-Vermelha), próxima às catracas, envolveu cuidados técnicos para reparar os desgastes na superfície e recuperar a cor amarela original Metrô de São Paulo/Divulgação Replicar as cores é uma das etapas mais complexas. Além de identificar a matriz exata, o profissional precisa compensar o desbotamento e a pátina provocados pelo tempo. O processo varia: alguns artistas deixaram a paleta registrada com os códigos de cor em projeto; em outras situações, as fabricantes de tinta resgatam as fórmulas em seus acervos ou com leitores espectrais. O caminho mais frequente, contudo, é o artesanal — o restaurador extrai pequenas amostras da superfície para desenvolver a tonalidade sob medida em lojas especializadas, testando a tinta diretamente na parede até alcançar a fidelidade cromática desejada. Com 450 m² de composições geométricas e cores vibrantes, o mural Sem Título, criado pelo artista Maurício Nogueira Lima na Estação São Bento, aparece aqui registrado antes da recente restauração que eliminou as marcas de infiltração Metrô de São Paulo/Divulgação A diretriz é conservar o máximo da camada pictórica original, realizando apenas retoques pontuais onde houve perda de tinta. No entanto, quando há danos graves por umidade — como no painel da Estação São Bento —, a remoção da camada comprometida é inevitável. Nesses casos, aplica-se uma nova massa estabilizadora antes de repintar a área afetada. Além disso, as dificuldades nem sempre residem na fragilidade da obra, mas na logística de acesso. O painel Sem Título (de Odiléa), por exemplo, fica na parede atrás dos trilhos da Estação São Bento, o que exige que a equipe trabalhe exclusivamente durante a madrugada, no curto intervalo em que a operação dos trens está suspensa. "A janela de tempo é muito restrita. Embora tenhamos, em tese, quatro horas durante a madrugada, a montagem e a desmontagem dos equipamentos de segurança consomem grande parte desse intervalo", detalha Claudemir. Instalado no acesso à Estação São Bento da Linha 1-Azul do Metrô de São Paulo, o painel Sem Título foi criado em 1990. A obra foi a mais recente a ser contemplada pelo projeto de restauração do Arte no Metr Metrô de São Paulo/Divulgação A operação também exige protocolos complexos de infraestrutura, como o desligamento da corrente elétrica da via permanente (desenergização) e a utilização de andaimes estruturais ou caminhões rodoferroviários — veículos especiais projetados para trafegar sobre os trilhos. Em obras expostas às intempéries no cenário urbano, os desafios se multiplicam: a incidência de chuva ácida e poluição agride o rejunte e acelera o descolamento dos materiais. A escultura em bronze Sem Título, feita por Alfredo Ceschiatti em 1978, está localizada no mezanino central da Estação Sé (Linha 3-Vermelha). Com dimensões de 1,27 m x 3,05 m x 1 m, a obra levou 30 horas para ser restaurada na primeira edição do projeto Metrô de São Paulo/Divulgação Áreas reservadas para a arte Outro aspecto é a simbiose entre arquitetura e arte pública nas estações mais antigas do centro paulistano, como Sé e São Bento (Linha 1-Azul). O posicionamento elevado e estratégico das obras não é mero acaso: os projetos originais já previam nichos e superfícies recuadas do fluxo massivo de passageiros, uma decisão pensada para proteger o acervo do contato direto e garantir a conservação do patrimônio ao longo das décadas. Um exemplo dessa estratégia espacial é a escultura Sem Título, executada em bronze por Alfredo Ceschiatti, que se consagrou como um dos símbolos visuais da Estação Sé. Por se tratar de um metal nobre e de altíssima resistência, o processo de conservação focou na higienização técnica e no polimento preventivo para ressaltar o brilho da liga metálica. Leia mais "A maior complexidade esteve no entorno da obra, na higienização e no ajuste entre os vidros de proteção e a base de sustentação", ressalta Claudemir. Ainda na Estação Sé, o imponente mosaico em pastilhas de vidro fundido de Claudio Tozzi, intitulado Colcha de Retalhos, estabelece um forte contraste com o concreto aparente. Na concepção do painel, o pintor buscou promover uma conexão direta com o repertório do passageiro, inspirando-se nos tecidos artesanais confeccionados a partir de sobras de retalhos pelas comunidades periféricas. O restauro da peça exigiu cerca de 50 horas de trabalho, com atenção na recomposição do mosaico e na reposição das pastilhas de vidro. Colcha de Retalhos é um mural do artista Cláudio Tozzi criado em 1979, localizado no acesso norte (Catedral da Sé) da Estação Sé (Linha 3-Vermelha). A técnica utilizada é o mosaico em pastilhas de vidro fundido, em uma estrutura que mede 3 m x 10,5 m Metrô de São Paulo/Divulgação O funcionamento do Arte no Metrô Para viabilizar a recuperação do acervo de forma contínua e sem uso direto de recursos públicos, o programa apoia-se em um modelo de parceria entre o Metrô de São Paulo e a iniciativa privada. A estrutura garante às empresas patrocinadoras um forte apelo de marca e visibilidade em pontos de altíssima circulação de pedestres. Todo o processo de intervenção é registrado em fotos e vídeos veiculados nas telas da TV Minuto (que ficam dentro dos trens) e nas plataformas digitais. A estratégia aproxima os passageiros dos bastidores do restauro e funciona como contrapartida de transparência institucional para os apoiadores.