Teste: GAC GS3 deveria vender mais? Avaliamos pontos fortes e fracos do SUV
Bebês começam a andar entre 12 e 15 meses após o nascimento. Um aluno disciplinado pode aprender a tocar músicas no violão com fluência seis meses depois das primeiras aulas. Em um ano, uma marca chinesa consegue adaptar um veículo vendido na China para o gosto do público brasileiro. Esse é o caso do GAC GS3, que Autoesporte testou com exclusividade em Guangzhou, em outubro de 2025. Na época, destacamos a necessidade de ajustes para o gosto do consumidor brasileiro. Doze meses depois, com o SUV já à venda no Brasil, este mesmo jornalista teve um novo contato com o modelo, com direito a um teste instrumentado completo, para saber se a GAC fez a lição de casa, sanando os pontos de atenção e mantendo as qualidades. A melhor notícia é que o GS3 é um carro de porte médio com preço de compacto. A versão Premium, mais barata, é vendida por R$ 139.990, menos do que um Volkswagen Tera High. Um pouco acima está a Elite, aqui testada, de R$ 159.990, o mesmo valor de um Nissan Kicks Sense, a opção de entrada do SUV japonês. É a velha tática de oferecer mais por menos, mas com uma fórmula cada vez mais aprimorada. Afinal, além de levar um SUV com porte de Compass a preço de Tera, o comprador do GS3 vai adquirir um carro bem equipado. A versão Elite tem chave presencial, partida por botão, teto solar panorâmico, bancos de couro com ajustes elétricos para o motorista, central multimídia de 14,6", carregador por indução, faróis de LED com acendimento automático e um conjunto de assistências formado por frenagem de emergência, alertas de ponto cego e assistente de permanência em faixa. Estilo esportivo é reforçado pelas saídas de escape falsas e pelo spoiler traseiro Divulgação A lição de casa só não foi feita por completo porque o ar-condicionado digital só tem uma zona e o quadro de instrumentos é pequeno, com apenas 7". Informações como a rotação do motor e o nível de combustível são mostradas em telas de LCD nas extremidades. Nada que desabone o GS3, principalmente diante de rivais nacionais, mas acabamos ficando mal acostumados com tantos recursos disponíveis em outros carros chineses, da GAC inclusive. + Quer receber as principais notícias do setor automotivo pelo seu WhatsApp? Clique aqui e participe do Canal da Autoesporte. O assistente mais legal do GS3, aliás, é o estacionamento autônomo: o carro entra sozinho em vagas paralelas ou perpendiculares. Diferentemente de outros veículos com park assist, no GS3 o motorista não precisa controlar nem o freio ou o câmbio: o SUV faz tudo sozinho. Em nossos testes, o carro entrou em diferentes vagas com segurança e sem manobras bruscas. GAC GS3 Elite tem o mesmo entre-eixos do T-Cross, mas é mais largo que um Compass Divulgação O capricho no acabamento do GAC faz parecer que o esmero e a escolha dos materiais são algo empírico dos chineses, e não uma habilidade adquirida há cerca de uma década. Painel, portas e console central recebem uma espécie de vinil acolchoado. Ainda há plástico emborrachado, imitação de alumínio e um material em preto brilhante nas molduras das saídas de ventilação e das telas. É um estilo bem mais sóbrio do que o do exótico GS4, mas a presença de botões físicos o coloca em um patamar mais amigável e menos disruptivo que o Aion UT, o que é positivo para quem não é tão afeito a tecnologias. Initial plugin text Mesmo no banco traseiro, onde as fabricantes costumam economizar dinheiro adotando materiais de qualidade inferior, o GS3 preserva o vinil no encosto de braço das portas laterais, o que contribui para uma viagem mais confortável. Em relação ao espaço, mesmo que compartilhe os 2,65 metros de entre-eixos com o Volkswagen T-Cross, a percepção é de que a cabine do GAC GS3 é maior, devido aos 9 centímetros a mais de largura (1,85 m x 1,76 m). Assim, quem viaja no meio tem mais folga para os ombros e ainda é contemplado com assoalho praticamente plano, console bem recuado e assento não tão elevado como em outros modelos. GAC GS3 tem design marcado por traços recortados e cheios de vincos Divulgação Voltando para o cockpit, dou a partida e me lembro do brevíssimo test drive com o GS3 na sede da GAC, na China. Na ocasião, guiei por não mais do que 2 km, mas saí do carro com a clara percepção de que aquele acerto dinâmico precisaria ser muito bem retrabalhado. O principal incômodo nem era a suspensão com ajuste muito rígido de amortecedores e molas, embora permissiva às oscilações laterais da carroceria. Nesse aspecto, as pancadas secas foram suavizadas, mas ainda estão presentes na versão importada para o Brasil. O mea-culpa é que o ajuste não é muito diferente do de um Volkswagen T-Cross, por exemplo. Aliás, a suspensão traseira por eixo de torção é simples e destoa da proposta do GS3. Teste: BMW iX3 quer ser o carro mais tecnológico do Brasil; consegue? Teste: BYD Atto 2 faz 22 km/l e quer tomar liderança de Creta e T-Cross Teste: Jaecoo 5 faz 22,7 km/l e ainda é mais barato e rápido que Yaris Cross O maior problema do SUV estava na falta de sincronismo entre acelerador, câmbio e motor. A boa notícia é que a engenharia brasileira parece ter acertado o compasso. Se, antes, ao pisar no acelerador, o motor levava até 2 segundos para responder, agora as reações estão bem mais imediatas. O câmbio de dupla embreagem (banhado a óleo) de sete marchas também melhorou, fazendo trocas silenciosas e em momentos mais adequados. GAC GS3 Elite 2026: cabine é típica de carros chineses, mas há alguns botões físicos Divulgação Mas houve algumas perdas. O GS3 vendido no Brasil tem 7 cv e 2 kgfm a menos do que o chinês, para que o SUV cumpra normas locais de emissões. Ainda assim, com 170 cv de potência e 25,5 kgfm de torque, o motor 1.5 turbo a gasolina deixa o SUV entre os mais potentes do segmento. Tanto que, em nosso teste no Rota 127 Campo de Provas, o GS3 levou só 8 s para ir de 0 a 100 km/h, mesma marca do Caoa Changan Uni-T (180 cv) e 0,4 s mais rápido que o Honda HR-V (177 cv), ambos equipados com motores igualmente 1.5 turbo de injeção direta, porém flex. O bom desempenho, em partes, cobra a conta no consumo rodoviário. Em nossos testes, sempre com o ar-condicionado ligado, o GS3 fez 12,7 km/l, menos do que os rivais diretos e bem pior que os 14,1 km/l do HR-V turbo. Na cidade, os 11 km/l registrados compensam, superando os concorrentes. Os números mostram que o câmbio está ajustado com uma relação mais curta. GAC GS3 Elite 2026 tem acabamento de boa qualidade com couro e vinil Divulgação Falando na transmissão, a hesitação do câmbio observada na China também parece ter ido embora. Nas provas de retomada, em que a caixa é exigida para reduzir marchas na hora certa, o GS3 de novo se saiu melhor que os modelos citados anteriormente. Foram 4,5 s para ir de 60 km/h a 100 km/h. Na prática, um motorista pode fazer ultrapassagens com mais segurança. Porta-malas de 341 litros é pequeno para um SUV de porte médio Divulgação O único ponto de incômodo são pequenos trancos partindo da imobilidade ou em retomadas a velocidades mais baixas, uma característica típica de caixas de dupla embreagem que a GAC não conseguiu dirimir. Outro detalhe é que o GS3 vendido no Brasil ainda carece de uma direção mais precisa e menos anestesiada. No modo Comfort, fica leve demais; no Sport, torna-se muito dura para manobras na cidade. GAC GS3 Elite 2026 Divulgação Mas o saldo da preparação feita no GS3 para o Brasil ainda é positivo. O aprendizado segue e só deve ser concluído em 2027, quando a GAC vai começar a montar o SUV médio na fábrica da HPE em Catalão (GO), já com motor turbo flex. Até lá, a marca chinesa precisará tomar aulas de reforço em outro aspecto: as vendas. GAC GS3 Elite 2026 Divulgação Lançado em março, o GS3 teve menos de 1,5 mil unidades emplacadas. O Caoa Changan Uni-T, que chegou no mesmo mês, já passou de 4 mil, mesmo sendo mais caro e também sem eletrificação. Ou seja, para que este chinês aprenda a falar português fluentemente, ainda vai levar tempo, paciência e dedicação. GAC GS3 Elite 2026 - Prós e contras Pontos positivos: desempenho, acabamento, espaço interno e custo/benefício Pontos negativos: consumo rodoviário, porta-malas e trancos do câmbio em retomadas GAC GS3 Elite 2026 GAC GS3 Elite 2026 Relembre nosso teste com o GAC GS3 chinês: Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da Autoesporte? É só clicar aqui para acessar a revista digital. Mais Lidas