O hype dos tênis acabou? Entenda as mudanças no mercado de sneakers
Nas últimas duas décadas, os sneakers — termo do streetwear para tênis especiais — se consolidaram como objeto de desejo poderoso na moda contemporânea, carregando uma cultura em que consumo e identidade se misturam. Não por acaso, surgiram aos montes grupos de sneakerheads, nome dos entusiastas e colecionadores, sempre à caça dos modelos o mais exclusivos possível. Ultimamente, porém, esse mercado tem passado por transformações. O movimento está balizado pelo vaivém das tendências. “Quando as pessoas falam em hype de tênis, referem-se principalmente à prática da revenda, a quanto o tênis vale depois de sair da loja”, explica Ricardo Nunes, fundador da página SneakersBR, que divulga notícias sobre o tema desde 2007. Algumas plataformas, como o marketplace StockX, ajudaram a consolidar essa lógica ao transformar o preço no comércio secundário em termômetro de sucesso do produto e em estratégia das próprias marcas. Durante a pandemia de covid-19, a partir de 2020, redes sociais como o TikTok trouxeram uma avalanche de vídeos de jovens ostentando seus novos pares. Entre unboxings, reviews e coleções enormes, os tênis passaram a ganhar terreno no algoritmo com foco em certos modelos, a exemplo do Air Jordan 1 e do Dunk Low “Panda” (preto e branco), ambos da Nike. As centenas de milhares de publicações com as hashtags #airjordan e #nikedunk ajudam a dimensionar o alcance do fenômeno. “No início da pandemia, foi bem assustador, porque imaginávamos que as vendas cairiam. Era um raciocínio lógico, porque ninguém saía de casa”, lembra Pedro Prado, um dos fundadores da Guadalupe Store, loja referência em sneakers fundada em 2011. Aconteceu o oposto. Isolado, mas conectado, o público amplificou sua exibição on-line e, consequentemente, passou a consumir mais. “O tênis virou um investimento, financeiro e de moeda social. Teve muito essa coisa do tênis para ganhar likes”, analisa Ricardo. Nesse contexto, o mercado de revenda atingiu seu auge. Um modelo como o Dunk, com preço de varejo na casa dos R$ 600, mas que se esgotava rapidamente nas prateleiras, facilmente triplicava seu valor no paralelo. Em versões mais disputadas, do naipe de colaborações limitadas — caso do Dunk SB Low em parceria com o cantor Travis Scott ou da collab com a empresa de sorvetes Ben & Jerry’s —, os valores chegavam aos R$ 15 mil. “A escassez gera desejo”, resume Victor Santo, profissional de marketing e criador do projeto Papo de Tênis, que promove discussões a respeito da cultura sneaker. Com oferta limitada e demanda amplificada pelas redes sociais, os produtos se valorizaram bastante no comércio secundário. O crescimento acelerado bagunçou a dinâmica do setor. Criou-se um cenário fora do normal, em que a procura parecia infinita. O pico, no entanto, não se sustentou. “A demanda se estabilizou e muita coisa acabou estocada. Marcas fabricaram mais que aquilo que o público absorveu”, explica Pedro. Opções que antes garantiam lucro rápido passaram a perder valor de revenda. Nem mesmo as grandes companhias ficaram imunes. Em abril último, por exemplo, a Nike viu suas ações despencar 15,5% em um único dia após divulgar estimativas de queda nas vendas para os próximos meses. Até setembro, o acumulado de baixa anual do negócio girava em torno de 39%. Vale dizer que, além de mudanças de comportamento, esses tombos se devem a custos elevados com reestruturações, desaceleração econômica em mercados importantes como a China e instabilidade política, entre outros fatores. “Quando um gigante desses tropeça, todo mundo atrás reduz a velocidade”, analisa Alexandre Felix, consultor do mercado calçadista e fundador do projeto Sneakers Mob. Entretanto, vale cautela antes de adiantar qualquer cenário de desastre. “Só voltamos para um estágio mais sustentável do que era durante a pandemia”, afirma Ricardo. Híbrido entre tênis e loafer da Mizuno. Divulgação “Entendo como uma regulação de mercado”, completa Pedro. Assim, outras marcas ganharam relevância. A New Balance, por exemplo, cresceu ao dialogar com clientes interessados nos retrôs, como os “daddy shoes”. A suíça On se fortaleceu ao unir performance e lifestyle, com modelos que transitam entre o esporte e o uso cotidiano, enquanto a Hoka avançou ao apostar em conforto e tecnologia. “Essas empresas que não estavam tanto no radar entenderam o que está acontecendo culturalmente. Foi uma sacada de mestre”, pontua Victor. Existe ainda outro fator importante nas mudanças recentes: depois de anos dominada pelo streetwear, a moda vive um momento mais conservador, impulsionado em parte pelas incertezas globais. Estéticas do tipo quiet luxury e old money trouxeram de volta uma valorização de peças tradicionais, também em relação aos sapatos. Mocassins, loafers e sapatilhas passaram a disputar espaço com os tênis, inclusive entre os mais jovens. Não à toa, marcas esportivas responderam com modelos híbridos, como o Loafer 1906L da New Balance e o Wave Prophecy Moc, da Mizuno. “Retornamos a uma fase em que o tênis é importante na construção do visual, mas não o mais importante. Ele precisa fazer sentido dentro do contexto”, diz Ricardo. O público feminino impulsionou fenômenos como o Dunk Panda e o Adidas Samba, antes de eles serem incorporados às sapateiras masculinas. Ricardo acredita que a moda atual dos tênis low profile entre homens e mulheres, com a sola finíssima, também traz forte influência delas. Esses modelos mais baixos, inspirados em referências vintage e esportivas como chuteiras e sapatilhas de boxe, ganharam força tanto nas ruas quanto nas passarelas, caso do desfile da temporada de verão 2026 do belga Dries Van Noten. O cantor Harry Styles, por exemplo, aderiu à tendência ao surgir com uma peça desse estilo nas fotos de divulgação do álbum “Kiss All the Time, Disco Occasionally”, lançado em março. Tênis da Dries van Noten inspirado em sapatilhas de boxe. Getty Images Para os próximos tempos, especialistas acreditam no fortalecimento de marcas como Vans e de solados tipo caixa (resistentes e com bordas laterais altas). O retorno de tênis mais robustos aparece como resposta à onda low profile, com releituras de peças icônicas e aposta em performance — leia-se o Adidas Megaride e o Nike Vomero Plus. “O próximo fenômeno não deve acontecer de forma abrupta, mas em uma transição mais suave”, acredita Ricardo. Em relação ao mercado paralelo, ainda existem lançamentos especiais capazes de gerar alta demanda, mas em uma escala muito menor do que a vista durante o isolamento. Parte dos revendedores migrou para outros segmentos de colecionáveis, como relógios, bolsas e itens da cultura pop, a exemplo de cartas de Pokémon. Agora, os sneakers ocupam um espaço menos estridente, porém ainda relevante. “Os loucos por tênis vão continuar loucos por tênis”, atesta Victor. A revenda não desaparece, mas deixa de ser o principal termômetro de sucesso do setor. O indicador mais relevante torna-se outro: mais do que esgotar o estoque no lançamento, o importante é ver o produto nos pés do público. Revistas Newsletter