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_Arte: MST_ _Por Vítor Peruch Da Página do MST_ Em Brasília, um direito é um papel assinado. No assentamento, é ser chamada pelo nome certo no posto de saúde. Na periferia, é acordar sabendo que a casa continua de pé. É nessa distância, entre o que está escrito e o que chega ao endereço, que se decide a eleição deste domingo (4). Os números dão a medida do que está em disputa. O Brasil tinha, em 2024, um déficit de 5,77 milhões de moradias, e cerca de 62% desse total vinha do aluguel que devora a renda das famílias, segundo dados da Fundação João Pinheiro divulgados pela Abecip. A Campanha Despejo Zero contabilizou, em balanço de 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas despejadas ou ameaçadas de remoção, sendo 1,39 milhão delas negras. E pesquisadoras ouvidas pelo Jornal da USP concluem que boa parte das políticas para a população LGBTQIA+ “ou não saem do papel ou têm efeitos apenas pontuais”. Duas populações, duas realidades, uma mesma pergunta. O Estado vai aparecer ou vai se retirar? E, se aparecer, para proteger quem? ## “Não basta comparar discursos” _Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil_ Para Luana Oliveira, da Coordenação Nacional do Coletivo LGBTI Sem Terra, o debate eleitoral costuma errar a escala. “Não basta comparar discursos; é preciso perguntar se a pessoa LGBTI consegue viver, estudar, trabalhar, produzir e buscar atendimento com segurança no seu território”, afirma. A diferença entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula, na avaliação dela, aparece na forma como o Estado se relaciona com essa população. “No governo Bolsonaro, houve descontinuidade e enfraquecimento de estruturas e políticas específicas, além de perda de espaços de participação social, e isso tem consequências concretas: quando uma política deixa de ter equipe, orçamento e interlocução com os movimentos, fica mais difícil enfrentar a violência e exigir atendimento digno.” Um estudo publicado na Revista de Estudios Brasileños, da Universidad de Salamanca, ajuda a documentar essa mudança. O pesquisador Leonam Lucas Nogueira Cunha analisou o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, e registrou que o Ministério dos Direitos Humanos foi reorganizado e rebatizado como Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. As diretrizes de direitos humanos que orientavam o órgão deixaram de mencionar as minorias sexuais, e uma secretaria dedicada às demandas LGBT foi extinta. O autor também descreve a aproximação da então ministra Damares Alves com grupos que defendem rever a norma do Conselho Federal de Psicologia que proíbe terapias de “reorientação sexual” e a presença do Brasil em debates da ONU, onde a diplomacia propôs retirar o termo “gênero” de resoluções. O mesmo trabalho lista números do período: 2.964 violações de direitos humanos de caráter LGBTIfóbico registradas pelo Ministério dos Direitos Humanos em 2016, e 167 pessoas trans assassinadas entre janeiro de 2017 e setembro de 2018, segundo o dossiê da Antra. Cunha argumenta, a partir da teoria queer, que um discurso oficial que ridiculariza ou deslegitima essas identidades coloca o ódio “num lugar de aceitabilidade e validação social”. É uma interpretação do autor, e não uma relação de causa e efeito comprovada, mas ela aponta para o que as lideranças relatam na prática. ## O que o programa de Flávio promete, e o que ele cala Luana Oliveira lembra que o governo Lula reabriu canais de participação e instituiu políticas voltadas à população LGBTQIA+. Ela cita o Programa Bem Viver+, criado para enfrentar a violência e promover direitos de pessoas LGBTQIA+ nos territórios do campo, das águas e das florestas, e a Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, que articula União, estados e municípios. “Isso não significa que a discriminação acabou”, ressalva. “Significa que há instrumentos públicos que podemos disputar, cobrar e fazer chegar aos territórios.” Do outro lado, ela lê o programa de governo de Flávio Bolsonaro como um documento de ausências e de restrições. “O programa de Flávio Bolsonaro não apresenta propostas de garantia de direitos LGBTI+. Ele prevê restringir a participação de atletas trans em categorias femininas e impulsionar propostas como as que tramitam no Congresso, de restrição ao acesso de pessoas trans a banheiros e vestiários. Uma bancada ultraconservadora pode ampliar esse tipo de iniciativa e dificultar a consolidação de políticas de proteção.” A conta do Legislativo importa porque as conquistas LGBTQIA+ no Brasil seguem, em grande parte, frágeis. As pesquisadoras Daniela e Caroline, do OIPP, ouvidas pelo Jornal da USP, lembram que políticas federais são “muitas vezes políticas de governo”, sem orçamento próprio nem garantia de continuidade. O relatório recomenda que conquistas como a criminalização da homotransfobia, o casamento civil igualitário e a doação de sangue sejam reconhecidas em lei, para ficarem menos expostas a desmontes. “Precisamos de políticas consistentes, que vão além de governos, e sejam políticas de Estado”, afirmam. A lacuna, portanto, não pertence a um único governo. Mas quem governa e quem legisla decide se ela encolhe ou se alarga. ## O campo também é LGBTI _Foto: LGBTI Via Campesina ENFF_ Há uma ideia, ainda comum, de que a diversidade sexual e de gênero é um assunto urbano. Luana Oliveira contesta: “Nós, pessoas LGBTI+, sempre estivemos nos assentamentos, acampamentos e comunidades rurais, embora historicamente invisibilizadas.” O Coletivo LGBTI Sem Terra, os espaços de formação e a campanha permanente contra a LGBTIfobia no campo, diz ela, ajudam a construir pertencimento e acolhimento. Ela evita, porém, romantizar os territórios: “ainda enfrentamos silenciamento, discriminação, rejeição e violência, inclusive nos espaços onde lutamos por transformação.” Para quem vive nessas áreas, a política pública precisa ser medida em gestos concretos. “Para uma pessoa trans de um assentamento, de um acampamento ou da periferia, a questão é muito concreta: poder usar seu nome, permanecer na escola, ser acolhida no posto de saúde, acessar trabalho e renda e buscar proteção quando sofre violência. Uma política anunciada em Brasília só muda sua vida se chegar ao município, com recursos, profissionais preparados e participação de quem vive essa realidade.” A própria coordenadora reconhece o tamanho do que falta. Nos municípios, diz, boa parte dos profissionais de saúde nem sabe que existe uma política integral de saúde para a população LGBTQIA+, nem uma específica para o povo do campo, das florestas e das águas. Esse é o tipo de brecha que o relatório citado pelo Jornal da USP descreve ao apontar a falta de dados e de formação como obstáculos ao atendimento, e que só se fecha com um Estado que financie, treine e escute. ## A conta de quem mora de aluguel Se Luana mede o Estado pelo nome no posto de saúde, o advogado popular Antônio Celestino o mede pela chave da porta. Ele é doutorando em Geografia na Universidade Federal de Alagoas, associado ao Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) e integrante da Secretaria Nacional da Rede BrCidades. Celestino recorda que a moradia só entrou na lista de direitos sociais do artigo 6º da Constituição em 2000, por meio da Emenda Constitucional 26. “Uma geração chegou à vida adulta nesse intervalo sem que a promessa constitucional se realizasse plenamente”, diz. Por isso, na avaliação dele, qualquer comparação entre governos precisa ir além do número de casas: “Um governo pode anunciar milhares de casas, mas é necessário saber quem conseguirá acessá-las, onde serão construídas, como serão financiadas e quais garantias terão as famílias que já vivem sob ameaça de perder sua moradia.” Ele reconhece que o governo Bolsonaro, por meio do Casa Verde e Amarela, manteve financiamentos e subsídios, e dados do próprio Ministério do Desenvolvimento Regional mostram a entrega de cerca de 1,6 milhão de moradias entre 2019 e 2022. A diferença, afirma, está em quem foi atendido. Em abril de 2021, depois do veto ao Orçamento, restaram cerca de R$ 27 milhões para dar continuidade às obras da faixa 1, a de menor renda. “Esse esvaziamento atingia justamente o atendimento à população que mais dependia do subsídio público.” A retomada do Minha Casa, Minha Vida, em 2023, mudou essa lógica. O programa passou a dispensar beneficiários do Bolsa Família e do BPC do pagamento das prestações nas modalidades abrangidas pela regra e chegou a dois milhões de moradias contratadas em dezembro de 2025, segundo balanço do governo federal. Celestino também destaca o Periferia Viva, que retomou uma agenda federal de urbanização de favelas, desde que garanta a permanência de quem mora no local. “Perder o lugar depois da obra pode significar recompor, em outro território, a precariedade que se pretendia enfrentar.” Ele resume o que o crédito não resolve. “Ampliar o crédito, por si só, não resolve a situação de famílias cujo orçamento já é insuficiente para sustentar o custo de morar.” E descreve onde a política habitacional precisa mostrar resultado: “O problema aparece no aluguel que consome a renda, no bairro sem saneamento e nas horas de deslocamento até o trabalho.” ## Despejo, democracia e a periferia que não é um bloco só _Foto: Yuri Gringo_ Há um episódio que, para Celestino, sintetiza as escolhas em disputa. Em 2021, durante a pandemia, Bolsonaro vetou integralmente o projeto que suspendia despejos e remoções, invocando a proteção da propriedade e os riscos às relações contratuais. O Congresso derrubou o veto. A proteção de comunidades contra despejos coletivos, lembra o advogado, foi construída depois pela ADPF 828 e pelas comissões de soluções fundiárias, regulamentadas pelo Conselho Nacional de Justiça. É daí que ele puxa a ponte entre moradia e democracia: “Para quem vive sob ameaça de remoção, a democracia se realiza também na possibilidade de se organizar, contestar decisões e exigir do Estado condições dignas de moradia.” E acrescenta: “A democracia ganha conteúdo quando uma comunidade consegue contestar uma remoção, conhecer o orçamento de uma obra e exigir que o poder público responda por suas escolhas.” Ele observa que o programa de Flávio Bolsonaro prevê rever o alcance das ADPFs e de quem pode propor determinadas ações no Supremo, e pede que o conteúdo dessa revisão seja cobrado. Sobre o programa de moradia, propõe retomar o Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de residências, juros menores, regularização e parcerias público-privadas. “A proposta habitacional não explicita como será subsidiado o atendimento a quem não consegue assumir financiamento”, diz Celestino, que chama isso de “critério decisivo” para avaliar o alcance social da proposta. Do lado de Lula, ele lê no programa a intenção de ampliar o MCMV, preservar o foco na baixa renda, usar áreas da União e apoiar a participação dos movimentos. O advogado faz questão de separar responsabilidades. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. “Evidente que a responsabilidade penal é pessoal e não se transfere a Flávio pelo parentesco; no entanto, a responsabilidade política deve ser examinada por seus próprios atos.” Ele lembra que Lula vetou o projeto de redução de penas por crimes contra as instituições democráticas, que o Congresso derrubou o veto em abril, e que Flávio defendeu a derrubada do veto e a continuidade da articulação por anistia geral. Nada disso, porém, autoriza tratar a periferia como um bloco homogêneo, e a literatura recente é cuidadosa nesse ponto. O sociólogo Leonardo Fontes, professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap, argumenta em artigo ainda em formato de preprint (SciELO Preprints, 2024) que é preciso evitar dois erros: “culpar os pobres” pelo avanço da extrema direita e romantizar a pobreza e sua resistência. Segundo ele, a periferia de São Paulo deu maioria a Bolsonaro em 2018, mas Lula venceu nessas áreas na eleição seguinte, o que as torna “mais áreas de oscilação do que consolidadas” em suas preferências. _Laurindo Pereira da Silva, conhecido como seu Pepeu, foi atingido por bala de borracha durante ação violenta de despejo na Bahia. Foto: MST_ O que o pesquisador identifica, em suas etnografias, é um discurso que une economia, moral e segurança. Ele descreve três “públicos” conservadores nas periferias: o do empreendedorismo em meio à precariedade, o do conservadorismo religioso e familiar e o do autoritarismo militarista, o que defende “lei e ordem” pela força. Esse conjunto trabalha com uma divisão moral entre “trabalhadores” e “bandidos”, e entre “trabalhadores” e “acomodados” que dependem de benefícios do Estado. Fontes nota que o reforço do conservadorismo religioso e familiar se faz, entre outras coisas, em oposição às “novas formas de sexualidade, emancipação feminina e outras configurações familiares”. É nesse ponto que as duas pautas se encontram. O mesmo discurso moral que corta uma política de moradia ou de assistência por considerá-la “favor do Estado” também enquadra pessoas LGBTQIA+ como ameaça à ordem. E os dois processos têm vítimas em comum, que Luana descreve como “travestis e pessoas trans, pessoas LGBTI+ negras, camponesas, indígenas e das periferias”. Fontes também registra a face progressista da periferia, que costuma ser esquecida. Há uma rede de associações, conselhos, coletivos culturais e movimentos que defendem a democracia e os direitos humanos como resposta à violência e à desigualdade, e que, segundo ele, valorizam a periferia como identidade positiva, em oposição ao estigma territorial. O próprio autor admite o desafio: o campo progressista tem dificuldade para construir um discurso na esfera econômica que substitua o antigo público sindical. ## O que se cobra, seja quem for eleito Nenhuma das fontes trata a eleição como ponto final. Celestino diz que o próximo governo precisa subsidiar moradia para quem não tem acesso ao crédito, destinar imóveis públicos vazios e bem localizados à habitação popular, urbanizar favelas garantindo a permanência dos moradores, apoiar a reforma da casa autoconstruída e a produção organizada por entidades populares, desenvolver a locação social e prevenir conflitos com mediação antes de qualquer remoção. “Reduzir a desigualdade entre centro e periferia exige enfrentar o custo de morar na cidade. Água, energia, condomínio e transporte pesam no orçamento”, afirma. Segundo ele, a trajetória de Lula na criação e na retomada do programa “permite cobrar entregas, boa localização e metas verificáveis”. Luana Oliveira espera, e diz isso abertamente, a vitória de Lula, mas descreve a vitória como o começo de uma cobrança. “Do próximo mandato esperamos que os compromissos sejam concretizados, com orçamento e participação dos movimentos sociais: fortalecer o SUS, criar e fortalecer redes de proteção no campo, formar os profissionais de saúde para garantir acolhimento e atendimento humanizado, responder às denúncias de violência e produzir dados que tornem visíveis as pessoas LGBTI+ do campo. Também assegurar acesso à terra, documentação que respeite o nome social e a identidade de gênero das pessoas e acesso a crédito para melhorar as condições de produção.” A pauta dos dados, aliás, aparece nas duas frentes. As pesquisadoras do OIPP recomendam um recorte LGBTQIA+ no censo nacional e a coleta sistemática de informações, porque, sem números, a política pública fica cega. Luana pede dados sobre as pessoas LGBTI+ do campo. E Celestino defende que o debate público explique os documentos, esclareça o alcance dos números e demonstre as consequências das decisões, porque uma informação repetida muitas vezes “precisa poder ser confrontada com aquilo que efetivamente ocorreu”. ## O que as fontes pedem que o eleitor confira _Lula na ENFF. Foto: MST_ Há uma convergência incômoda para qualquer neutralidade de ocasião. Em ambas as pautas, os retrocessos descritos pelos estudos e pelas fontes vêm da mesma lógica: cortar a estrutura que sustenta o direito (a secretaria, o orçamento da faixa 1, a participação dos movimentos) e substituir a política pública por um discurso moral. E em ambas, o governo Lula é descrito como imperfeito, mas como aquele que reabre os canais pelos quais a cobrança é possível. O que Luana e Celestino pedem, no fundo, é a mesma coisa. Que o direito deixe de ser promessa e vire endereço. “Não é apenas poder permanecer no campo”, resume Luana. “É poder viver nele com segurança, autonomia e liberdade.” E, ao fechar a conta, ela coloca o horizonte da Reforma Agrária Popular no mesmo plano: “não existe Reforma Agrária Popular, nem democracia plena, se parte do povo precisa esconder quem é para viver no seu território.” No domingo, o voto não decide se haverá casa, posto de saúde e proteção para todos. Decide se haverá um governo disposto a ser cobrado por elas. _*Editado por Fernanda Alcântara_ * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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October 2, 2026 at 4:12 PM
Tema central do Grito dos Excluídos é a soberania, porque sem ela, não temos escolha, diz pastora.
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A primeira edição do Grito dos Excluídos e das Excluídas foi em 1995. | Crédito: Divulgação O Grito dos Excluídos e Excluídas chega à sua 32ª edição na próxima segunda-feira (7), no feriado da Independência, com o tema “Na defesa da terra, paz e moradia – Erguemos a voz: mulheres vivas e soberania”. Ao _É de Manhã_ , da **Rádio Brasil de Fato** , a pastora Romi Márcia, do Fórum Ecumênico ACT Brasil e da Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político, destaca a tradição do Grito dos Excluídos, que tem três décadas de história como um momento importante para firmar a presença dos movimentos populares e de esquerda no espaço público brasileiro. “Eu diria que o tema central do grito é a soberania, porque, sem soberania nacional, nós, como cidadãos e cidadãs, não somos mais sujeitos de escolha e de decisão sobre o que a gente quer e pretende para o nosso próprio país”, defende. Romi Márcia destaca que a defesa da vida das mulheres se mostra cada vez mais urgente e avalia que alguns episódios recentes, como a guerra em Gaza, expuseram como mulheres e crianças são os primeiros alvos das investidas imperialistas. “Isso é muito simbólico, porque sem mulher e sem criança não tem futuro. Então, quando a gente defende a soberania, a gente está reafirmando exatamente esses direitos básicos e fundamentais à existência dos seres humanos e dos seres vivos”, reforça. A pastora considera que o contexto das eleições deste ano torna a edição do grito uma das mais importantes dos últimos 30 anos. “A gente vai dar o voto pró ou contra a presença do Trump no Brasil. Então, é o voto pela soberania. Mais do que votando em presidente e parlamentares, a gente vai estar votando pelo direito à nossa autonomia como nação, como país”, afirma. Além disso, Márcia explica que o ato do dia 7 de setembro é o encerramento do processo de mobilização promovido pelo Grito dos Excluídos, inclusive com disponibilização de materiais para formações políticas. “Essas atividades prévias ao dia 7 de setembro são extremamente relevantes, porque não é o simples fato de ir para a rua. O processo é compreender por que se vai para a rua. O Grito tem a ver com uma real independência, porque se compreendem as desigualdades características do Brasil, as desigualdades históricas do nosso país. A gente está na América Latina. Isso é um indicativo de que nós não temos uma independência real”, conclui. #### Para ouvir e assistir Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o _É de Manhã_ vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h25 às 8h25 da manhã, na **Rádio Brasil de Fato** , 98.9 FM, na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato. Editado por: Gia Matheus Almeida Republicado de: Brasil de Fato * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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September 5, 2026 at 10:07 PM
‘Precisamos de um projeto de país que não seja dinheiro’, defende cientista climática do INPE.
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_Foto: Cadu Souza / MST_ Em um cenário de agravamento dos eventos climáticos extremos, conjugado com um avanço do capital sobre os bens comuns, as florestas, as águas e os minérios, a cientista climática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Luciana Vanni Gatti defende que é urgente desenvolver “um projeto de país que não seja dinheiro”, que tenha a preservação ambiental e a produção de alimentos saudáveis como foco principal. “O agronegócio vai falir logo ali. Não creio que se segure mais de uma década, porque o clima está mudando muito. A produtividade vai cair mais e aí querem mais terra, desmatam mais, e isso piora a situação. E, conforme piora a situação, vão usar mais veneno. Isso não tem mais como funcionar”, afirma Gatti. “Precisamos de um plano de transição agrícola no Brasil. Hoje temos um plano de substituir a natureza por monocultura. Temos que mudar isso”, complementa. As falas foram feitas na manhã da sexta-feira (4), no segundo dia do Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas. Gatti destaca que o cenário impõe muitas coisas para rever e para mudar, na relação com o planeta, mas que isso também é uma grande oportunidade de transformação. No entanto, as mudanças climáticas estão muito além do que os modelos indicavam anos atrás. E a população está consumindo cada vez mais energia e, com isso, a chamada energia limpa não está sendo suficiente. _Foto: Cadu Souza / MST_ “Estamos produzindo mais energia verde, mas também estamos aumentando o consumo de petróleo, gás natural e carvão. E por que se faz isso? O agronegócio consome 70% da água. Começou a baixar os rios, foi buscar águas nos lençois freáticos. Sem lençol, os rios refluem mais, reduzindo a capacidade das hidrelétricas, o que força a criar ainda mais termoelétricas para garantir a estabilidade da oferta da energia elétrica. É um modelo insustentável”, explica. Para ela, um exemplo de uma primeira mudança seria direcionar os recursos hoje investidos no plano safra, que em 2026 está orçado em mais de R$ 610 bilhões, sendo destinado na sua maior parte ao financiamento do modelo do agronegócio, com monocultura, uso extensivo de veneno e derrubada de áreas de floresta para expansão da área de produção. “O plano safra hoje é o motor contrário ao que precisamos. Mas poderia ser direcionado para uma transição do modelo de produção, priorizando um modelo agroecológico, de preservação ambiental e uso racional de recursos”, defende Gatti. **Vida ou morte** “Ou fazemos alguma coisa para transformar a sociedade brasileira, ou não haverá vida”, afirmou João Pedro Stédile, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), corroborando a fala de Gatti e destacando que a principal contradição do agronegócio e do latifúndio é que eles “são insustentáveis”. _Foto: Cadu Souza / MST_ Stedile destaca que o tempo atual de crise faz com que o capital tente se apoderar de tudo, avançando com força sobre os bens da natureza, o que coloca os povos do campo, das águas e das florestas na mira desses ataques, tornando a luta ainda mais complexa. “Os bens da natureza não têm valor capital, não consomem tempo de trabalho. Mas, quando pega a água na natureza, usa tempo de trabalho para colocar na garrafinha e vende, isso permite um ganho extraordinário que não teria em nenhum outro meio. Então os capitalistas vão se apropriar cada vez mais dos bens da natureza, da água, da terra, dos minérios”, explica. Porém, na avaliação de Stédile, cada vez mais esse modelo vai se tornar insustentável, porque piora a vida do povo, promove mais acumulação de dinheiro em poucas mãos e deixa de responder aos problemas da sociedade. E isso promove uma grande oportunidade de os movimentos populares apresentarem alternativas, pressionarem por políticas firmes que, por exemplo, proíbam o desmatamento, o uso de agrotóxicos nocivos às pessoas e ao meio ambiente. “Qual deve ser o nosso projeto? Primeiro, proteger a natureza. Se a gente não proteger a natureza, nada vai adiantar. Segundo: produzir alimentos saudáveis. Essa deve ser a prioridade de qualquer agricultor. E temos de trabalhar com a agroecologia. Só os povos do campo é que podem implementar esse modelo: camponeses, povos indígenas, quilombolas, trabalhadores. Não vai ser o capital”, explica. E, para levar essas propostas adiante, a liderança do MST defende que é preciso voltar ao básico. “Precisamos de movimento de massa, de gente na rua, ocupar, pressionar”, afirmou. _Foto: Cadu Souza / MST_ **Cenário internacional** Yamila Goldfarb, presidenta da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), ressaltou ainda que o cenário geopolítico está agravando as disputas pelos bens da natureza. “Temos uma nova ordem convivendo com a anterior. E isso leva a conflitos. É só ver o que ocorreu na Venezuela [o ataque dos EUA em 3 de janeiro]. A demanda por petróleo vai aumentar, a demanda por extrativismo é muito grande”, exemplifica Goldfarb, que aponta o Encontro do Campo Unitário como um espaço para pensar além dos espaços que cada povo vive, pensando o Brasil. “Esse cenário coloca a centralidade da terra como um ativo financeiro importante na acumulação do capital. E a gente tem um problema muito grande: o projeto brasileiro para se inserir na economia mundial é o projeto neoextrativista. A gente precisa de uma transição ecológica e não somente energética. Precisamos pensar como fazer para ter outro tipo de produção e consumo”, defendeu. O Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas pretende alinhar uma leitura comum da realidade brasileira e internacional, para identificar os principais desafios colocados para os povos e definir uma plataforma de propostas para avançar em projetos e programas que os protejam e beneficiem. O evento segue até sábado (5) e reúne 60 organizações, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores, a Via Campesina Brasil, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Por Rodrigo Gomes / BDF * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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September 5, 2026 at 10:02 PM
Foto: Diógenes Rabello Por Vítor Peruch Da Página do MST A Lei de Terras de 1850 não criou a concentração fundiária brasileira, mas deu forma legal a uma estrutura de apropriação de terras que já vinha sendo construída desde o período colonial. Para Gerson Oliveira, geógrafo, educador e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aquele momento consolidou uma escolha pelo latifúndio que atravessaria a história brasileira. “A Lei de Terras de 1850 é a institucionalização estatal da concentração fundiária brasileira”, afirma. Na avaliação do pesquisador, porém, a origem do problema é anterior e remonta ao modelo de colonização adotado pelo Império português sob o modelo de sesmarias. Após a Independência, em 1822, Dom Pedro I acabou com o sistema de sesmarias e não colocou nada no lugar. O país passou quase três décadas sem um novo marco para organizar a propriedade da terra. Nesse período, segundo Oliveira, oportunistas aproveitaram o vazio e se apossaram de grandes extensões de terras no interior do país. “Você tem 30 anos de um vazio, um vácuo jurídico no qual avançou muito o apossamento de áreas pelo interior do país, sem um regramento e valia a lei dos “mais fortes” com armas e dinheiro que tinham o poder de expulsar, exterminar os indígenas e se adonar de grandes extensões de terra”, diz. A Lei de Terras, aprovada em 1850, estabeleceu um mercado de terras tendo na compra o principal caminho para a aquisição de terras, e criou mecanismos de regularização das posses já existentes, para quem tinha dinheiro para pagar por ela. Na leitura de Gerson Oliveira, o resultado foi a transformação de uma estrutura de concentração de terra ilegalmente adquirida em propriedade oficialmente reconhecida pelo Estado: “Quem tinha condições de pagar o valor necessário para regularizar as suas terras foi reconhecido como titular proprietário de fato e de direito dessas áreas”, afirma. Ao mesmo tempo, sitiantes, camponeses, comunidades indígenas e quilombolas ficaram fora desse processo. “Isso inaugurou essa insegurança jurídica sobre essas áreas ocupadas pelos trabalhadores pobres, negros, quilombolas, indígenas, de um modo geral”, diz o pesquisador. A escolha também esteve ligada à transição do trabalho escravizado para o trabalho livre. Gerson Oliveira destaca que, naquele período, propostas de reforma agrária chegaram a ser formuladas por abolicionistas como André Rebouças, que defendia tributação das grandes propriedades, estabelecimento de limites para seu tamanho e distribuição de terras como forma de ocupação do vasto território, inclusive por questões de soberania nacional. Foto: MST “Essa política foi derrotada pelo poder latifundiário, inclusive apoiado pelos republicanos, que articularam com os fazendeiros a manutenção da escravidão e, posteriormente, organizaram a imigração branca europeia. Então, a política de reforma agrária nunca foi considerada do ponto de vista do Estado, perdemos essa oportunidade nesse momento submetendo o país desgraçadamente ao poder do latifúndio”, afirma. Para ele, essa opção ajudou a formar posteriormente estruturas de poder regional associadas ao coronelismo, à grave desigualdade social e política, analfabetismo, fome e tantas outras mazelas que ainda hoje não foram superadas. ## **O “grilo mãe” do Pontal** Um dos exemplos mais emblemáticos dessa história está no extremo oeste paulista. O Pontal do Paranapanema, região que concentra hoje grande parte dos assentamentos de Reforma Agrária de São Paulo, também reúne uma das maiores extensões de terras devolutas do estado que somavam algo próximo de 1 milhão de hectares Segundo reportagem recentemente publicada pelo portal _O Joio e O Trigo_ em julho de 2026, a região é marcada por uma longa história de disputas envolvendo terras públicas-devolutas e fazendas instaladas sobre áreas cuja origem dominial foi questionada ou discriminada judicialmente como devoluta. A reportagem aponta ainda que a região concentra 118 dos quase 300 assentamentos paulistas. É nesse território que Gerson Oliveira, baseada em pesquisas sobre a região, identifica o que chama de “grilo mãe”: as tentativas pioneiras de José Teodoro de Souza e Antonio José (ou José Antonio) Gouveia de registrarem em paróquias duas enormes extensões de terras no chamado “sertão desconhecido” paulista. “Os primeiros registros de ocupação ou de tentativa de demarcação ilícita dessa área por estes grileiros aparecem na segunda metade do século XIX, no fim do prazo estabelecido pela Lei Terras de 1850, sob alegação de que possuíam e residiam na região há muito tempo antes ”, relata. Ainda antes da virada do século, em 1890 o então presidente Prudente de Morais, que dá nome à cidade homônima no extremo oeste paulista, anula as medições e demarcações feitas de forma fraudulenta pelos grileiros na região. A Delegacia de Falsificações do estado de São Paulo na época inclusive reconhece, após perícia, que houve falsificação de assinaturas por parte dos grileiros no objetivo de dar veracidade no registro das áreas como a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio e outras glebas como a Fazenda Rio do Peixe, etc. O termo “grilagem” faz referência a uma prática atribuída aos primeiros falsificadores de documentos de terra: escrituras forjadas eram colocadas em gavetas com grilos para acelerar a decomposição e o envelhecimento do papel, dando aos documentos uma falsa aparência antiga, amarelada e, portanto, supostamente anterior à Lei de Terras de 1850. A prática é descrita no livro _A ocupação do Pontal do Paranapanema_ , de José Ferrari Leite. “Tanto antes como hoje se sabe que isso foi, vamos dizer assim, a grilagem originária das terras devolutas da região do Pontal”, afirma. Processo que deu origem ao que chama de “grilo mãe” das terras devolutas do Pontal do Paranapanema, especialmente em torno da Fazenda Pirapó-Santo Anastácio. A reportagem de _O Joio e O Trigo_ também recupera essa história. Segundo o levantamento publicado pelo portal, a Pirapó-Santo Anastácio teve registro forjado sobre 583 mil hectares de terras públicas. Outra grande propriedade, a Boa Esperança do Aguapeí, teve uma cadeia dominial originada em registro forjado sobre 872 mil hectares. Juntas, as áreas correspondiam a aproximadamente 5,6% do território paulista. O problema atravessou diferentes governos. Gerson Oliveira afirma que houve tentativas de legitimação na década de 1940 e 50, durante a ditadura militar e posteriormente em governos paulistas, mas sem solucionar integralmente a situação. A lei atualmente vigente, embora questionada no STF ainda em fase de votação, tem essas bases históricas e se não fosse a luta do MST e dos movimentos sociais organizados da sociedade já teria sido aprovada desde o governo José Serra (2007-2010), quando foi mais uma vez tentada a regularização de áreas acima de 500 hectares. ## **Tarcísio e a nova regularização** É nesse histórico que Gerson Oliveira enquadra a política fundiária do governo Tarcísio de Freitas. A Lei estadual nº 17.557/2022 criou o Programa Estadual de Regularização de Terras. O programa prevê descontos que podem chegar a 90% sobre o valor de mercado e vem sendo utilizado pelo governo paulista principalmente no Pontal do Paranapanema. Ainda segundo a reportagem do portal _O Joio e O Trigo_ , 250 fazendas instaladas em terras públicas, somando cerca de 131 mil hectares, já haviam concluído os trabalhos técnicos de regularização. **LEIA MAIS: Programa de Tarcísio que regulariza fazendas em terras griladas pode ser declarado inconstitucional pelo STF** Para Gerson Oliveira, a iniciativa representa uma continuidade — em escala ampliada — das tentativas anteriores de legalização das invasões: “O governo Tarcísio levou adiante o projeto que aí sim é a entrega indiscriminada de todas essas áreas, ele está doando o patrimônio público que pertence a toda população. É uma verdadeira institucionalização da grilagem, uma espécie de “varejão de terras” para os espoliadores amigos do Governador e de seu grupo político”, afirma. Na avaliação do pesquisador, a comparação com 1850 é direta: “É como se ele estivesse reeditando essa Lei de Terras, mas numa versão muito pior, pois não se observa sequer os critérios mínimos do cumprimento da função social da propriedade conforme estabeleceu a Constituição de 1988. Ou seja, está entregando terras descaradamente improdutivas, que devastaram o meio ambiente, além de outros crimes que estão envolvidos os supostos donos”, diz. Entre as razões apontadas por Gerson Oliveira estão o valor cobrado pelas terras e a ausência, segundo ele, de uma avaliação prévia sobre produtividade, função social, situação ambiental e eventual existência de trabalho escravo ou atividades ilícitas. “Independente dessas áreas serem produtivas ou não, de estarem em acordo com a legislação ambiental, de estarem preservando a natureza, do meio ambiente, de não haver trabalho escravo, enfim, ou não tiver atividades ilícitas, independente disso, ela pode então ser regularizada pela lei do Tarcísio”, afirma. A fazenda Santa Cruz do Kurata tem cerca de 1.400 hectares, e é uma das centenas de terras que foram griladas na região (Foto: MST) A lei é questionada no Supremo Tribunal Federal por meio da ADI 7326/2022. O julgamento começou em maio de 2026, com voto favorável da relatora, ministra Cármen Lúcia, mas foi suspenso após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. A Procuradoria-Geral da República também se manifestou favoravelmente à ação. Segundo a reportagem do portal _O Joio e O Trigo_ , em 2023, o governo federal chegou a oferecer pagar o valor integral de mercado de fazendas em terras públicas para destiná-las à Reforma Agrária, proposta que teria sido rejeitada pelo governo paulista. ## **Uma disputa que vai além da propriedade** Para Gerson Oliveira, a disputa não se resume à titularidade das terras. Há, de um lado, a luta para destinação dessas áreas para a reforma agrária e, de outro, o interesse econômico associado à transformação da terra em ativo financeiro: “No fundo, é uma estratégia política com viés econômico diante da crise internacional”, afirma. Segundo ele, os trabalhadores Sem Terra da região junto com o MST passaram a denunciar de forma mais sistemática a existência das terras devolutas do Pontal a partir da década de 1980, e a reivindicar sua destinação para a Reforma Agrária. Ao longo das décadas seguintes, entre 145 mil e 150 mil hectares teriam sido recuperados e transformados em assentamentos rurais, abrigando cerca de 8 mil famílias. “Mas ainda há mais de 240 mil hectares nas mãos dos fazendeiros, e agora o projeto de lei está institucionalizando essa grilagem para os fazendeiros”, afirma. _O Joio e O Trigo_ também aponta a dimensão política da disputa. A reportagem afirma que o governo Tarcísio transformou a regularização fundiária em uma de suas principais bandeiras e passou a associá-la à ideia de “segurança jurídica” e atração de investimentos para a região. Gerson Oliveira acrescenta que, entre os argumentos apresentados pelos defensores da titulação, está a possibilidade de acesso a crédito, já que a insegurança jurídica dificultaria o financiamento das propriedades. Para ele, porém, o processo pode ir além: “É também uma preparação, na minha opinião, para um cenário de reprodução da lógica de especulação financeira sobre as terras, que é muito parecido com o que vem ocorrendo, por exemplo, na região do Matopiba e em outras regiões brasileiras, onde a terra passa a configurar como um ativo, como uma espécie de ativo econômico para as empresas internacionais”, diz. ## **Da terra ao subsolo** A mesma fragilidade fundiária, segundo o pesquisador, ganha outra dimensão quando se considera a exploração mineral. No Brasil, os recursos minerais do subsolo pertencem à União, independentemente da propriedade da superfície. Para Gerson Oliveira, isso cria uma relação específica entre quem possui a terra e as empresas interessadas na exploração mineral: “Quando há dúvidas, quando há sobreposição, quando há um questionamento sobre o proprietário dessas áreas, isso gera novas disputas”, afirma. O problema, segundo ele, é que a indefinição sobre a propriedade pode favorecer as empresas interessadas na exploração: “Quando há essa dúvida, facilita para as empresas, porque está em disputa judicial, está em disputa entre os possíveis proprietários, e aí acaba que ela não precisa pagar essa indenização, essa participação”, diz. Para comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e tradicionais, a situação seria ainda mais grave, segundo Gerson Oliveira: “Quando é uma comunidade indígena, ou quilombola, ou ribeirinha, ou tradicional, facilita ainda mais, porque, em geral, esses povos não têm o direito de propriedade dessas áreas, então a empresa não precisa pagar nada”, afirma. Ele relaciona a exploração mineral também a impactos ambientais, conflitos territoriais e pressão sobre comunidades: “São grandes extensões que são exploradas, e ali não se dá mais nada, a produção praticamente é morta, o solo acaba sendo transformado em terra morta, sem nutrientes”, diz. O pesquisador afirma ainda que as consequências não se restringem ao solo. Ele cita a pressão sobre recursos hídricos, a violência em áreas de conflito e a exploração mineral ilegal. “Todo o processo de exploração da mineração envolve um uso intensivo de recurso hídrico, e isso acaba levando à seca e à escassez de água nas comunidades, não apenas para a produção agrícola, mas para o consumo humano”, afirma. Gerson Oliveira também chama atenção para a presença de interesses minerários em áreas destinadas à Reforma Agrária: “Para você ter uma ideia, 50% dos territórios de assentamentos no Brasil já passam por essa insegurança em relação a essas pressões de interessados na exploração minerária”, afirma. ## **A disputa pela soberania** É nesse ponto que a discussão sobre propriedade da terra, Reforma Agrária e mineração, na avaliação de Gerson Oliveira, passa a ser também uma discussão sobre soberania. Para o pesquisador, a ausência de um mapeamento completo das propriedades rurais brasileiras ajuda a perpetuar a insegurança fundiária: “Ainda hoje não há um mapeamento 100% organizado sobre a extensão do território brasileiro e o tamanho exato das propriedades”, afirma. “Não se sabe o real tamanho das propriedades e quem são os verdadeiros donos de grande parte dos latifúndios brasileiros.” Na leitura de Gerson Oliveira, essa situação não é apenas uma deficiência administrativa. Faz parte de uma estrutura histórica relacionada ao modelo de desenvolvimento brasileiro: “Então é um projeto de Estado, desde sempre, que está voltado para aquilo que o Caio Prado Júnior definiu como sentido da própria colonização, que é o fornecimento de mercadorias primárias para as metrópoles”, afirma. “Se o modelo é agroexportador, então faz sentido manter essa insegurança jurídica sobre a propriedade e essas grandes extensões de terra na mão de um conjunto reduzido de famílias”, completa. O pesquisador também relaciona esse processo ao avanço do capital internacional sobre terras e recursos brasileiros: “Há toda uma conformação hoje que está muito avançada no sentido de facilitar a exploração do capital internacional sobre esses recursos, sobre essas terras no Brasil, que colocam em xeque a própria soberania brasileira, a soberania territorial do nosso país”, afirma. A resposta, para ele, passa por uma política que articule Reforma Agrária, soberania territorial e controle sobre os recursos naturais: “Para romper com esse padrão, a gente volta à questão da Reforma Agrária como alternativa, inclusive, para a soberania nacional, para a soberania territorial, para a soberania alimentar e para a soberania popular na mineração”, diz. Gerson Oliveira defende ainda a revisão do Código de Mineração e de normas que, segundo ele, facilitaram a atuação do capital internacional, além da demarcação de territórios indígenas e quilombolas e da definição de áreas destinadas à Reforma Agrária. Também considera necessário estabelecer limites para a exploração mineral em áreas ambientalmente sensíveis: “Não é possível permitir a exploração de minérios, seja de terras raras ou minerais críticos, em áreas sensíveis”, afirma. Para ele, o debate precisa incluir os movimentos sociais que acompanham os impactos da mineração: “Acho que a gente precisa ouvir mais o que o Movimento pela Soberania Popular na Mineração tem dito. O Movimento dos Atingidos por Barragens também tem há muitos anos defendido. E o MST e as comunidades indígenas quilombolas têm denunciado em relação a esse modelo predatório de exploração mineral.” Passados 176 anos da aprovação da Lei de Terras, a disputa permanece. Mudam os produtos e os interesses econômicos — da terra para o café e a cana ao interesse contemporâneo por minerais críticos e terras raras —, mas, para Gerson Oliveira, permanece a questão central: quem controla o território e quem se beneficia de sua riqueza. Editado por: Aline Antunes * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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September 18, 2026 at 2:47 PM
_Foto: Jonas Santos_ _Por Coletivo de Comunicação do MST na Bahia Da Página do MST_ Neste ano, quando se completam 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, um dos episódios mais violentos da história recente do Brasil e que permanece marcado pela impunidade, cerca de 2 mil trabalhadores e trabalhadoras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST realizam importante marcha na Bahia. A mobilização percorrerá mais de 120 quilômetros, entre os municípios de Feira de Santana a Salvador, entre os dias 08 e 17 de abril, reunindo famílias acampadas e assentadas de diversas regiões do estado. Durante o trajeto, os Sem Terra irão dialogar com a população sobre a importância da Reforma Agrária Popular e a urgência de enfrentar as desigualdades e violências no campo brasileiro. A marcha tem como lema: “30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás: Por Memória, Justiça e Reforma Agrária Popular”, reafirmando a luta histórica pela democratização do acesso à terra no país. _Foto: Coletivo MST BA_ Na Bahia, a marcha também denuncia a persistência da violência no campo e presta homenagem às vítimas dos conflitos agrários recentes no estado, como Fábio Santos (02/04/2013), Márcio Matos (24/01/2018) e Nega Pataxó (21/01/2024). Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1985 e 2024, cerca de 1.833 pessoas foram assassinadas devidos aos conflitos no campo no Brasil. Até novembro de 2024, foram 11 mortes no campo, sendo que quase metade foi cometida por fazendeiros. Esse cenário revela a permanência de um modelo agrário sustentado, entre outros fatores, pela violência e pela impunidade. A Marcha Estadual integra a Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária, que neste ano tem como lema: “Em defesa da Reforma Agrária Popular: basta de violência contra os povos e a natureza”, que ocorre de 13 a 17 de abril, em todo o país. Com organização e mobilização, trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra de toda a Bahia vão seguir em marcha denunciando as diversas formas de violência promovidas pelo latifúndio e pelo agronegócio, ao mesmo tempo em que apresentam à sociedade um projeto popular de agricultura, baseado na justiça social, na preservação dos bens naturais e na construção de relações mais igualitárias. **Atividades durante a marcha** Ao longo do percurso, estão previstas atividades de formação política, ações de solidariedade e debates sobre a conjuntura nacional e os desafios da luta pela terra. **Em memória aos lutadores e lutadoras do campo** O Massacre de Eldorado do Carajás ocorreu em 17 de abril de 1996, na chamada “Curva do S”, no sudeste do Pará, quando cerca de 155 policiais militares atacaram trabalhadores rurais Sem Terra durante uma marcha. A ação resultou no assassinato de 21 trabalhadores, sendo 19 no local e dois posteriormente, em decorrência dos ferimentos. * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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April 7, 2026 at 12:45 AM
_Foto: Gustavo Marinho_ _Por Gustavo Marinho Da Página do MST_ O próximo dia 29 de novembro marca os 20 anos do assassinato de Jaelson Melquíades, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Atalaia, na Zona da Mata de Alagoas, e em cobrança por justiça e denunciando a impunidade e violência no campo, camponeses e campoenesas realizam um conjunto de ações. Em Atalaia, cidade onde o assassinato aconteceu há duas décadas, o MST realiza um momento religioso no Povoado Ouricuri, com a celebração de uma missa em memória de Jaelson na Igreja de São Sebastião, a partir das 10h. A previsão é reunir amigos do Movimento, familiares de Jaelson, além dos camponeses e camponesas da região. _“Para nós esse é um dia de muita dor, mas especialmente um dia de reafirmar nossa disposição de lutar. O assassinato de Jaelson foi como um recado para acabar com o MST na região”_ , explicou Margarida da Silva, assentada no município e integrante da direção do Movimento. Segundo Margarida, a morte de Jaelson pegou todos de surpresa mas em momento algum fez a luta pela terra diminuir no município. _“A gente seguiu se fortalecendo, organizando nossa luta e avançando com nossas conquistas. Jaelson deixou sementes e nós seguimos o seu exemplo de perseverança e de resistência”_ , comentou. _Foto: Mykesio Max_ Após a celebração religiosa, os camponeses e camponesas realizam ainda um almoço coletivo. Ainda como parte das ações do dia 29 de novembro, outros municípios se somam às iniciativas em memória de Jaelson e em denúncia à violência no campo. _“Já temos previstas ações de plantio de árvores em vários acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária de várias regiões de Alagoas, organização de momentos religiosos e debates que devem pautar o tema da violência e impunidade”_ , sinalizou Silva. **Jaelson Melquíades** Dirigente do MST em Atalaia, Jaelson foi assassinado fruto de um consórcio do latifúndio da região e a conivência de autoridades políticas da região. Jaelson foi morto numa emboscada armada, surpreendido por pistoleiro quando se deslocava de uma atividade. Desde seu assassinato o caso de Jaelson esteve impune, quando somente em agosto de 2016, após muita cobrança dos movimentos de luta pela terra, um suposto executor do crime foi preso. Desde então, as organizações camponesas marcam o dia 29 de novembro como o Dia Estadual de Luta Contra a Impunidade e a Violência no Campo e na Cidade. _*Editado por Leonardo Correia._ * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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November 27, 2025 at 7:30 PM
2º dia do Conselho popular do BRICs _Foto: Priscila Ramos_ _Da Página do MST_ Entre os dias 1 e 4 de dezembro, a cidade do Rio de Janeiro (RJ) sediará a Cúpula Popular do Brics, um espaço de debate e articulação que reúne movimentos populares e a sociedade civil, com o objetivo de garantir um canal de comunicação permanente com o bloco oficial. A atividade, que acontecerá no Armazém da Utopia, reunirá cerca de 150 pessoas de 21 países, responsáveis por debaterem a cooperação econômica e a construção da multipolaridade, a reconfiguração da geopolítica mundial, o próprio papel do Brics e a questão da desdolarização. No primeiro dia de atividade, segunda-feira, 1 de dezembro, será realizada uma coletiva de imprensa, às 11h, para apresentar os objetivos da atividade e trazer a perspectiva popular sobre o Brics e a geopolítica mundial. A coletiva acontecerá no próprio local do evento, no Armazém da Utopia, com acesso mediante credenciamento. Trata-se de um evento histórico, tanto por ser a primeira atividade do Conselho Civil Popular do Brics quanto por ser o último grande evento sob a presidência brasileira no bloco, antes de repassar à Índia no ano que vem. O evento contará com a presença do sherpa brasileiro no Brics, o embaixador Maurício Carvalho Lyrio, e de Antônio Freitas, subsecretário de Finanças Internacionais e Cooperação Econômica do Ministério da Fazenda e um dos principais representantes do país nas negociações financeiras e econômicas no Brics e no G20. Dilma Rousseff, presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), e ex-presidenta do Brasil, participará da atividade de forma virtual. O Conselho Civil Popular do Brics foi criado e reconhecido pela Cúpula de Líderes de Kazan, na Rússia, em 2024, e reúne diversas organizações populares e representantes da sociedade civil, entre movimentos, partidos, intelectuais e acadêmicos dos países do Brics. O espaço busca promover o diálogo entre atores da sociedade civil e governos dos países do Brics, por meio da participação na elaboração de propostas voltadas à cooperação entre os Povos do Sul Global. ## Programação [PT] Programacao Resumida_Cupula Popular dos BRICSBaixar _*Editado por Lays Furtado_ * Whatsapp * Facebook * Twitter * Copy
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November 26, 2025 at 5:37 PM