Naufrágio de navio-hospital da 2ª Guerra vira refúgio para peixe invasor; fotos
Um navio afundado durante a Segunda Guerra Mundial se tornou um ponto de encontro para animais muito diferentes entre si. Na baía de Vlora, na Albânia, o Po abriga uma comunidade diversificada de animais marinhos, que inclui uma rara foca-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus) e peixes-leão (Pterois miles), uma espécie invasora cuja presença no Mediterrâneo tem avançado com o aumento das temperaturas do mar. Os registros resultam de uma investigação realizada no local entre 2022 e 2024. Durante o trabalho, os cientistas identificaram 28 espécies de peixes no entorno do navio, além de agrupamentos de ovos de lulas e outros organismos que colonizaram os destroços. Os resultados foram descritos em um estudo publicado em julho na revista Frontiers in Ocean Sustainability. Veja imagens: Galerias Relacionadas De navio-hospital a abrigo subaquático O Po foi atingido por um torpedo lançado por um avião britânico Fairey Swordfish e afundou em 1941, durante a Guerra Greco-Italiana. Hoje, seus destroços desempenham um papel bem diferente daquele para o qual o navio foi construído. Mais de 80% de sua superfície está coberta por vida marinha. A explicação está na própria estrutura do naufrágio: metais, cavidades e outras irregularidades criam áreas onde algas e pequenos organismos conseguem se fixar. Essas comunidades, por sua vez, atraem animais em busca de alimento e proteção. O processo é conhecido como formação de um recife artificial. O termo descreve estruturas submersas que acabam funcionando como novos habitats, oferecendo abrigo e criando condições para a instalação de uma comunidade marinha. No caso do Po, os pesquisadores conseguiram reunir informações que até então não estavam disponíveis especificamente para o naufrágio. Embora a baía de Vlora já tivesse sido estudada, faltavam dados detalhados sobre a fauna associada aos destroços e sobre a influência deles no ambiente ao redor. Avanço do peixe-leão Entre os animais encontrados, um chama atenção por sua origem. O peixe-leão é nativo do mar Vermelho e de áreas do oceano Índico Ocidental, mas vem ampliando sua distribuição no Mediterrâneo. Os cientistas registraram até sete exemplares simultaneamente nas proximidades do Po. De acordo com os autores do estudo, o naufrágio pode atuar como uma espécie de ponto de apoio para esses animais, oferecendo abrigo enquanto eles ocupam novas áreas. O achado está entre os registros mais setentrionais da espécie já feitos no mar Adriático e se insere em um fenômeno mais amplo: a entrada de organismos tropicais no Mediterrâneo pelo Canal de Suez e sua expansão favorecida pelo aquecimento das águas. “Infelizmente, não posso chamar isso de uma verdadeira surpresa científica, porque os efeitos das mudanças climáticas já são, infelizmente, bem conhecidos e previsíveis”, afirma Simone Modugno, mergulhadora científica da Universidade de Ferrara, na Itália, e primeira autora do estudo, em entrevista ao portal Live Science. Segundo ela, o aspecto mais preocupante é “a velocidade com que essas mudanças climáticas estão ocorrendo”, impulsionando a chegada de espécies tropicais e exóticas. A pesquisadora também citou temperaturas excepcionalmente elevadas e alterações na salinidade como fatores que ajudam a explicar esse avanço. Ela prevê que o peixe-fogo-diabo poderá se tornar um problema sério na região nos próximos dez anos. Foca reaparece depois de quase três décadas Enquanto o peixe invasor representa um novo desafio ambiental, outra descoberta no naufrágio teve significado oposto. Em agosto de 2023, uma foca-monge-do-mediterrâneo foi registrada descansando entre as cavidades do Po. A observação é especialmente relevante porque a espécie não era confirmada na baía de Vlora desde 1996. A presença do animal sugere que os destroços podem oferecer um refúgio alternativo em uma região onde os habitats naturais estão sob pressão. As focas-monge costumam usar cavernas marinhas protegidas, principalmente em áreas costeiras mais isoladas. Com o avanço do turismo e de outras atividades humanas, porém, esses espaços se tornaram mais restritos. A espécie também enfrenta riscos como o emaranhamento em equipamentos de pesca. Nesse cenário, as cavidades do naufrágio podem representar um local seguro para descanso. O registro não significa que o Po substitua o habitat natural da espécie, mas indica que estruturas artificiais podem ganhar importância quando o ambiente original se torna cada vez mais fragmentado.