A trajetória misteriosa do pintor e gravurista Alejandro Mario Yllanes, que teve uma obra 'extraordinária' resgatada do lixo
A pintura é "incrível" e "impressionante"; já o artista, praticamente desconhecido. Adam M. Levine, diretor do Museu de Arte de Toledo, em Ohio, só tomou conhecimento do pintor e gravurista boliviano Alejandro Mario Yllanes em meados do ano passado, quando viu "Lago Titicaca", um óleo sobre estopa imenso de 1935 que retrata um barqueiro andino, em uma galeria de arte de Londres. Ficou impressionado com a cena, o barco de junco em águas ondulantes, cercado por montanhas azuis. Em maio, a instituição comprou a obra para exibi-la como destaque da coleção, que será reaberta no ano que vem, depois de uma grande reforma. Em entrevista por Zoom, ele descreve: — É uma pintura forte e linda. O que não deixa de ser uma reviravolta espantosa para uma tela que, segundo vários relatos, foi resgatada de uma lixeira de Nova York na década de 70. Detalhe de “Lago Titicaca”, uma pintura a óleo sobre juta de 1935 de Alejandro Mario Yllanes, no Museu de Arte de Toledo, em Toledo, Ohio, em agosto de 2026. NIC ANTAYA/The New York Times Legado esquecido Yllanes (1913 – 1960) foi um dos protegidos de Diego Rivera, o grande artista mexicano dos murais populistas, que defendeu a coragem com que criava obras de forte conteúdo político, admirado (e castigado) por retratar as dificuldades brutais e os rituais coloridos dos indígenas bolivianos. Há poucos vestígios de sua vida após 1950, mas ele deixou pinturas, gravuras e registros em um apartamento no Upper West Side, em Manhattan. Abandonados pelo autor, praticamente desconhecido, acabaram na casa de um policial astuto e, de lá, foram parar no depósito de um colecionador francês. Agora, o artista autodidata está sendo redescoberto. Desde 2023, o Museu Metropolitano de Arte e o Frances Lehman Loeb Art Center, no Vassar College, adquiriram várias obras suas em papel; o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (conhecido como Malba) e o Museu de Arte do Bowdoin College, no Maine, compraram pinturas a óleo em grande escala; em Toledo, "Lago Titicaca" ficará exposta em uma galeria ao lado de obras de Peter Paul Rubens, Mark Rothko e Hale Woodruff, segundo Levine. O movimento foi liderado por Rachel e Ben Elwes, proprietários da Ben Elwes Fine Art em Londres, que tomaram conhecimento de Yllanes há alguns anos, graças a David Le Louarn, cliente francês que comprou o acervo de Manhattan no início dos anos 2000 e lhes consignou a obra. — Dava para ver claramente que era um legado que havia sido negligenciado — lembrou ela, por videochamada, de Londres. Os Elwes exibiram o acervo em outubro de 2023, gerando interesse – e desde então, diversos museus, principalmente nos EUA e no Canadá, adquiriram mais de 20 obras por valores que variam de US$ 400 mil a US$ 1,9 milhão, segundo os negociantes. Para Michele Greet, professora de história da arte na Universidade George Mason e autora de um livro sobre arte indígena latino-americana, a obra de Yllanes é uma "descoberta significativa". De fato, ela mesma só o conheceu porque foi contratada pelos Elwes para pesquisá-lo. — Ele reforçou a voz do 'indigenismo' latino-americano, movimento que se concentrava nos povos pré-colombianos, basicamente colocando a Bolívia no mapa desse conceito mais amplo. Detalhe de “Lago Titicaca”, de Alejandro Mario Yllanes NIC ANTAYA/The New York Times Uma vida cheia de drama Yllanes nasceu em uma família aimará, na cidade mineradora de Oruro. Aos 18 anos, ficou órfão, foi trabalhar em uma mina de estanho, abandonou o curso de direito e realizou a primeira exposição individual. Na Bolívia, sua crítica política lhe rendeu admiradores e inimigos: contou a um jornal mexicano, em 1946, que havia sido banido e forçado a viver na Amazônia por um ano, na década de 30, e que, em 1941, passou um breve período preso após uma exposição polêmica. Em outros lugares, porém, era aclamado, tendo realizado uma exposição individual na Cidade do México, em 1946, para a qual Rivera escreveu uma introdução elogiosa, chamando a atenção dos colegas conterrâneos para o "camarada Yllanes", que sofrera as consequências das "afirmações revolucionárias expressas em sua arte". Ainda no auge desse sucesso, mudou-se para Nova York em 1947 com a mulher, María Frontaura Argandoña, professora proveniente de uma prestigiada família de esquerda, de acordo com os documentos compartilhados pela Ben Elwes Fine Art. Em 1948, ganhou uma bolsa de US$ 2.500 da Fundação John Simon Guggenheim Memorial para pesquisar a cultura indígena americana e estudar pintura. Depois disso, porém, pouco se sabe. Os pesquisadores encontraram poucas pistas sobre sua última década de vida, pressupondo que acabou morto pelas milícias de direita na Bolívia ou que teria retornado ao México e morrido por lá. Já os documentos e cartas analisados pelo "The New York Times" sugerem que passou parte da década de 50 em Nova York, onde talvez tenha morrido. No censo de 1950, ele consta como morador do prédio no número 419 da West 115th St., de propriedade da Universidade de Columbia, onde acabou deixando suas obras, entre elas, "Lago Titicaca" e as outras pinturas em grande escala – que desde então foram vendidas a museus. Além dessa coleção, tudo o que restou de Yllanes foi um punhado de murais e pinturas na Bolívia. Em Manhattan também foram encontradas dezenas de obras em papel, entre elas "Sete de Junho" (1939), litografia na qual várias figuras encapuzadas cercam um militar, com uma delas apontando uma arma para sua cabeça; e "Autorretrato", xilogravura de 1941 na qual lança um olhar severo ao espectador. Ambas foram adquiridas em 2024 pelo Met, que possui seis dessas peças, compradas dos Elwes e de seu cliente francês. Mas como elas foram parar nas mãos dele? Detalhe de “Lago Titicaca”, uma pintura a óleo sobre juta de 1935 de Alejandro Mario Yllanes NIC ANTAYA/The New York Times Um encontro casual De acordo com o casal, a coleção esquecida no apartamento foi adquirida por Edward Ford, policial, e sua mulher, Teresa, em 1978, e com exceção de três ou quatro exposições no Vale do Hudson, passaram boa parte dos 45 anos seguintes em um depósito. Os detalhes dessa compra variam. A papelada preparada para uma mostra no Bard College, em 1992, afirma que Ford foi "mencionado no testamento de uma senhora idosa e solitária que costumava visitar em sua rota de patrulha" no Upper East Side. Acontece que o tal documento jamais apareceu, como atestou Angelina Giovani, especialista em proveniência que pesquisou o ateliê de Yllanes – e, na verdade, Ford patrulhava o Upper West Side. Já os três vizinhos dele no Vale do Hudson que o ajudaram a pesquisar, expor ou vender as obras de Yllanes entre os anos 90 e o início dos anos 2000, deram uma versão diferente. — Foi ele que as encontrou. Estavam em uma lixeira. Vendi várias obras de Yllanes, inclusive gravuras em madeira e um autorretrato a óleo — afirmou William Jenack, ex-proprietário da William J. Jenack Estate Auctioneers em Chester, no estado de Nova York. Em entrevista concedida em casa em Loch Sheldrake, o artista e designer gráfico Nicholas Clemente contou ter conhecido Ford no fim da década de 80 e, em 1992, foi curador de uma exposição de Yllanes no William Paterson College, em Nova Jersey. — Ford me contou que encontrou as obras enroladas dentro de um tubo de metal em uma das lixeiras na frente de casa, em Columbia. O zelador do prédio guardou o conjunto durante vários anos, mas acabou desistindo de esperar que alguém voltasse para buscar. Acabou entregando tudo a ele, além de várias caixas com obras em papel e documentos. De acordo com um obituário on-line, Ford morreu em 2021; nem Teresa nem os dois filhos do casal foram encontrados. Tudo indica que o zelador era Louis Nieves, falecido em 2019, segundo sua enteada, Yvette Mazzamuto; ela também disse que o padrasto nunca lhe falou nada sobre as obras, mas, após a entrevista que concedeu por telefone, encontrou folhetos das exposições na William Paterson e na Bard entre os documentos dele. Clemente concordou em pesquisar e promover o trabalho de Yllanes em troca de uma porcentagem das vendas, mas disse que os dois se separaram por volta de 2003 porque Ford vendeu algumas pinturas e o deixou de fora do negócio. Em vez do pagamento, recebeu algumas peças, incluindo quatro estudos para murais e mais de uma dúzia de xilogravuras. Foi o terceiro homem, Anthony Gross, negociante de arte e antiguidades de Woodbury Falls, que apresentou Ford a um colega que conhecia David Le Louarn, e vendeu a ele as pinturas entre US$ 10 mil e US$ 15 mil cada, mas afirmou não lembrar o nome do sujeito. Já "Lago Titicaca" seguiu um caminho diferente. — Essa eu vendi para um colecionador de Rhinebeck, no início dos anos 2000. Le Louarn a comprou dessa pessoa em 2021. Por e-mail, afirmou ter ficado "intrigado e encantado" ao se deparar com a pintura, há cerca de 20 anos, e decidiu vendê-la anos depois porque "tinha chegado a hora do artista". Levine se recusou a revelar quanto o Museu de Toledo pagou por ela. Por e-mail, disse apenas que a instituição achou a versão alternativa "curiosa". — Ela difere nos detalhes, mas ajuda a reforçar a sequência de propriedade — contou. — Yllanes não está mais entre nós, mas sua arte extraordinária permanece. Só que foi simplesmente ignorada pelas instituições e pelo mercado. Temos de ser honestos na diferenciação entre desaparecimento e o fato de ninguém lhe ter prestado muita atenção — acrescentou.